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"O jornalismo dos tempos de Roberto Marinho pode estar com os dias contados"

Jornalista capixaba lança biografia do patriarca do Grupo Globo na próxima sexta-feira, em Vitória, e fala sobre o papel do jornalismo e impactos das fake news na profissão e no comportamento das pessoas

Jornalista Leonencio Nossa lança novo livro no auditório da Rede Gazeta
Jornalista Leonencio Nossa lança novo livro no auditório da Rede Gazeta
Foto: Luiz Eduardo Finotti/Divulgação

Assim como inúmeros setores da sociedade, o jornalismo se esforça, dia a dia, para se reinventar diante da revolução tecnológica pela qual todo o mundo está passando. Mas sua essência, como frisa o jornalista Leonencio Nossa, não muda. Autor da biografia “Roberto Marinho: o poder está no ar”, que será lançada em Vitória na próxima sexta-feira, dia 31, ele defende que, apesar das bruscas transformações pelas quais o jornalismo passou desde a época em que Marinho comandava o Grupo Globo, a necessidade das pessoas por notícias de credibilidade nunca foi tão grande.

Capixaba formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o repórter especial do Estadão vem a Vitória na abertura das inscrições do 22º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta. “Vai ser uma oportunidade fantástica. Primeiro, voltar ao Espírito Santo, onde eu me formei e iniciei minha carreira. E ainda poder conversar com a meninada que começa agora a se interessar por jornalismo e, logo, logo, vai ser nossos colegas.”

Por que biografar Roberto Marinho?

Roberto Marinho é um dos personagens mais citados e presentes nas discussões públicas, seja sobre política, seja sobre jornalismo. E até o momento não tínhamos uma biografia independente, que pudesse apresentar o personagem com toda a sua complexidade. Foi isso que me instigou a entrar no projeto: entender as razões que o levaram a tomar as atitudes que já conhecemos e mergulhar no seu universo pessoal para trazer o perfil de um brasileiro que participou por tanto tempo do ciclo do poder na nossa sociedade.

Em toda a trajetória em que Marinho esteve à frente do Grupo Globo, o país passou por muita coisa, e tanto ele quanto a emissora foram contestados. Como isso se refletiu na personalidade dele?

É interessante que os capítulos da sua vida pessoal e da sua trajetória profissional coincidem com momentos-chave da história brasileira. Ele assume o jornal (O Globo) no período de 1930, início da Era Vargas. Em 1944 ele dá um salto na carreira com o lançamento da Rádio Globo, justamente no fim da ditadura Vargas. Já entre 1954 e 1955, ele decidiu expandir a sede do jornal, saindo do Centro do Rio para a Cidade Nova, bem na época do suicídio do presidente Vargas. E em meados de 1964, início do período militar no Brasil, é também o começo da Rede Globo. Trata-se de um personagem que vive momentos importantes da vida brasileira com muita intensidade, ora como testemunha, ora como protagonista.

É possível perceber onde se cruzam e se distanciam as figuras de jornalista e de empresário em Roberto Marinho?

Essa discussão parece interminável. Uns insistem que ele foi jornalista, outros que ele foi apenas um empresário. Eu diria que, para entender Roberto Marinho, é preciso entender a figura do empresário-jornalista, um comandante de um jornal que tem na sua essência a prática e a alma da reportagem. É muito difícil separar esses dois elementos, porque o empresário sempre apostou na reportagem como produto de sua empresa. E há vários episódios em que o jornalista estava até acima do empresário. Acho que a resposta ideal é que ele sempre foi as duas coisas.

Se fosse possível transportar para os dias de hoje essa forma como ele entendia e fazia jornalismo, você acha que teria espaço na atualidade?

É preciso deixar bem claro que ele é um personagem de outro tempo. É difícil dizer o que ele faria. Nosso trabalho é sempre em busca de um passado, e não um presente em que ele poderia estar. Muitas situações que ele enfrentou são até bem atuais. Nos anos 30, durante a Revolução Comunista de 1935 ou o Levante de 1938, ele chegou a fazer oito edições diárias do seu jornal vespertino. Ou seja, rodar o jornal oito vezes em uma só tarde para dar informações sobre esses movimentos. E, de certa forma, é uma prática muito comum hoje nos sites atualizar a notícia de hora em hora. Os tempos são diferentes, mas muitas práticas são comuns, mesmo a tecnologia dando um salto gigantesco.

Ao longo da história, a Globo sofreu muito – e ainda sofre – com o estigma de golpista. Foi possível perceber como Roberto Marinho lidava com isso?

No período de 1930 a 1969, justamente retratado neste livro, o Brasil sofreu 18 golpes ou tentativas de tomada do poder. Precisamos entender que Roberto Marinho é, antes de tudo, um empreendedor tentando consolidar seu grupo empresarial num país muito instável, política, econômica e socialmente. Ainda nos anos 20, seu pai, Irineu, foi preso por oposição ao governo de Arthur Bernardes. Aquilo fica marcado na memória do menino. Quando vem a ditadura do Estado Novo, ele está no início da sua trajetória profissional e ali aprende a dialogar com um regime de exceção. Na deposição do Jango, em 1964, ele já tinha experiência nesse relacionamento. O que distingue Roberto Marinho nesses períodos de exceção é sua capacidade de lidar e dialogar com as mais diferentes correntes, seja governo, seja oposição. O livro retrata isso com detalhes, para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões.

Esse é o seu quinto livro e todos têm formato jornalístico. Como o jornalismo investigativo surgiu na sua vida?

Desde o início da minha profissão eu procurei fazer matérias que debatessem e discutissem a situação do país. E entrava em assuntos que exigem muito tempo de apuração. Mas nunca tive a preocupação de classificar meu trabalho. Sempre tratei como reportagem, que apresentasse temas complexos com todas as suas nuances, indo além do que se conhecia. É o caso, de certa forma, do Roberto Marinho, uma figura conhecida por todos. Mas que o jornalismo pode apresentar novas visões para o debate público, trazendo os personagens num ângulo de mais profundidade.

A tecnologia vem ajudando nessas investigações ou existem armadilhas?

A essência de fazer jornal, isso não muda. Agora, é claro que o jornalismo, como outras áreas, passa por reformulações muito bruscas. Cabe à nossa profissão enxergar esse novo momento. O jornalismo como existe hoje, como existiu no tempo de Roberto Marinho, pode estar com os dias contados. Mas a necessidade das pessoas por notícias de credibilidade sempre vai permanecer. Eu não diria que o jornalismo, com essas novas tecnologias, melhorou ou piorou. Eu diria que é um novo elemento em que ele deve estar inserido. E vai estar.

Sobre credibilidade, um assunto muito debatido nos dias de hoje são as fake news. É possível para o jornalismo concorrer com elas?

A imprensa tem mais de 200 anos de experiência em informação, em comunicação. Nós estamos num momento de transição para o digital, mas a essência nós temos. A questão das fake news é algo que ganhou força com a entrada, no jogo político, de camadas da população que estavam praticamente fora. Um público que não tinha celular e passou a ter, participar de uma rede social e integrar esse mercado de comunicação. Acho que o nosso desafio, do jornalismo, é mais que combater fake news. É atender essa parcela do público que chegou agora e que às vezes não sabe diferenciar uma notícia falsa, feita por um grupo político, de uma grande reportagem jornalística. Assimilar o que é o que pode levar um certo tempo, mas não tenho dúvidas de que o trabalho jornalístico é cada vez mais essencial. É preciso atingir esse consumidor de notícias, esse leitor ávido por informações, com cada vez mais agilidade. Porque a demanda por informação de credibilidade é muito grande, nunca deixou de existir, mas a grande questão é chegar num público que não lê jornal, revista ou livro. Então, embora muitos colegas enxerguem com preocupação, eu vejo um momento fantástico para se fazer jornalismo, um momento de oportunidade.

O caminho então para atingir esse novo público seria um jornalismo de credibilidade, mas também mais agilidade?

A agilidade sempre foi um dos pilares da informação. Mas uma fake news, para ser produzida, exige poucos minutos. Uma notícia, mesmo factual, simples, pode exigir muito mais tempo. Acho que a competição não se dá por aí. Agora, quando o ouvinte, leitor ou internauta passa a acompanhar um veículo, ele vai perceber o que é fake news e o que é de credibilidade. É natural que isso ocorra quando ele passa a ter conhecimento do material de comunicação. E nós temos um diferencial quanto aos produtores de fake news, que é o jornalismo investigativo. Exige tempo, não é feito de um dia para o outro, pode levar uma semana, um mês, um ano, ou até seis anos, como meu livro. Mas esse produto não pode ser feito por um produtor de fake news. Não pode ser feito por alguém que entende muito bem das redes sociais, mas que não entende de jornalismo. Para produzir esse jornalismo investigativo hoje é preciso ter consciência que é um trabalho paralelo à nossa rotina diária. É como se o repórter tivesse que ter dois chips, um para produzir informações que vão dar um quadro rico sobre determinado cenário e ao mesmo tempo municiar o consumidor de informação com notícias instantâneas. Então hoje se exige do profissional uma técnica muito mais apurada, uma prática profissional muito mais completa. Tem que saber que o leitor precisa de uma informação instantânea, mas depois ele vai querer entender o que se passou de uma forma muito mais profunda.

Muito tem se falado hoje em dia sobre o profissional multimídia, mas pelo o que você está pontuando, a questão deve ir além das diferentes mídias?

É, acho que a minha geração gastou muito tempo discutindo formato de notícia, se o jornal impresso ia ou não acabar. E hoje, se pudesse voltar no tempo, eu me preocuparia mais em aprimorar a minha capacidade de informar as pessoas. Acho que mais importante que discutir modelos, é discutir a nossa formação, nossa capacidade de ser agentes de comunicação. Em vez de estarmos preocupados com as dificuldades cada vez maiores do nosso meio, é preciso olhar uma realidade em que o exercício do jornalismo está presente até fora do jornalismo. A comunicação, a arte de saber ouvir as pessoas, são práticas muito necessárias em vários outros setores da vida das pessoas, na política, na economia, na área médica e muito mais. Então, ao contrário do que se propaga tanto, o jornalismo nunca foi tão necessário para a sociedade.

Durante a campanha eleitoral você participou do programa “Roda Viva” que sabatinou o atual presidente Jair Bolsonaro. Na época o programa foi muito criticado pelos bolsonaristas. Como você vê esse clima hoje? Acha que o Brasil superou as eleições?

Eu acho que o Brasil não superou o extremismo. Há hoje uma crítica muito forte ao governo Bolsonaro, sua relação com o Congresso, com a imprensa e com o Judiciário. Na minha opinião, o jornalismo deve estar atento ao brasileiro que votou nesse governo, que não necessariamente é um fiel eleitor do Bolsonaro, mas um cidadão órfão de representação política, que de certa forma queria mudanças, que seus anseios fossem atendidos. A representação política apresenta muitos desgastes e uma boa parcela de brasileiros não se enquadra nos seus representantes públicos. O jornalismo tem que enxergar esse cidadão, que às vezes é chamado de bolsonarista, esquerdista, ou seja lá qual for a denominação, como alguém que tem hoje uma capacidade maior de ter informação, política e econômica, e que tem seus anseios e interesses também. Estar atento a novas realidades. A gente não pode ter preconceito com ninguém, que seja um grande empresário de comunicação ou com aquele menino que fica o dia inteiro no Facebook replicando fake news. O jornalismo tem que ir cada vez mais para as ruas e para as redes sociais para entender uma nova realidade. Claro, o clima hoje não é dos mais fáceis, é uma situação complexa, um governo de práticas que a gente não tinha visto ainda. Mas é preciso estar atento não só ao que ocorre em Brasília, mas também no país. Não só no planalto, mas toda a planície. Estar preocupado em entender esse novo país.

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O que: lançamento da biografia “Roberto Marinho: o poder está no ar”

Quando: Sexta-feira, dia 31/05, às 9 horas.

Local: Auditório da Rede Gazeta – Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória

Inscrições: gazetaonline.com.br/residencia

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