Entrevista

"2018 foi de dilacerar corações, foi um ano da asfixia de esperanças"

O jornalista Mário Magalhães, autor da biografia de Carlos Marighella, acaba de lançar "Sobre Lutas e Lágrimas", com um olhar crítico sobre fatos, personagens e situações que marcaram o ano de 2018

Daniel Ramalho

Do início da intervenção federal no Rio de Janeiro à eleição de Jair Bolsonaro, passando por outros fatos relevantes como o surto de febre amarela, as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes, a greve dos caminhoneiros e o incêndio no Museu Nacional, 2018 foi um ano que nem tão cedo vai terminar. É o que afirma o veterano jornalista Mário Magalhães, que lançou há pouco o livro “Sobre Lutas e Lágrimas: Uma Biografia de 2018, O Ano em que o Brasil Flertou com o Apocalipse”.

Com mais de 30 anos de carreira e 25 prêmios jornalísticos e literários nacionais e internacionais – incluindo o Esso de Jornalismo e o Jabuti –, o também autor da biografia do guerrilheiro Carlos Marighella encarou 2018 como um personagem (assim como Zuenir Ventura fizera no clássico “1968: O Ano que Não Terminou”) e compilou, no livro, os fatos e protagonistas do ano a que se refere como “vertiginoso”.

Como uma espécie de diário escrito “a quente”, como o autor faz questão de destacar, a publicação mescla crônica, reportagem, ensaio e artigo para mostrar um olhar sobre o Brasil tragicômico que vai da ameaça aos direitos humanos ao vexame de Neymar na Copa do Mundo, passando por notícias envolvendo personagens como o Dr. Bumbum (também contemplado no livro). “A relevância dele para os livros de história é zero, mas no meu mostra uma das facetas da hipocrisia”, pontua Mário, que agora se dedica à biografia de Carlos Lacerda e aguarda o lançamento do longa “Marighella”, de Wagner Moura, uma adaptação do livro de sua autoria.

Como nasceu a ideia do livro?

Eu soube que estava escrevendo um livro em uma noite de infâmia e horror, que foi a noite de 14 de março de 2018, quando Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados. No filme “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino, que ganhou o Oscar em 2014, o protagonista é o italiano Jep Gambardella, jornalista e crítico de arte dedicado à vida mundana e às expressões mais esplêndidas da estética em Roma. Ele, aos 25 anos, escreveu um romance de grande sucesso e depois nunca mais escreveu um livro. Teve 20 anos de bloqueio criativo e, no fim do filme, ele responde a uma freira que não havia escrito outra obra porque “estava em busca da grande beleza”. Digo isso porque “Sobre Lutas e Lágrimas” veio seis anos e meio depois de “Marighella”, e ele nasce do terror, do horror, da infâmia. Em janeiro, eu havia começado a escrever uma coluna no site “The Intercept Brasil”. No dia 14 de março, eu me dei conta de que o ano não ia ser mais um qualquer, um ano normal, digamos. Ia marcar por muito tempo a vida brasileira. A partir de então, eu passei a escrever não colunas semanais, mas o que eu sabia que seriam capítulos de um livro sobre o ano. Mas os capítulos mais longos do livro, mais densos e com maior ambição de jornalismo literário, são inéditos. Eu penso que daqui a 50 anos, quando lembrarmos de 2018, o ano vai ter uma relevância semelhante à que nós reconhecemos sobre 1968.

Hoje, ao parar e pensar na obra com certo distanciamento, se é que isso é possível, como se sente, como autor?

Quando olho o índice do livro, me surpreendo que as coisas tenham acontecido todas em 2018. Foi uma combinação de brutalidade com ignorância. Pense: pessoas caçando macacos a pauladas e pedradas achando que macacos transmitiam febre amarela. Pessoas fugindo da vacina contra febre amarela, acreditando que a vacina matava, coisas desse tipo. Foi um ano vertiginoso. Agora a hipótese de distanciamento... nem daqui a 50 anos vai ser possível. Vai existir o distanciamento temporal, mas os impactos sociais, políticos e emocionais não têm como ser vistos com distanciamento.

Tratando 2018 como um personagem mesmo, quais seriam suas características principais?

É praticamente o subtítulo do livro: “o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse”. Teve quem veio me perguntar “mas por que não foi o próprio apocalipse?”, e eu respondo que apocalipse significa o fim. A história não acabou. O ano de 2018 foi de dilacerar corações, foi um ano da asfixia de esperanças, da asfixia de sonhos. Mas, considerando aqueles que foram à luta contra o obscurantismo, foi um ano em que a esperança foi ferida mas não morreu. Digo esperança de uma sociedade mais tolerante, mais democrática e menos desigual.

Você tinha um desafio de narrativa, e imagino que não tenha sido fácil compilar tanta coisa na publicação. Como definiu os protagonistas de sua obra?

Bem, neste caso é o ano que se impõe. Temos ideias pré-concebidas, mas o personagem se impõe. Por exemplo, qual a importância do Doutor Bumbum para os livros de história? Zero. Mas para o meu livro? Ele mostra a cara da hipocrisia. Um livro sobre um ano vertiginoso só não permite uma coisa: convidar o leitor ao sono. Um ano tão barra pesada quanto 2018 tinha que ser aberto com uma história de amor e de sonho, como tinha sido aquele Réveillon de Marielle. Eu precisava disso e me inspirei na abertura do livro “1968: O Ano Que Não Terminou”, de Zuenir Ventura.

E como acha que 2018 será lembrado daqui a 50 anos?

Um ano inesquecível, com um peso gigantesco na história do Brasil. Sempre esteve claro que este governo promoveria cortes na ciência e na pesquisa. Isso não tem pacto de um ano só, de um mandato só. São décadas. Uma das primeiras ações da ditadura foi demitir, cassar e perseguir grandes cientistas brasileiros que trabalhavam no Instituto Osvaldo Cruz, aqui em Manguinhos, no Rio de Janeiro. Muitos foram produzir ciência fora do Brasil, na época. Agora tem um detalhe: é óbvio que esses olhares retrospectivos sobre 2018 vão ser influenciados pelos fatos ocorridos nesses próximos anos. Quando falamos em 1968, sabemos que o AI-5 durou dez anos. Mas ali não se sabia se seria um, se seriam dez ou vinte anos. Quando lembramos daquele ato liberticida, sabemos que ele perdurou por dez anos. Já 2018 não teve desfecho. Vai depender de como a história vai avançar. Mas o Bolsonaro não é um raio perdido no Brasil, é uma situação mundial. São ciclos, a gente sabe o que aconteceu no século passado, que a Bolsa quebrou em 1929, que teve uma pindaíba generalizada. Agora impacta a crise ocorrida em 2007, 2008. São ciclos.

Você faz questão de marcar posição e assumir “um lado” nesta biografia de 2018. Como você o definiria?

É, eu sempre falo que não é um livro em cima do muro. Tem lado. É o lado da civilização contra a barbárie. Eu tomo esse partido. Eu acho barbárie defender tortura, eu acho que é barbárie falar ou desejar assassinato de 30 mil pessoas, eu acho que é barbárie pensar que mulher deve ganhar menos... É barbárie querer que minorias desapareçam, porque isso implica extemínio. Acho barbárie dizer que feminicídio é “mimimi”, falar em fuzilar adversários políticos. Eu sou a favor da civilização, contra o obscurantismo. Quando falo que o livro tem partido, não me refiro a partido ou agremiação política, mas sim a um sentimento humanista. O livro pulsa porque o ano pulsa. E ainda tem a particularidade de ter sido escrito no calor dos acontecimentos. O espetacular livro de Zuenir (Ventura) tem o fato de ter sido escrito e lançado 20 anos depois dos acontecimentos que ele narra, por exemplo. O livro tem o que eu vi, o que testemunhei, o que pensei, mas sobretudo o que senti. São 33 anos de jornalismo, e nada teve tanto coração quanto “Sobre Lutas e Lágrimas”. Não quer dizer que seja adocicado, apelativo.

O livro foi escrito antes do “The Intercept Brasil” publicar conversas atribuídas a integrantes da Operação Lava Jato e, nele, você já dizia que Moro fazia política no lugar errado. Como tem encarado esses desdobramentos em 2019?

Essa continuação não é só cronológica. O que o site “The Intercept Brasil” e os outros veículos que se associaram na divulgação da “Vaza Jato” estão fazendo é um serviço aos cidadãos, para saberem como funciona uma operação policial e judicial que constituiu uma ação política cuja principal consequência foi levar à presidência da República um deputado da extrema-direita. Mas eu sempre sublinho o seguinte: quem quis ver, viu. O livro tem um ponto impressionante que é sobre o julgamento referente ao caso do triplex, ocorrido no fim de janeiro de 2018. Um dos magistrados diz que, se Lula estava respondendo a um processo, é porque alguma coisa havia aprontado. Essa declaração, emitida sem contestação de outros julgadores, faz com que acreditemos que em nenhuma época da história e em nenhum lugar do planeta haveria algum inocente. Isso é o resumo de tudo. Bem, se um réu responde ali, é para julgarem se ele é culpado ou inocente. Pelo menos a Constituição Federal assegura – ou deveria assegurar – a presunção de inocência.

E o que espera para o lançamento do longa “Marighella”, adaptado da biografia de sua autoria lançada em 2012?

Eu vi cinco ou seis sequências que totalizam uns 16 minutos e é um filme marcadamente de ação, como foi de fato a vida de Marighella. O filme é adaptação da última parte do livro, mais ou menos de 1964 a 1969, quando houve a luta armada. O que eu espero... bem, ninguém é obrigado a gostar ou não do filme do Wagner (Moura), ninguém é obrigado a amar ou odiar o personagem histórico que foi Marighella, idem em relação ao livro. Mas é direito dos cidadãos assistirem a uma obra de arte que conta sob determinado olhar uma parte relevante da história do Brasil. A biografia não é um libelo a favor ou contra. O que é inaceitável é o que certa historiografia fez ao tentar eliminar Carlos Marighella da memória nacional. Respeito quem gosta e quem não. O inaceitável é haver esforço em curso para tentar impedir que o filme chegue aos cinemas, porque isso é atitude típica de regimes autoritários. Que bom que depois de uma movimentação expressiva da cultura, tenham marcado o lançamento para o dia 20 de novembro, quando é celebrado o Dia da Consciência Negra no Brasil.

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