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Ressurreição do Estado

O ideal é que o poder público tenha habilidade para atuar em áreas vitais, abrindo espaço para novas experiências onde não se mostre essencial

A vivência religiosa da Páscoa celebra os recomeços, o que pode ser também de grande valia para os desafios seculares que se impõem na vida em sociedade. A erosão do Estado brasileiro, que se apresenta cada vez menos capaz de garantir os direitos fundamentais de seus cidadãos, não é irreversível, por mais que a desesperança em dias melhores pareça estar sempre triunfando. O renascimento do poder público é viável, não só com gestores menos alheios à realidade social, mas também com uma participação ativa da população na tomada de decisões. Um envolvimento político no melhor sentido do termo, com representação cada vez mais qualificada.

Não é por acaso que a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica tenha se ocupado das políticas públicas na Quaresma deste ano. Independentemente da religião em questão, é uma oportuna reflexão, com um tema que trata justamente da necessidade dessa refundação do Estado com o abraço da sociedade. Não há saída para um país que não se empenhe em priorizar o interesse coletivo, pautado por um projeto nacional que envolva racionalidade econômica e, consequentemente, inclusão social.

E, por isso, deve-se resistir às seduções de um Estado que se mostre excessivamente paternalista, podando a autonomia que nutre um bem-vindo laissez-faire (expressão francesa que simboliza o liberalismo econômico). O ideal é um Estado que tenha habilidade para atuar em áreas vitais (saúde, educação, segurança pública, para citar o tripé fundamental), abrindo espaço para novas experiências onde não se mostre essencial e reduzindo assim gastos com a máquina pública.

Não é por acaso que a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica tenha se ocupado das políticas públicas na Quaresma deste ano

É uma refundação sobre novas bases, que precisam ser pactuadas em sociedade, apostando em um novo ciclo de prosperidade, mais longevo. O planejamento e a execução de políticas públicas são indissociáveis desse contexto, por serem o mecanismo que efetivamente tira do papel os direitos previstos na Constituição. É a cidadania praticada com a sua potencialidade máxima. Políticas públicas eficientes não têm partido, tampouco religião. São, pela essência, políticas de Estado, que se perpetuam a cada governo. A esperada ressurreição do Estado brasileiro não é questão de fé, mas de atos demasiadamente humanos.

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