Notícia

Crônica: O homem que vira outro nas redes sociais

De um lado, pai de família cristão e pregador dos bons costumes. De outro, um fake que distribui insultos e ódio do outro lado do monitor

As duas faces de um homem. Uma delas só se revela pelas redes sociais
As duas faces de um homem. Uma delas só se revela pelas redes sociais
Foto: João Paulo Rocetti

Jaime*, cidadão comum, pai de família, com um casal de filhos lindos, bom emprego, marido dedicado.

Gosta de dar bom dia, dizer obrigado, e ensinar as regras da cordialidade aos pequenos.

De tradicional família, frequenta a missa todo santo domingo. Leva a família inteira. Costuma falar dos valores cristãos, frequenta encontro de casais, ajuda a recolher doações nas datas especiais, até contratou uma moça de baixa renda como aprendiz em sua empresa para fortalecer sua preocupação com o papel social.

Mas tem um negócio que mexe com os nervos de Jaime. Ele cultiva um certo vício secreto por polêmicas em redes sociais.

Há alguns dias meteu-se em uma discussão com outro usuário em um desses grupos do Facebook. Era sobre casamento gay.

"Homem é homem, mulher é mulher. Por mim gay não tem direito algum. Todos pervertidos", disparou. "Desculpe, mas sua opinião é uma m*****"", completou quando foi rebatido.

Morte de bandido, erro de policial, disputa política, Trump versus Hillary, Dilma versus Temer, esquerda versus direita, Yin versus Yang, onde há assunto sem consenso, lá está Jaime. O tempo foi passando e ele, meio que contaminado pelo discurso raivoso de muitos, acabou reproduzindo cada vez mais esse tal discurso. Não conseguia mais se segurar. "Você é burra ou o quê? Maldita inclusão digital", falou com uma moça do outro lado da rede durante uma discussão sobre PEC.

A coisa foi aumentando. Sem perceber, Jaime se envolvia em rusgas com pessoas reais. "Mas gente, esse é o Jaiminho da igreja? Minha nossa, que cara intolerante".

Uma amiga contou para outra e a história chegou até a esposa de Jaime, que pediu para que ele moderasse. Esperto que é, teve a brilhante ideia de criar um fake (quem nunca?) para poder falar o que pensa sem ser incomodado. Botou o nome "Sérgio Ricardo", tascou uma foto qualquer e pronto, nascia o alter ego virtual de Jaime.

O vício foi aumentando. Como um tarado por pornografia online, só invocava Sérgio Ricardo quando não havia ninguém por perto, para não levantar suspeitas. Costumava postar bem cedo, antes de as crianças acordarem. É autor do post "Estudante que ocupa escola tem de levar surra até chorar pedindo pela mamãe", que já tem 467 curtidas e 12 compartilhamentos.

Dia desses, no almoço de família, ouviu do sogro a reclamação de que a internet estava deixando os adolescentes muito mal educados. "Tem de tirar isso desses garotos. Internet é uma porcaria. Só tem ódio ultimamente", disparou o eloquente Jaime, arrancando elogios por sua retórica.

Mais tarde, em casa, invocou Sérgio Ricardo e publicou: "Bandido bom é bandido morto. Se você não concorda, problema seu! O post é meu, digo o que quero. Boa noite!".

Boa noite, Jaime.

* O nome retrata apenas um personagem fictício. Afinal de contas, Jaime não existe, certo?

Ver comentários