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Burocracia na saúde ignora corrida contra o tempo de quem tem diabetes

Pacientes correm o risco de perder a visão porque o poder público fecha os olhos para a urgência que envolve o tratamento da retinopatia diabética

Maria Souza dos Santos corre risco de ficar cega
Maria Souza dos Santos corre risco de ficar cega
Foto: Fernando Madeira

“É capaz de eu morrer antes de conseguir me tratar.” O lamento da dona de casa Maria Souza dos Santos, de 73 anos, não é um episódio isolado do descaso com os pacientes de diabetes no Estado. São centenas de pessoas na mesma situação que a dela, correndo o risco de perder a visão porque o poder público fecha os olhos para a urgência que envolve o tratamento da retinopatia diabética, complicação decorrente da doença, que ocorre principalmente por falta de acompanhamento médico.

Sem meias palavras, o aumento nos casos de cegueira em razão da diabetes entre os mais pobres está ligado à omissão na saúde pública, cuja gestão ainda é incapaz de promover a assistência necessária, no tempo certo. Diagnósticos tardios contribuem para a deterioração da visão, numa doença que, sem tratamento, torna-se uma bomba-relógio. A demora no atendimento e a burocracia não ajudam nessa corrida contra o tempo.

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Falta atendimento eficiente na atenção básica para detectar precocemente a doença. É uma etapa fundamental, pois no Estado há quase 90 mil pessoas que não sabem que são diabéticas, um número que chega a cerca de 30% das pessoas com a enfermidade. Quanto mais cedo se dá início ao tratamento – que inclui não só medicamentos, mas também mudanças no estilo de vida, principalmente na alimentação –, maiores as chances de se ter qualidade de vida, sem prejuízos à saúde.

Já a iminência da cegueira exige tratamento especializado, como o promovido pelo Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam), em Vitória, e pelo Hospital Evangélico, em Vila Velha, com os quais a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) possui parceria. As vagas, contudo, são limitadas. E a reclamação sobre a dificuldade de acesso nas farmácias cidadãs à injeção que controla o avanço da perda da visão só mostra o quanto o Estado ainda dificulta a vida de quem mais precisa. Mesmo com laudo nas mãos, há paciente que aguarda desde setembro pelo tratamento. A cegueira da burocracia desdenha das necessidades e da própria dignidade do cidadão.

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