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Hartung diz que não foi à inauguração do aeroporto por não aceitar corrupção

Em entrevista, 15 dias após evento no terminal aeroportuário de Vitória, governador afirma que ausência dele foi "sinal certo". Peemedebista só havia se pronunciado por nota

Paulo Hartung
Paulo Hartung
Foto: Reprodução/Facebook

"Nesse campo eu não dou sinal trocado. (...) A minha presença lá seria um sinal. A minha ausência foi outro sinal. A minha presença era um sinal errado. A minha ausência é um sinal certo, de quem quer ver este país organizado." Com essas palavras, o governador Paulo Hartung (PMDB) dá, nesta quinta-feira (12), a sua explicação definitiva para um fato que intrigou os capixabas: sua ausência deliberada no evento de inauguração do novo terminal do Aeroporto de Vitória, realizado no dia 29 de março, com a presença do presidente Michel Temer (também do PMDB) e de cinco ministros de Estado.

Na manhã daquele mesmo dia, a Polícia Federal havia deflagrado a Operação Skala, na qual amigos íntimos de Temer foram presos e mandados de busca foram cumpridos, com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), como parte do inquérito que apura possível favorecimento de empresas com o "decreto dos portos" assinado pelo presidente. Após ter confirmado presença na véspera, Hartung não compareceu à cerimônia. Mais tarde, no mesmo dia, divulgou à imprensa uma nota assinada por ele, defendendo o aprofundamento das investigações.

Nesta entrevista para o Gazeta Online, Hartung afirma que sua decisão de não figurar ao lado de Temer no evento teve mesmo o objetivo de enviar um "sinal claro", que não permite "dubiedades": o de que não compactua com escândalos de corrupção onde quer que seja. "Eu quero ver este país limpando os desmandos, os malfeitos e tudo…" Por isso, o governador preferiu manter distância e não se associar à imagem de Temer naquele dia.

A ausência de Hartung, porém, foi interpretada como desfeita (no mínimo, descortesia) ao presidente da República em pessoa, um gesto que, em tese, poderia trazer prejuízos para os próprios capixabas na relação com o governo federal. Hartung discorda completamente dessa linha de raciocínio: "Está claro que não (prejudica). O que prejudica é omissão". Para reforçar a alegação, ele cita o exemplo da nomeação, nesta quarta-feira (11), da economista Ana Paula Vescovi, sua ex-secretária da Fazenda, para o cargo de secretária executiva do Ministério da Fazenda, o segundo mais elevado na hierarquia da pasta.

Confira, abaixo, o que disse Paulo Hartung sobre o tema, em sua primeira entrevista à imprensa após a inauguração no novo Aeroporto de Vitória.

Sobre sua ausência na solenidade de inauguração do novo terminal do Aeroporto de Vitória, gostaria de lhe perguntar: quais foram os verdadeiros motivos daquela sua atitude?

Está na nota. Nós distribuímos uma nota no mesmo dia sobre a minha posição. Você acorda e todos nós estamos linkados pela internet, pelos meios de comunicação tradicionais, e vê o país de novo sendo sacudido por notícias muito graves. Acho que não tem ninguém que tenha tomado conhecimento das notícias de manhã cedo e não tenha ficado chocado com tudo aquilo. Ninguém aguenta mais essa sucessão de problemas no país. Nesse campo eu não dou sinal trocado. Pode observar: nesse campo da grande política, da macropolítica, eu dou sinal claro do que eu penso. A minha presença lá seria um sinal. A minha ausência foi outro sinal. A minha presença era um sinal errado. A minha ausência é um sinal certo, de quem quer ver este país organizado. Eu quero ver este país organizado. Eu quero ver este país limpando os desmandos, os malfeitos e tudo… Quero ver este país reestruturado e reformado do ponto de vista da competitividade do nosso país e das oportunidades para os nossos jovens. Então, o sinal foi claro. A situação do país é tão grave que não está na hora de a gente ter atitudes com dubiedade na macropolítica do país. Então a atitude é clara. Foi por isso que eu não fui e, mais do que não fui… porque, antigamente, você podia não ir e dizer que a ausência era "autoexplicativa". Nada! Não fui e botei no papel e entreguei para a imprensa local e nacional.

Então foi mesmo para marcar posição no sentido de se dissociar desses escândalos representados pelo governo Temer?

Foi para colocar a minha posição em relação ao que eu estou vendo no país e o que eu quero para o futuro do país.

O senhor teme que isso possa prejudicar de algum modo os interesses dos capixabas e do Espírito Santo?

Está claro que não. O que prejudica é omissão. Você vê: agora, foi liberada a 262 (a rodovia federal BR 262). Então essa conversa que ficou aí no bastidor político não fica de pé. Foi nomeado Márcio Félix, que tem uma ligação pessoal enorme comigo. Eu é que o trouxe para o setor público, fora da Petrobras. Ontem (11) foi nomeada a Ana Paula (a economista Ana Paula Vescovi) como a segunda pessoa na hierarquia do Ministério da Fazenda. O Ministério da Fazenda é muito poderoso.

O senhor sente orgulho ou uma certa ponta de mérito e participação na nomeação da Ana Paula?

O mérito é dela, né? Puxa vida. O mérito é dela, que é uma excelente profissional. As pessoas não sabem, mas a Ana Paula trabalhou comigo na Prefeitura de Vitória, quando eu fui prefeito (de 1993 a 1996). Ela era da equipe do secretário Stan Stein (parceiro político de Hartung desde o movimento estudantil da Ufes, nos anos 1970). E ela estudou, cresceu na sua formação e virou esse quadro que é hoje. Veio ser a nossa secretária da Fazenda. A edição de hoje do jornal "O Globo" cita a passagem dela pela nossa Secretaria da Fazenda. Cita que eu pensei nela para me suceder. Se ela topasse se desincompatibilizar, ela estava na lista de nomes que poderiam me suceder, porque tem tudo para ser uma grande líder política, na minha modesta visão. Seria uma ótima governadora do Estado do Espírito Santo. Não tenho a menor dúvida disso. Então, o mérito é dela. E eu, como capixaba, estou feliz em ver uma capixaba da nossa querida Colatina brilhando. Ela sempre me diz que depois vai fazer o doutorado dela. Mas eu espero que ela esteja à disposição de um próximo bom governo que a gente seja capaz de eleger. Eu torço muito para que o país reflita até o dia da eleição e saia das posições bravateiras. Os bravateiros não vão resolver este problema que o país está vivendo. Nós precisamos é de um bom projeto, que modernize o nosso país. E, se a gente conseguir eleger um governo desses, eu vou pedir à Ana Paula para adiar um pouquinho o seu estudo e ficar à disposição desse próximo governo, porque nós precisamos ajudar a dar rumo para o país.

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