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Rede Gazeta, 90 anos, pronta para o futuro

Discurso feito por Café Lindenberg, na celebração dos 90 anos da Rede Gazeta, no dia 11 de setembro

Café Lindenberg  falou sobre a história da Rede e os desafios para o futuro
Café Lindenberg falou sobre a história da Rede e os desafios para o futuro
Foto: Vitor Jubini

Na memória da humanidade, 90 anos têm a curta duração de relâmpago. Mas, na memória do homem, 90 anos são uma vida. Podem ser mesmo uma eternidade.

A memória da humanidade se conta em séculos. É marcada apenas pelos grandes fatos transformadores da vida. A memória do homem é esculpida pelos feitos menores, na rotina das coisas que se repetem.

Uma empresa jornalística é ao mesmo tempo a memória dos que a fizeram e da comunidade a que serve. Quando faz 90 anos, como a Rede Gazeta, pode ser jovem perante o Espírito Santo, perante as responsabilidades da História. Mas, diante de todos nós, que a vivemos no dia a dia, parece realmente um tempo respeitável e cheio de emoção.

No Brasil, pouco mais de 5% das empresas duram sequer até dez anos. No ramo das empresas jornalísticas o futuro é ainda mais instável, porque muitas são as que surgem e desaparecem sem deixar rastros.

Em tempos de perplexidade, o homem se desencontra se não houver instrumentos de luz e coesão, como a imprensa

Tendo vivido 90 anos úteis e produtivos, a Rede Gazeta se tornou um acontecimento na história do Espírito Santo. E não terá sido sem méritos, porque esses últimos 90 anos sepultaram muitas e muitas empresas que por aqui existiram.

E nós, da mídia, sofremos todas as dores do mundo, porque exalamos as dores do mundo. Nele estão os sofrimentos da pobreza, os anseios dos mais humildes, as desesperanças dos perseguidos, os lamentos dos injustiçados. Mas nós, da mídia, vivemos também os registros dos grandes feitos, as glórias que o seu mundo vai alcançando na vida pública, empresarial e cultural. Sendo a síntese, é, portanto, um espelho onde podemos mirar a qualquer tempo a memória das gentes. Há em tudo isto muita coisa de que se orgulhar e muita coisa de que se envergonhar.

Mas hoje é dia de nosso aniversário, dia de comemorar, e, portanto, dia de lembrar dessas coisas que nos fazem sentir orgulho. E quero expressar todo o meu orgulho em fazer parte dessa história.

Orgulho muito grande por trabalhar ao lado de mais de 800 pessoas que se esforçam, na dura rotina do dia a dia, para deixar a nossa marca indelével, nessa trajetória respeitável e cheia de emoção, construída por várias mãos, por diversas gerações, ao longo desses 90 anos de história.

Orgulho por poder sair de casa, diariamente, com o sentido de missão a cumprir. E não é uma missão qualquer: é uma missão que vai impactar a vida de milhares, talvez mesmo de milhões de pessoas ao final desse dia de trabalho.

Orgulho por ter à disposição um sólido conjunto de valores para nos guiar, caso necessário. Os mesmos valores que vêm sendo cultivados pelos dirigentes que me antecederam há décadas, talvez até intuitivamente, mas que hoje são expressos com clareza em nosso ideário.

Orgulho por ter recebido, em confiança de minha família, a missão de comandar uma empresa tão rica de talentos, tão viva, tão vibrante, e muito consciente da responsabilidade que carrega em sua rotina diária de trabalho.

Aliás, conforme expressei na edição especial de A GAZETA, são dois os sentimentos que me afloram nesta data de hoje: além desse orgulho que acabei de expressar, também destaco o sentimento de responsabilidade. O desafio de conduzir um projeto que começou faz exatos 90 anos, e que há mais de 60 está com a minha família.

Esteve com meu tio, Eugênio Queiroz, esteve com meu pai, Cariê, até alguns anos atrás, agora está comigo. Uma espécie de corrida de revezamento com passagem de bastão. Dá mesmo um frio na barriga, ao olhar para esse ambiente atual. Tão desafiador para o jornalismo.

Um momento de intensas transformações e inquietações na sociedade, que para mim só deixa claro uma certeza: os méritos que nos trouxeram até aqui, por si, não vão nos capacitar para continuarmos nossa caminhada até os 100 anos.

Mas estamos prontos para enfrentarmos o desafio de construirmos o nosso futuro. Temos feito as escolhas corretas. Estamos fazendo os nossos deveres de casa. Conseguimos construir as condições para permanecermos de maneira competitiva no jogo: mais agilidade, uso de novas ferramentas, incorporação de novas ciências, novos conhecimentos.

Temos ampliado os investimentos em capacitação de nossos times. Nossos processos de trabalho têm passado por contínua revisão. Esse é o novo ambiente da empresa, de frenética transformação, já incorporada à realidade da inescapável rotina diária de trabalho.

Cuidamos de um negócio não para servir aos acionistas: cuidamos de algo que em essência é um patrimônio público

Quero também destacar outro tema sobre que falei na edição de 90 anos: somos uma empresa familiar, em vários sentidos, mas temos um diferencial importante. Sabemos qual o nosso papel como empresa jornalística. Temos a exata noção de que estamos aqui cuidando de um negócio cuja principal característica não é servir aos seus donos, os acionistas.

Essa noção de que cuidamos de algo que em essência é um patrimônio público, pertencente às nossas audiências, é o insumo para refletirmos diariamente sobre as decisões que tomamos e que nem sempre são boas para os negócios. Temos um conjunto de valores, hoje, como já disse, expressos em papel, que foram forjados ao longo desses últimos 60 anos de história da nossa Rede.

E aqui vai uma revelação importante para vocês: esse meu discurso foi escrito a quatro mãos, junto com meu pai, Cariê. Mas ele não sabe disso, apesar de talvez ter encontrado algo de familiar em minhas palavras.

São trechos longos, extraídos integralmente, repito, integralmente, de uma fala proferida por papai faz 40 anos, por ocasião do lançamento da pedra fundamental da construção de nosso prédio sede, da Chafic Murad.

Definitivamente, como escreveu a Aline Nunes na edição especial de 90 anos, um homem com uma visão à frente de seu tempo, que prega pela independência total, pelo equilíbrio, pelo dever de sermos plausíveis com a comunidade e com os denunciados também, dando a estes a chance de passarem a sua versão das coisas que forem levantadas contra eles. Que ensina que não devemos publicar nada que não está confirmado. E que segue nos inspirando nessa nossa jornada.

Discurso esse, o de 40 anos atrás, que me emocionou muito quando o ouvi pela primeira vez lido por Letícia, ao abrirmos a caixa que o guardava desde 1978, e que me enche de emoção, mais uma vez, neste momento. Palavras bonitas, contendo ideias seculares, marcando uma profissão de fé no jornalismo e a consciência clara de que temos uma missão importante para cumprir, que precisa ser construída, tijolo por tijolo, palavra por palavra, edição por edição, dia após dia... Idealismo que atravessa várias gerações e que esperamos que continue sendo a nossa essência.

Termino com mais um trecho saído “das outras duas mãos” que me ajudaram aqui hoje... Mas foram colocadas no papel 40 anos atrás. Este momento é um traço de união entre o nosso passado e o nosso futuro. Tanto quanto os valores morais e éticos que dão coerência à vida da Rede Gazeta e justificam mesmo sua estabilidade e prosperidade, nosso contínuo investimento na comunicação interpreta nossa fé permanente neste Estado e nossa compreensão de que não podemos ficar estáticos diante do tempo. Devemos ser dinâmicos, ativos, empreendedores, modernizadores. Só assim poderemos estar À altura dos novos tempos – esses novos tempos tão cheios de exigências materiais e morais. Tempos de prosperidade, mas também tempos de perplexidade.

Tempos em que o homem cresce, mas talvez não se encontre, antes talvez se desencontre de maneira definitiva, se não houver entre nós alguns instrumentos de luz e coesão, como a imprensa.

 

 

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