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Escultura milionária abandonada no Cais das Artes é um triste sinal

Peça do consagrado artista Amilcar de Castro, instalada como pedra fundamental das obras do complexo cultural, não era conhecida nem por membro do governo do Estado

Obra de Amilcar  de Castro
Obra de Amilcar de Castro
Foto: Marcelo Prest

Um dos principais nomes das artes nacionais, Amilcar de Castro consagrou-se por produzir esculturas que dialogam com o espaço em que estão instaladas. Suas peças em aço, expostas às intempéries, exibem majestosa e propositalmente a ação do tempo. No entanto, uma das obras do artista mineiro abrigadas no Espírito Santo dão um recado triste sobre o espaço e o tempo do local em que se encontra. Trata-se da gigante de quase cinco metros e cinco toneladas que serviu de pedra fundamental para o lançamento do Cais das Artes. Largada à própria sorte, a escultura estimada em R$ 1 milhão traduz a ferro o abandono do complexo cultural que, nove anos após o início das obras, continua sem qualquer previsão de inauguração.

>Confira imagens da escultura de Amilcar de Castro no Cais das Artes

O trabalho de Amilcar construído em 1997 e doado pelo Instituto Sincades ao governo do Estado está tomado pelo mato, misturado aos entulhos no canteiro de obras. Está tão camuflado na paisagem que nem o diretor-geral do Instituto de Obras Públicas do Estado do Espírito Santo (Iopes) sabia da existência da peça. “Não me lembro da escultura. Vou mandar averiguar”, foram as palavras de Luiz Cesar Maretto Coura à repórter Raquel Lopes, em matéria deste jornal que revelou a negligência com a obra do artista.

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O problema, revela-se, é antigo. Maretto também respondeu pelo Iopes na primeira passagem do governador Renato Casagrande pelo Palácio Anchieta, entre 2011 e 2014. Foi na segunda gestão de Paulo Hartung (2015-2018) que as obras do Cais das Artes foram paralisadas devido a uma briga judicial, e a peça de Amilcar passou a dialogar sozinha e tristemente com o tempo e o espaço à sua volta, sem ninguém para ouvir. O Instituto Sincades e Rodrigo de Castro – filho do artista mineiro, que gerencia o espólio do pai – também foram contatados para comentar o descaso, mas optaram pelo silêncio.

A gigante de metal não está perdida. Feita em resistente aço corten, a peça de Amilcar ganhou um tom avermelhado ao longos dos anos, que é justamente o que a protege: uma pátina que mantém oxigênio e umidade na superfície. Assim como a obra de arte, o Cais das Artes também carrega as marcas do tempo, mas também não está perdido. O gigante de concreto na Enseada do Suá foi planejado para ser um marco na arquitetura e no cenário cultural capixabas. Deve vencer as intempéries para não concluir essa sua missão no mau sentido.

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