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Bolsonaro devia ler mais a Bíblia

Minimizar protestos e brigar com as ruas pode ser grave erro político. "Não ofendas a população inteira de uma cidade", pregam também as sagradas escrituras

Manifestantes chegam à Assembleia Legislativa do Espírito Santo
Manifestantes chegam à Assembleia Legislativa do Espírito Santo
Foto: José Carlos Schaeffer

Milhares de manifestantes tomaram as ruas do Brasil inteiro, inclusive do Espírito Santo, para protestar contra os cortes na educação. Manifestações pacíficas, até onde se tem notícia. Ao comentar os atos públicos, o presidente Bolsonaro se referiu aos participantes como “idiotas úteis” e “imbecis”. Disse ainda: “A maioria ali é militante. Não tem nada na cabeça”.

Os protestos foram convocados por entidades ligadas a sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos. Também participaram da mobilização integrantes de instituições de ensino, de universidades públicas e institutos federais. Além de militantes sindicais ou partidários, havia nas ruas estudantes e professores das redes estadual e federal. Minimizar esse tipo de protesto e brigar com as ruas pode ser grave erro político.

Bolsonaro é cristão e costuma citar passagens da Bíblia. Seu lema de campanha era “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", costuma repetir. Deveria talvez dedicar mais atenção ao que dizem outros trechos das sagradas escrituras. “Não ofendas a população inteira de uma cidade, não te lances no meio da multidão”, diz o livro Eclesiástico.

O país precisa de um severo ajuste fiscal, sem dúvida. Todo corte gera protestos. O contingenciamento dos recursos das universidades está nesse contexto. O fato de o ministro da Educação ter se referido a “balbúrdia” e “gente pelada” nas universidades públicas pode ter acirrado os ânimos. Agora, Bolsonaro eleva a temperatura.

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O presidente já demonstra certa falta de habilidade política ao lidar com o Congresso. Tem sofrido sucessivas derrotas. A reforma da Previdência tramita a passos lentos. Ao atacar assim um movimento legítimo, natural numa democracia, ele joga lenha na fogueira e turva ainda mais o ambiente político, já tensionado desde a sua posse.

No carnaval, ele reagiu às críticas de blocos de rua com o deplorável vídeo do “golden shower”. Dias atrás, censurou um comercial do Banco do Brasil. Agora, chama manifestantes de imbecis. Olavo de Carvalho, que costuma se expressar ancorado em termos chulos, recebeu dele o mais alto grau da Ordem de Rio Branco, condecoração que distingue “serviços meritórios e virtudes cívicas”.

Desde a campanha, o presidente parece ter dificuldade de lidar com a divergência e a diversidade. Ao assumir, ele prometeu governar para todos os brasileiros. Prometeu unir o povo, resgatar a esperança e livrar o país “das amarras ideológicas”. Não é bem o que temos visto, infelizmente. Há tempo de corrigir rumos e adotar postura moderadora, mais condizente com o seu papel de chefe da nação.

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