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Cervejaria pagava mesada de R$ 500 mil ao grupo de Cabral, diz delator

Segundo Carlos Miranda, interesse do grupo era obter benefícios fiscais do governo do Rio; assessoria do grupo nega pagamentos indevidos

O operador Carlos Miranda, em sua delação premiada
O operador Carlos Miranda, em sua delação premiada
Foto: Reprodução / TV GLOBO

Operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), seu ex-assessor Carlos Miranda afirmou em delação premiada que o empresário Walter Faria, dono do Grupo Petrópolis (da cerveja Itaipava), pagava propina mensal de R$ 500 mil ao grupo político do ex-governador desde o início da gestão de Cabral, em 2007. Em troca, a empresa recebeu benefícios fiscais junto ao governo do Rio, segundo o delator. O Grupo Petrópolis nega as acusações.

Em um dos anexos ainda sigilosos de sua delação, obtido com exclusividade pelo GLOBO, Miranda relatou que a cobrança de propina partiu do ex-secretário da Fazenda de Cabral, Ary Ferreira da Costa Filho, que mantinha relação com Walter Faria, e que o repasse era feito em dinheiro vivo. “Os valores de propina eram retirados por Ary na distribuidora de bebidas da Cervejaria Itaipava, empresa integrante do grupo Petrópolis”, diz trecho do relato, que integra o anexo 54 da delação de Carlos Miranda.

Segundo Miranda, Cabral promoveu a distribuição dessa mesada de R$ 500 mil em três partes: R$ 150 mil ficaria como propina para o próprio Ary, outros R$ 150 mil seriam repassados para Carlos Miranda e o restante era devolvido ao “caixa geral de propina”.

Embora os pagamentos da Itaipava tenham se tornado periódicos com o início da gestão do emedebista no governo do Estado, segundo Miranda, o empresário Walter Faria pagava propina a Cabral desde que este fora presidente da Assembleia Legislativa do Rio, em 1995, e também no período em que ele era senador, entre 2003 e 2006. “A partir de 2007, Walter Faria, a pedido de Ary Ferreira da Costa Filho, passou a contribuir com o valor mensal de R$ 500.000,00 a Sérgio Cabral”, diz a delação.

Em seu relato, Carlos Miranda cita um episódio específico em que houve um acerto com o grupo Petrópolis de pagamento de propina de R$ 5 milhões para Cabral em troca da concessão de benefícios fiscais em favor da importação do insumo para a produção de cerveja. A metodologia deste pagamento foi diferente: desta vez, segundo Miranda, Walter Faria usou repasses para contas no exterior do doleiro Renato Chebar, que trabalhava para Cabral. Cada repasse tinha valores entre US$ 200 mil e US$ 300 mil.

Segundo Miranda, Renato Chebar lhe fornecia os dados das contas no exterior que receberiam a propina e este repassava estes dados a Walter Faria ou um funcionário de sua confiança. “Tais contas eram custodiadas em bancos em Cingapura, China ou Hong Kong”, afirmou.

A acusação é a mais grave que surge contra Walter Faria na Lava-Jato, que já é alvo de várias linhas de apuração da Polícia Federal –o empresário é suspeito de receber propina em suas contas no exterior destinada a políticos do MDB, como revelado pelo GLOBO no último dia 25, e também investigado por fazer doações eleitorais para políticos a pedido da Odebrecht, em uma espécie de falsidade ideológica eleitoral. Desta vez, porém, é uma acusação direta de pagamento de propina em troca de benefícios na administração pública, que configurariam o crime de corrupção, na avaliação de investigadores.

A pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que assinou a delação de Carlos Miranda, o depoimento sobre a Itaipava foi remetido do Supremo Tribunal Federal (STF) para a Polícia Federal do Rio dar continuidade à investigação dentro da Lava-Jato.

De acordo com relatório do Tribunal de Contas do Estado, o grupo Petrópolis foi beneficiado com isenções fiscais de R$ 283,5 milhões apenas no ano de 2013.

OUTRO LADO

Procurada, a assessoria do grupo Petrópolis afirmou que o grupo “não obteve incentivo fiscal por favor de qualquer pessoa, mas por direitos fixados na Lei de Incentivos Fiscais – assim como ocorreu com várias outras empresas de bebidas. Nunca houve, por parte da empresa, qualquer conduta desonesta ou pagamentos indevidos a políticos e agentes públicos”.

O advogado de Cabral, Rodrigo Roca, afirmou que as informações dadas por Miranda em sua delação são “contraditórias” e “não têm qualquer prova”. “Prova maior de que essa é mais uma mentira contada por Miranda para manter os benefícios que conseguiu é que não há registro de qualquer benefício fiscal para a referida empresa na gestão de Sérgio Cabral”, diz a defesa do ex-governador. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do ex-secretário Ary Ferreira.

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