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A maior cartada do deputado Marcelo Santos

Confira a coluna Praça Oito desta quinta-feira, 07 de dezembro


Praça Oito - 07/12/2017
Praça Oito - 07/12/2017
Foto: Amarildo

Decano na atual composição da Assembleia Legislativa – ninguém, além dele, está no quarto mandato seguido –, o deputado Marcelo Santos (PMDB) é reconhecido por aliados e adversários como um hábil articulador de bastidores na Casa. Desta vez, Marcelo se superou. Surpreendeu o governo Paulo Hartung, o Tribunal de Contas do Estado (TCES) e meio mundo político capixaba largando na frente dos concorrentes na corrida para garantir a indicação dos colegas de plenário ao poderosíssimo cargo de conselheiro do TCES, na vaga hoje ocupada pelo conselheiro afastado Valci Ferreira.

A vaga pode ser aberta em breve caso o processo contra Valci, já condenado pelo STJ, transite em julgado – ou seja, após esgotadas todas as possibilidades de recurso da defesa junto ao STF. Justamente na expectativa de vacância da cadeira de Valci, na qual muitos querem se sentar, Marcelo tem encetado um movimento agressivo nos bastidores para emplacar o próprio nome. No sapatinho, chegou a passar uma lista aos colegas, pedindo apoio e recolhendo assinaturas.

A ideia do deputado certamente era guardar essa carta na manga para usá-la na hora certa, intimidando potenciais concorrentes e mostrando ao mercado político que já possuía apoio suficiente para garantir a nomeação – a vaga de Valci é de livre indicação da Assembleia.

Mas o plano de Marcelo deu errado, com o vazamento da informação sobre a movimentação do deputado, algo que na certa não passava por sua cabeça.

Há várias evidências de que Marcelo não queria abrir sua articulação nem ganhar toda essa exposição a esta altura do processo. Calejado como é, sabe que quem queima a largada tem mais chance de se queimar antes da hora, pois fica mais tempo sob o sol, sendo minado pelos adversários. A primeira das evidências é a reação do próprio Marcelo ante a revelação da sua lista, desmentindo as mesmas informações confirmadas por outros parlamentares.

Alguns deputados muito próximos a Marcelo, como Amaro Neto (SDD) e Enivaldo dos Anjos (PSD), disseram não ter conhecimento de lista alguma, mas confirmaram o interesse dele em preencher o cargo de Valci. Outros deputados, reservadamente, negaram ter assinado essa lista, mas garantiram que ela existe. Dois deles, porém, entregaram todo o serviço.

“Existe a lista, sim. Está circulando. Marcelo está pedindo apoio. O argumento dele é que tem capacidade de ser conselheiro. Ele já está batalhando isso desde lá de trás”, revelou o governista José Esmeraldo (PMDB), assim como o petista Padre Honório: “Ele está passando essa lista, me pediu e eu assinei. E me disse que está concorrendo a essa vaga. Até agora foi o único que me pediu e, obviamente, aqueles que pedem antes saem na frente. É uma questão de habilidade do Marcelo”.

O próprio Marcelo, contudo, por meio de sua assessoria, passou a versão de que a lista que ele fez circular nos últimos dias era outra, para colher assinaturas dos colegas a fim de sugerir ao governo a aquisição do clube Saldanha da Gama.

Das duas uma, portanto: ou Zé Esmeraldo, conhecido por não ter freios na língua, e um padre em pessoa estão violando o 8º mandamento dos católicos (“Não levantarás falso testemunho”), ou Marcelo realmente não queria que seu movimento viesse à tona agora. Neste caso, por estratégia, resolveu se recolher e desmentir a informação. Assumindo que esta opção é a correta, estamos diante de dois fatos: primeiro, Marcelo quer mesmo a vaga; segundo, muita gente não quer que ele fique com ela. A começar por quem vazou a informação.

Embora a indicação do sucessor de Valci caiba exclusivamente à Assembleia, é óbvio que o governo vai mover as suas peças para emplacar seu preferido. E esse nome na certa não é Marcelo, que inspira ressalvas e resistências não só ao Palácio mas também à atual direção do TCES.

Marcelo é um jogador. Como tal, acumula vitórias (quatro mandatos na Assembleia) e frustrações (três derrotas a prefeito de Cariacica). Para chegar ao TCES, deverá dar a sua maior cartada até hoje e provar que seu poder de articulação entre os pares supera as restrições a seu nome no governo. Em última análise, terá que peitar Paulo Hartung.

The dream is over

O sonho de consumo do governador PH para fazer um aliado na vaga de Valci Ferreira era sua cunhada e fiel secretária de Governo, Angela Silvares, que foi servidora do TCES. O sonho, porém, acabou. Aliás, acordou com 65 anos – idade máxima para que alguém possa ser nomeado conselheiro do tribunal. Doutora Angela completou essa idade no último dia 8 de junho.

Sonho do TCES

Se a decisão dependesse do comando do TCES, um nome que passaria facilmente é o da auditora Márcia Jaccoud Freitas, técnica que atua como conselheira substituta no Pleno.

Influência do Palácio

Vários deputados ouvidos pela coluna garantem: a Assembleia não abrirá mão de sua prerrogativa de indicar o sucessor de Valci. O que não quer dizer que os deputados indicarão um dos seus para a vaga. Aliás, sejamos realistas: com a ampla maioria de que o governo Paulo Hartung desfruta no plenário, mais provável é que o Palácio consiga levar a base a referendar o nome que ele indicar.

Alternativas palacianas

Como solução doméstica, o governo pode tentar emplacar o ex-deputado estadual Paulo Roberto Ferreira (PMDB), atual chefe de gabinete do governador. Dentro da base na Assembleia, o deputado Dary Pagung (PRP) já manifestou interesse – restam dúvidas quanto ao preparo. E, embora ainda na moita, o nome do atual líder do governo, Rodrigo Coelho (PDT), também começa a ser especulado.

Fala, Aboudib

A coluna perguntou ao presidente do TCES, Sérgio Aboudib – aliado histórico do governador Paulo Hartung –, sua opinião a respeito da movimentação de Marcelo Santos. Por meio de sua assessoria, ele limitou-se a responder: “A vaga não está aberta”. Para bom intérprete, não está nem um pouco satisfeito com a antecipação desses movimentos.

CENA POLÍTICA

De Enivaldo dos Anjos, o “Coronel” da Assembleia: “Sei que Marcelo tem interesse e tem conversado em plenário com vários deputados. Mas ele não me pediu para assinar lista nenhuma. Não sei disso nem acho conveniente um movimento assim agora. Só quando houver a vacância. Não se pode fazer velório sem ter morto. E, na minha terra, ninguém precisa de lista. Os acordos são feitos no fio do bigode.”

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