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Mulheres do PR resistem à aliança do partido com Bolsonaro

Nos bastidores, elas tentam frear acordo que apoiado por maioria dos deputados da sigla

Enquanto a cúpula do PR ainda avalia uma possível aliança com o pré-candidato à Presidência, o deputado Jair Bolsonaro, a ala feminina do partido comandado informalmente por Valdemar Costa Neto resiste a um acordo com o PSL
Enquanto a cúpula do PR ainda avalia uma possível aliança com o pré-candidato à Presidência, o deputado Jair Bolsonaro, a ala feminina do partido comandado informalmente por Valdemar Costa Neto resiste a um acordo com o PSL
Foto: Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Enquanto a cúpula do PR ainda avalia uma possível aliança com o pré-candidato à Presidência, o deputado Jair Bolsonaro, a ala feminina do partido comandado informalmente por Valdemar Costa Neto resiste a um acordo com o PSL. Autor de declarações controversas sobre mulheres — ele foi condenado por dizer que a deputada Maria do rosário (PT) não merecia ser estuprada por ser "muito feia" —, Bolsonaro não tem agradado a ala feminina do PR.

Um movimento contra a aliança entre PR e Bolsonaro vem surgindo nos bastidores, e o descontentamento das mulheres do partido com o apoio ao ex-capitão do Exército deve ser discutido nos próximos dias numa reunião da sigla. O temor no "PR Mulher" é que o apoio ao presidenciável prejudique o desempenho de suas candidatas junto às eleitoras, grupo onde Bolsonaro mais enfrenta dificuldade para crescer. Costa Neto tem justificado a aproximação com o PSL alegando que 30 dos 41 parlamentares da legenda querem estar ao lado de Bolsonaro.

— Ninguém fala isso oficialmente, porque as chances de a aliança são grandes e isso pode causar problema adiante, mas a preocupação existe pela postura de Bolsonaro. Não agrada às mulheres e estamos trabalhando contra essa aliança — diz uma integrante do movimento feminino do partido.

A relutância feminina dentro do PR é só mais um dos problemas da pré-candidatura de Bolsonaro com as mulheres.

Líder das pesquisas com 19% nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro tem 26% da preferência entre os homens e apenas 12% entre as mulheres. Já Marina Silva (Rede), segunda colocada nas pesquisas com 15%, é o nome com maior percentual de intenções de votos entre mulheres. São 17%, contra 12% da preferência dos homens. Pré-candidato pelo PDT, Ciro Gomes, com 10% da preferência no total, tem 12% entre homens e 8% nas mulheres. Por sua vez, Geraldo Alckmin (PSDB), em quarto lugar nas pesquisas com 7%, repete este percentual em ambos os sexos.

— Essa desvantagem em relação às mulheres coloca um limite de crescimento para Bolsonaro. Chegar ao segundo turno não tendo os votos de uma grande parcela da sociedade que é metade do eleitorado é muito difícil — analisa Cláudio Couto, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Embora a campanha de Bolsonaro não admita que o eleitorado feminino é um problema, o candidato tem tomado medidas para atrair a atenção das eleitoras. Mulheres passaram a ser cogitadas para ser vice do parlamentar. Dentro do PR, as mulheres também resistiram a essa possibilidade — Bolsonaro já admitiu que sonha com o senador Magno Malta (PR-ES) para ajudá-lo a puxar votos.

As redes sociais do militar têm sido usadas nos últimos dias para apresentar uma imagem mais simpática às mulheres, ao exibir demonstração de apoio feminino ao pré-candidato num evidente esforço de se afastar da pecha de machista. O rótulo já foi até explorado por outros pré-candidatos.

A campanha de Geraldo Alckmin foi a primeira a explorar o suposto preconceito de Bolsonaro contra as mulheres. Em um vídeo divulgado nas redes sociais do tucano, uma mulher diz que não pode confiar em “alguém que é a favor da violência” e, sem falar o nome do deputado, o classifica de "machista, racista e homofóbico.” A atriz encerra o vídeo dizendo:

— Sou mulher e exijo respeito. Bolsonaro? Tô fora.

A resposta veio com publicações de grupos de mulheres reforçando o apoio a Bolsonaro. Recentemente, ao chegar ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o filho do presidenciável, deputado federal Eduardo Bolsonaro, o gravou cercado por mulheres que pediam para tirar fotos. O vídeo exibia a legenda: “Todo o Machismo de Bolsonaro.”

O discurso para atrair as eleitoras também passa pela segurança. Bolsonaro chegou a propor castração química para autores de violência sexual em troca de diminuição da pena e o porte de arma para mulheres. Outros temas para cativar o eleitorado feminino conservador é a política de escolas sem ideologia de gênero e também a defesa contra o aborto.

Na semana passada, cerca de 30 mulheres de Santa Catarina, Distrito Federal e Goiás foram à Câmara de Deputados demonstrar apoio ao pré-candidato. No encontro, Bolsonaro sugeriu que uma pistola é mais eficiente em proteger mulheres do que a lei do feminícidio.

— As mulheres sofrem muito com a violência e eu quero que vocês estejam em situação de igualdade com os homens. Entre a lei de feminicídio e uma pistola na bolsa, vocês ficam com a pistola — disse o presidenciável, aplaudido por suas eleitoras.

Interlocutoras mais próximas da campanha afirmam que não existe uma estratégia orquestrada para conquistar as eleitoras. Elas, no entanto, têm se organizado para defender bandeiras comuns:

— Existe um trabalho de demonização do Bolsonaro. Hoje somos muitas e vemos a necessidade de trazer à luz a verdade sobre como ele é — diz a procuradora aposentada do Distrito Federal Beatriz Kicis, apoiadora da campanha e pré-candidata a deputada pelo PSL.

Presidente do PSL Mulher, a professora Dayane Pimentel, que afirma ter sido sondada para ser vice de Bolsonaro, minimiza as declarações polêmicas do presidenciável, como aquela em que disse que teve quatro filhos e na quinta “deu uma fraquejada e veio uma mulher”, e o episódio com a deputada Maria do Rosário, que lhe rendeu uma condenação por danos morais.

— Ele quis dizer que nasceu uma menina, uma princesa. Ele tem um jeito brincalhão e querem imputar uma interpretação — diz Dayane.

 

 

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