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Chanceler de Bolsonaro ataca 'alarmismo climático' e 'pautas abortistas'

Em artigo a jornal, Ernesto Araújo defende nomeação de 'quem entende de ideologia' para acabar com marxismo e seus 'disfarces' no Itamaraty

O futuro ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Fraga Araújo
O futuro ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Fraga Araújo
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Anunciado como ministro das Relações Exteriores do próximo governo, Ernesto Araújo destaca que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) lhe confiou a missão de "libertar o Itamaraty". Em artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo", nesta segunda-feira, o embaixador ressalta que pautará sua atuação pelo combate ao que chamou de "alarmismo climático", de "adesão de pautas abortistas e anticristãs em foros multilaterais" e de "destruição da identidade dos povos por meio da imigração ilimitada". Segundo o futuro chanceler, a meta é extirpar das relações internacionais brasileiras a "ideologia do PT", o que incluiria acabar com a "transferência brutal de poder econômico em favor de países não democráticos e marxistas", como a Venezuela.

No início do texto, Araújo aponta que parte da imprensa e dos colegas diplomatas esperava ver Bolsonaro escolher um chanceler "que saísse pelo mundo pedindo desculpas". "Um Ministro das Relações Envergonhadas", ironizou. Esta pessoa seria responsável por "frear o ímpeto de regeneração nacional" e garantir aos pares que, apesar da perspectiva de alterações de políticas internas, nada mudaria no posicionamento global do país. O futuro ministro defendeu acabar com a visão de que e o presidente "não tem voz efetiva" no Itamaraty ou tem a voz enfraquecida ao ser dublada em foros multilaterais, "pois no idioma da ONU é impossível traduzir palavras como amor, fé e patriotismo". Ele defende um "mandato popular" nas Relações Exteriores do Brasil.

"Isso é um gigantesco equívoco. Em uma democracia, a vontade do povo deve penetrar em todas as políticas. Mas as pessoas daquele sistema midiático-burocrático, que gostam tanto de falar em democracia, não sabem disso. Perguntam-se, assustadas: 'O que vão pensar de mim os funcionários da ONU, o que vai dizer de mim o New York Times, o que vai dizer o The Guardian, o Le Monde?'", escreveu o embaixador.

Nelson Ernesto Araújo foi confirmado para o cargo ministerial em 14 de novembro. Até então, era diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos e nunca havia chefiado uma missão no exterior. O "brilhante intelectual", como classificou Bolsonaro, ficou marcado por um ensaio simpático ao presidente americano, Donald Trump, publicado na revista do centro de estudos do Itamaraty. No texto, o embaixador elogia a missão do republicano de resgatar a civilização ocidental, sua fé cristã e suas tradições nacionais forjadas "pela cruz e pela espada" do "marxismo cultural globalista", cujo marco inicial seria a Revolução Francesa, anterior a Karl Marx.

No artigo da "Gazeta do Povo", Araújo diz que o Itamaraty deve se preocupar com o que o povo brasileiro pensa e a política externa, se relacionar com "o sofrimento, a paixão e a fibra dessas pessoas". "Alguns jornalistas estão escandalizados, alguns colegas diplomatas estão revoltados. Revoltados por quê? Porque pela primeira vez terão de olhar o seu próprio povo na cara e escutar a sua voz?", questionou.

O futuro ministro redigiu o artigo no formato de um questionamento ao brasileiro que diz querer acabar com a ideologia na política externa, mas ainda assim reclama quando o escuta criticar "o marxismo". Para Araújo, extirpar do Itamaraty "a ideologia do PT" é extirpar o marxismo, ao se posicionar contra a ideologia de gênero, o materialismo e o cerceamento da liberdade de pensar e falar. Ele argumenta que ver a ideologia marxista como a pregação da propriedade coletiva dos meios de produção é estar "100 anos atrasado" na concepção do termo.

"Você se satisfaz com o que escutou de sua professora de História numa aula do ensino médio, nunca mais estudou nada sobre marxismo ou qualquer outra corrente ideológica, e agora vem pontificar e tentar me dizer o que é ou o que não é ideologia? Os marxistas culturais de hoje dizem que o 'marxismo cultural' não existe e você acredita, simplesmente porque não tem os elementos de juízo e o conhecimento necessário", apontou o embaixador, que acusou os marxistas de terem agora o controle do discurso público por meio da mídia e da academia.

Araújo critica que a ideologia marxista tenha penetrado "insidiosamente na cultura e no comportamento, nas relações internacionais, na família e em toda parte", com o objetivo de controle social. O artigo do futuro ministro tentou cativar os antipetistas para a sua plataforma.

"Se você repudia a 'ideologia do PT', mas não sabe o que ela é, desculpe, mas você não está capacitado para combatê-la e retirá-la do Itamaraty ou de onde quer que seja. Ao contrário, você está ajudando a perpetuá-la sob novas formas. Se a prioridade é extrair a ideologia de dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz de compreender a ideologia que existe dentro do Itamaraty?", escreveu o embaixador, segundo quem não basta apelar anunciar uma abordagem sem ideologia ou pragmática nas relações internacionais.

O futuro ministro defende que o país precisa de "alguém que entenda de ideologia" para acabar com ela no Itamaraty, ao conhecer suas "causas, manifestações, estratégias e disfarces".

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