Notícia

As pessoas estão mais fechadas e aprisionadas nas bolhas ideológicas

Quando os pontos de vista antagônicos ficam isolados, extermina-se o debate público tão saudável para a convivência em sociedade

Pouco antes da virada do milênio, um filme estrelado por Edward Norton, “A Outra História Americana”, mostrou que a superação da intolerância é possível quando se está disposto a conhecer o outro. Não cabe aqui revelar a trama que leva à redenção do protagonista, um supremacista branco aparentemente incurável. Mas, em linhas gerais, são as conexões viáveis mesmo na diferença que o libertam de seu passado racista. É um exemplo extremo, mas ajuda a ilustrar como a divergência de opiniões, que está afastando as pessoas mesmo nas relações mais íntimas e domésticas, só é um problema quando inviabiliza ou reduz a existência do outro, pela violência ou pela censura. O confronto de ideias tende a ser saudável, se há a disponibilidade de se abrir ao diferente, mesmo com discordância. Sem preconceitos.

A popularização das redes sociais nesta década provocou efeito contrário ao idealizado: as pessoas estão cada vez mais fechadas, aprisionadas nas bolhas ideológicas onde não há espaço para o contraditório. A excelente reportagem de Vinícius Valfré publicada neste jornal no último domingo fez uma reflexão pertinente sobre esse fenômeno contemporâneo. Nela, o repórter expôs dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos em 27 países. No Brasil, 32% dos entrevistados simplesmente desistiram do debate, por acreditarem que não vale a pena dialogar com quem têm visões políticas diferentes das suas. Bloqueiam perfis na internet na mesma proporção que se isolam em sociedade.

Quem sai ferida é a própria noção de democracia. Faz sentido, assim, que o próprio sistema esteja tão desacreditado entre os brasileiros, como revelou um levantamento internacional do Pew Research Center. Por aqui, 83% se declararam insatisfeitos com a democracia. É uma relação de causa e efeito: quando se isolam os pontos de vista antagônicos, extermina-se o debate público. Desfaz-se a ágora que é a própria essência da democracia. E o descrédito tem contribuído para enfraquecê-la. Uma sociedade sem divergência está fadada ao fortalecimento do sectarismo.

“A Outra História Americana” também determina o destino trágico de um outro personagem que faz o caminho oposto ao do protagonista, abraçando o extremismo. Justamente por ter estado sempre inserido em um ambiente no qual a diferença é silenciada com violência. O filme reforça, num exemplo particular, como as pontes da democracia são fundamentais para a vida em sociedade. Sem elas, não há convivência possível, seja na ficção, seja na realidade.

Ver comentários