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Bolsonaro vira alvo preferencial de adversários

Campanha do PSL deixará com militância resposta aos ataques na internet

Jair Bolsonaro na programa Roda Viva
Jair Bolsonaro na programa Roda Viva
Foto: Reprodução

Líder nas pesquisas de intenção de voto nos cenários sem o ex-presidente Lula (PT), Jair Bolsonaro (PSL) entrou na mira de seus adversários, que passaram a disparar ataques nas redes sociais, em peças publicitárias e em entrevistas. Como resposta, a equipe do ex-capitão já traçou uma estratégia, baseada em ação de militantes no WhatsApp.

A campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) divulgou na quinta-feira um vídeo com o mote “não é na bala que se resolve”, em referência à agenda de Bolsonaro pró-armamento. Ao longo de um minuto, a propaganda mostra um projétil destruindo, em câmera lenta, objetos que representam problemas do país. Depois, quando o alvo é uma criança, a bala some com a frase “não é na bala que se resolve”.

O vídeo usa a mesma ideia de uma peça publicitária criada pela agência AMV/BBDO, de Londres, para uma rádio local em 2007. Chamado “Kill the gun” ( “Acabe com as armas”), o filme mostra uma bala atravessando a tela e quebrando, também em câmera lenta e ao som da mesma música clássica, um ovo, um copo de leite, uma pote de ketchup, uma maçã e um melão com a mesma ideia final e um slogan da campanha contra violência patrocinada pela rádio Choice FM. Esse vídeo é o primeiro de um arsenal de 434 inserções disponíveis para a campanha de Alckmin. Os candidatos Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) também passaram a citar diretamente Bolsonaro em suas falas.

'NO PLANALTO OU NA PRAIA'

No quartel-general da campanha de Bolsonaro há a ideia de que ele não deverá responder à ofensiva em seus canais na internet. A campanha entregará à militância, mobilizada em grupos de WhatsApp, o papel de inundar as redes sociais dos demais candidatos cada a defesa do presidenciável. O contra-ataque pessoal de Bolsonaro esse tipo de ataque só devem vir em declarações à imprensa, quando provocado em entrevistas ao longo da campanha.

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Questionado pelo GLOBO por que era alvo, Bolsonaro parou no meio da rua, em frente à Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, e respondeu:

— Porque eu sou um candidato a ser batido por eles. Não tenho televisão, não tenho fundo partidário, tenho o povo comigo, vou seguir minha trajetória. Vou continuar fazendo o que fiz até agora, tendo a verdade ao meu lado e, com a verdade, ganhando a simpatia popular. Só tenha certeza de uma coisa: em janeiro, ou estou no Planalto ou na praia.

A estratégia do PSL é, ao ignorar os ataques, avançar sobre os eleitores indecisos e votos, considerados por eles voláteis, como o de Marina Silva, João Amoêdo (Novo), Alvaro Dias (Podemos) e do próprio Alckmin. Bolsonaro passará a pregar o voto útil e se apresentará com o único capaz de evitar um novo governo de esquerda e do PT.

Marina foi mais sutil em sua estratégia e afirmou que sua religião a impede de jogar uma “praga” em Bolsonaro. Seus aliados avaliam que os ataques contra o adversário devem ser pontuais. Com menos de uma inserção diária na televisão e apenas 21 segundos no horário eleitoral, a ex-senadora não tem tempo para desperdiçar. A forma como a campanha planeja se contrapor ao candidato do PSL é privilegiando o eleitorado em que ele vai mal: as mulheres. Em todas as oportunidades recentes, Marina Silva tem buscado se comunicar diretamente com as mulheres. Diferentemente de Alckmin, que fará inserções específicas para atacar o parlamentar, a campanha irá trabalhar mais na construção da mensagem da ambientalista do que em desconstruir Bolsonaro.

Recentemente, no entanto, Marina elevou o tom contra Bolsonaro em suas falas públicas. No início da semana, ligou o deputado federal ao “populismo de direita” para explicar seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto.

Já Ciro foi mais duro: chamou os eleitores do ex-capitão de “inimigos da pátria” e o próprio adversário de “projetinho de Hitlerzinho tropical”, pois Bolsonaro seria “muito mal preparado” e “Hitler pelo menos era um intelectual razoável”.

Em semanas anteriores, os adversários esboçaram críticas a Bolsonaro e chegaram a explorar seu desempenho em simulação de segundo turno. Segundo o último levantamento do Datafolha, sem a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro perderia para o tucano Geraldo Alckmin (33% a 38%), a candidata da Rede Marina Silva (45% a 34%) e o pedetista Ciro Gomes (35% a 38%). O candidato do PSL só venceria o petista Fernando Haddad (38% a 29%), formalizado vice de Lula.

HORÁRIO ELEITORAL COMEÇA

Já o PT não tem demonstrado a intenção de enfrentar Bolsonaro agora. Segundo a campanha, pelo menos nos primeiros programas de TV, não há menção ao candidato.

O horário eleitoral começa hoje, e o primeiro programa destinado aos candidatos a presidente vai ao ar no sábado.

OS LIMITES DE BOLSONARO

POR FELIPE BORBA*

“As chances do Ciro Gomes e da Marina Silva estão atreladas à relação entre o Lula e o Fernando Haddad e se vai haver transferência de votos. Então eles estão tentando polarizar com o Bolsonaro para conquistar o eleitorado de esquerda. Já o Geraldo Alckmin tem um motivo diferente para os ataques: ele disputa o nicho ocupado pelo Bolsonaro entre os eleitores conservadores. Além disso, nunca houve uma diferença tão grande entre o apoio dos homens e das mulheres como no caso do Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, ele vai precisar romper dois limites: terá que suavizar o discurso para ocupar o centro; e vai ter que dialogar com as mulheres, senão perde a eleição”.

*Cientista político e professor da UniRio

CAMPANHA DE ATAQUES

POR FERNANDO ABRUCIO*

“Acho que a estratégia da Marina Silva, do Ciro Gomes e do Geraldo Alckmin é mais a de tentar evitar que ele cresça do que pegar os votos dele. Sobre o Alckmin, parte dos votos que ele perdeu para o Bolsonaro é recuperável, mas outra parte não, porque é um voto malufista, que só migrou para o PSDB com o declínio do Paulo Maluf. O Bolsonaro tem votos consolidados, então o objetivo é fazer com que ele estacione nos 15% e dê chance para que outro candidato dispute o segundo turno. É uma aposta, mas não é simples. Vão usar o tempo de TV e as redes sociais para atacar o Bolsonaro, que também ataca os adversários. A ideia de uma campanha focada em propostas é pouco factível”.

*Cientista político e professor da FGV-SP

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