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Cláudio Guerra é denunciado por incinerar 12 corpos na ditadura

Ex-delegado do Dops atuava no Espírito Santo e ainda vive no Estado, em prisão domiciliar. Entre os corpos incinerados, segundo o próprio Guerra, está o do pai do presidente da OAB

Ex-delegado do Dops e hoje pastor Cláudio Guerra
Ex-delegado do Dops e hoje pastor Cláudio Guerra
Foto: Ricardo Medeiros

O ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Cláudio Guerra, de 79 anos, foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em Campos dos Goytacazes (RJ) pela ocultação e pela destruição de 12 cadáveres na década de 1970, durante a ditadura militar.

Guerra atuava no Espírito Santo e ainda vive no Estado. Ele é pastor evangélico e está em prisão domiciliar após ter sido condenado como mandante dos assassinatos da ex-esposa e da ex-cunhada. 

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O próprio ex-delegado narrou como incinerou os corpos em fornos da Usina Cambahyba, no município do Norte Fluminense. Há depoimentos dele no livro "Memórias de uma Guerra Suja" e também à Comissão Nacional da Verdade sobre o caso. Em 2014, ele voltou à usina e, em reconstituição com a utilização de manequins, mostrou como dava fim aos cadáveres.

Entre as vítimas, Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

Entre os pedidos do Ministério Público está "o cancelamento de eventual aposentadoria ou qualquer provento de que disponha o denunciado em razão da sua atuação como agente público, dado que seu comportamento se desviou da legalidade, afastando princípios que devem nortear o exercício da função pública".

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A denúncia é datada do último dia 24 de julho e foi divulgada nesta quinta-feira (1º). O Gazeta Online procurou Cláudio Guerra. O filho dele atendeu o telefone e informou que o ex-delegado prefere não se manifestar quanto ao posicionamento do MPF.

LEI DA ANISTIA

O MPF avalia que a Lei da Anistia não se aplica ao caso, "tendo em vista o caráter permanente de crimes que por constituírem crime de lesa-humanidade, não são abrangidos pelo ordenamento doméstico, seja por anistia ou por prescrição".

Para o órgão, Guerra agiu por motivo torpe (uso do aparato estatal para preservação do poder contra opositores ideológicos), visando assegurar a execução e sua impunidade, com abuso do poder inerente ao cargo público que ocupava.

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"Assim, com o objetivo de assegurar a impunidade de crimes de tortura e de homicídio praticados por terceiros, com abuso de poder e violação do dever inerente do cargo de delegado de polícia que exercia no Estado do Espírito Santo, foi o autor intelectual e participante direto na ocultação e destruição de cadáveres de pelo menos 12 pessoas, nos anos de 1974 e 1975", argumenta o procurador da República Guilherme Garcia Virgílio, autor da denúncia, apresentada à 2ª Vara Federal de Campos. 

SUMIR COM OS CORPOS

Em seu depoimento, Cláudio Guerra relatou que havia preocupação nos órgãos de informação, por parte dos coronéis Perdigão e Malhães, de que os corpos daqueles que eram eliminados pelo regime acabassem descobertos, movimentando a imprensa nacional e internacional.

Ele contou que uma das estratégias de sumir com os corpos consistia em arrancar parte do abdômen das vítimas, evitando, com isso, a formação de gases que poderia fazer com que o corpo emergisse. Ainda segundo ele, os rios constituíam a preferência para afundamento dos corpos, dado que no mar "a onda traz de volta".

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Guerra informou que sugeriu o forno da Usina Cambahyba como forma de eliminação sem deixar rastros, dado que já utilizava a usina e seus canaviais para desova de criminosos comuns, do Espírito Santo, em razão de sua amizade com o proprietário da usina.

CASA DA MORTE

De 1973 a 1975, ele recolheu no imóvel conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), e no Destacamento de Operação de Informação e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), na Tijuca, os corpos de 12 pessoas.

Para retirar os corpos na Casa da Morte, Guerra relatou que encostava o carro no portão e recebia, em seguida, de dois ou três militares, os corpos ensacados em sacos plásticos. Ao chegar à usina, passavam os corpos para outro veículo, que ia até próximo dos fornos, sendo então colocados na boca do forno e empurrados com um instrumento que lembrava uma pá.

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