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Vigília de Lula completa 487 dias e vive expectativa sobre transferência

O clima é de calmaria entre alguns integrantes do movimento, o que contrasta com a apreensão de outros que não querem a saída de petista de Curitiba

Vigília Lula Livre, em Curitiba
Vigília Lula Livre, em Curitiba
Foto: Reprodução/Facebook Vigília Lula Livre

Enquanto eram definidos os procedimentos sobre a já autorizada transferência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de Curitiba (PR) para São Paulo (SP), cerca de 50 integrantes da chamada Vigília Lula Livre participavam de uma roda de samba na manhã desta quarta-feira (07).

O clima é de calmaria entre alguns integrantes do movimento, o que contrasta com a apreensão de outros que não querem a saída de petista de Curitiba. Uma placa no centro da vigília indica: são 487 dias acompanhando o petista nos arredores do prédio da Superintendência da Polícia Federal.

Nesta quarta-feira (7), o juiz corregedor Paulo Eduardo de Almeida Sorci, do departamento estadual de execução criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, autorizou a transferência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o presídio de Tremembé, no interior de São Paulo. A defesa de Lula deve recorrer.

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"Eu tô preocupada, porque no momento não sei o que esperar, torço muito para que ele fique com a família dele, mas não nesse momento, acho que estão preparando algum golpe em cima do Lula", diz a metalúrgica aposentada Izabel Aparecida Fernandes.

Ela percorre cerca de 5 horas todos os dias para ir e voltar de casa para a vigília. São quatro ônibus desde a Vila Osternack, onde mora, até o Santa Cândida, onde está Lula. "Se eu falar que tô feliz, eu não tô, eu queria mesmo é que ele fosse julgado decentemente e dessem a liberdade dele", desabafa a militante, que diz admirar a luta do ex-presidente desde os anos 1970.

Izabel credita ao político a chance que teve de terminar a construção da casa, adquirir um plano de saúde e comprar um carro. Relata, agora, que já se desfez de tudo após o término dos governos petistas. "Tenho como agradecer a ele por tudo que ele fez."

Lula está preso desde 7 de abril de 2018 em uma cela especial na sede da PF na capital paranaense. A transferência de Lula foi um pedido do superintendente da Polícia Federal, Luciano Flores, que argumenta que a prisão do petista altera a rotina do prédio da PF. Tanto o PT como a defesa de Lula criticaram a autorização, ao apontarem ausência de direitos e de segurança pessoal ao ex-presidente.

Daniel Barbosa é outra figura constante da vigília. Morador de Ribeirão Pires (SP), ele conta que esteve com Lula ainda no sindicato dos metalúrgicos no dia em que foi preso. "Sinto que tenho um débito com esse homem", afirma o locutor, desempregado atualmente.

Barbosa deixou a família em São Paulo, para onde vai a cada dois meses. "É um sacrifício, mas mudou minha vida. É uma faculdade, faço curso de formação política, convivo e aprendo muito com os trabalhadores do campo", resume sobre as atividades promovidas pelo espaço.

Os trabalhadores a que se refere são na maioria integrantes de movimentos sindicais e sociais, como do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).

Os militantes se revezam em caravanas constantes a Curitiba para se juntar ao grupo fixo. Nesta quarta-feira (07), por exemplo, a visita é dos metalúrgicos da região Sudeste.

Ao contrário de Izabel, a quem considera uma "irmã mais velha", Daniel acredita que a demonstração de resistência sobre a prisão do político vai ser ainda maior se ele for transferido para São Paulo. "Vai ser um sentimento de missão cumprida em Curitiba", diz.

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O ESPAÇO

A missão, segundo Barbosa, foi a de aproximar a população curitibana, principalmente do entorno da PF, do movimento a favor de Lula. No início das manifestações, em abril do ano passado, as reclamações de moradores do Santa Cândida eram constantes contra os militantes. Houve até reuniões conciliatórias na Justiça para tentar selar a paz entre a vigília e a vizinhança.

As queixas levaram à mudança de local. Inicialmente montada em barracas improvisadas no entorno do bairro, a vigília foi transferida em julho de 2018 para um terreno privado, que fica bem em frente à PF.

Pouco antes, a Justiça até havia autorizado uso de força policial para retirar as barracas dos simpatizantes de Lula do entorno do prédio.

O espaço é preenchido por uma tenda grande e outras quatro menores. Há divisões por grupos de trabalho: comunicação, saúde, doações e secretaria. Ainda há um local para venda de utensílios, como canecas e camisetas com a imagem do ex-presidente. Os integrantes também contam com uma pequena biblioteca, montada com livros doados, e banheiros.

Por todos os lados, além de flores e plantas, a vigília é cercada por faixas e bandeiras com as inscrições "Lula Livre", e de movimentos sindicais e sociais, além de fotos do político.

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Para comer e dormir, também foram alugados dois locais próximos à PF: uma creche desativada e uma casa chamada de espaço "Marielle Franco", em referência à vereadora do Rio assassinada em 2018.

Além dos tradicionais "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" ao presidente, no local são promovidas rodas de conversa, de música, debates políticos, eventos religiosos e culturais.

MOMENTOS MARCANTES

Batista do Mega Fone, como gosta de ser chamado, é responsável pela venda de água no local. Ele também deixou a residência fixa em Limeira (SP) logo na prisão de Lula para se juntar à luta a favor do ex-presidente.

"Lula representa muita coisa, é o verdadeiro brasileiro", avalia o trabalhador da construção civil, que diz ter ficado apenas 19 dias fora do espaço até então.

Ele se orgulha de ter tirado foto com o argentino Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e com o teólogo Leonardo Boff, que também visitaram a Vigília Lula Livre.

Todos descrevem como o momento mais difícil do grupo a morte do neto de Lula, Arthur, em março deste ano. "Isso foi uma dor muito terrível, foi como se fosse parte da minha família", afirma Izabel.

A expectativa em torno da possível soltura do ex-presidente, em julho do ano passado, foi outro grande momento descrito pelos entrevistados como marcante.

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A crítica é uníssona em torno do ex-juiz Sergio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, responsáveis, segundo eles, pela "injusta" prisão de Lula. Também sobram reclamações sobre o atual presidente, Jair Bolsonaro (PSL).

"O Lula não deve sair daí para ir para outra prisão, deve sair daí para a casa dele, solto e inocentado. Quem tem que ir preso é o Dallagnol e o Moro, e a família do presidente que só tem corrupção", resume Batista.

Lula está preso após condenação pela Justiça pela acusação de ter recebido propina da construtora OAS por meio da reforma de um tríplex em Guarujá (SP). A ação teve origem na Lava Jato, em Curitiba. Em abril, o STJ confirmou a condenação e reduziu a pena do petista para 8 anos e 10 meses.

A defesa do petista diz que o ex-presidente nunca assumiu a posse do imóvel e que os delatores mentiram para obter benefícios.

Lula pode deixar o regime fechado ainda neste ano. A principal alternativa para isso é a progressão de regime na condenação do caso tríplex. Segundo o Ministério Público Federal, ele já tem direito a progredir para o regime semiaberto. Quem vai decidir sobre a concessão do benefício é o STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Além disso, no fim de setembro, Lula atingirá a marca de cumprimento de um sexto da pena imposta. A Lei de Execução Penal prevê a progressão de regime para o preso que passar dessa marca, desde que pague a reparação de danos aos cofres públicos. O ex-presidente precisará, então, desembolsar R$ 2,4 milhões para quitar esse compromisso.

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