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Saneamento básico é sinônimo de desenvolvimento social

A mola-mestra da qualidade de vida é um desafio social que, em muitos casos, é questão de vida ou morte

 Esgoto de Jardim Camburi deságua em canal que segue para o mar de Camburi, em Vitória
Esgoto de Jardim Camburi deságua em canal que segue para o mar de Camburi, em Vitória
Foto: Fernando Madeira

Numa daquelas ironias da vida, a dona de casa Girlene Vieira da Fonseca, 42 anos, mora na Avenida Rio Branco. Acontece que, como ela mesma explicou em reportagem deste jornal, o local no bairro Operário, em Cariacica, “não tem nada de avenida, muito menos de rio”. Girlene é um dos 684.219 habitantes da Grande Vitória que não têm acesso à rede de esgoto, e o Rio Formate, que fica em frente à via de chão batido em que ela reside, não passa de um curso denso e escuro de dejetos. Três em cada quatro moradores que dispensam esgoto de forma irregular o fazem simplesmente porque não há infraestrutura para coleta e tratamento. Com isso, o equivalente a 57 piscinas olímpicas de todo tipo de impureza é lançado em rios e cursos d’água, cujo destino é a Baía de Vitória.

> Rede de esgoto será ampliada em Cariacica e Viana até 2022

Os dados da Cesan permitem vislumbrar a dimensão do estrago, do qual a poluição é apenas a ponta do iceberg. Os tentáculos espraiam-se pela saúde, pela cidadania e pela economia do país. Em muitos casos, é questão de vida ou morte. Segundo a OMS, 88% dos óbitos por diarreia no mundo são causados por saneamento inadequado, e as vítimas, na maioria, são crianças. Os custos para o Estado com internações no SUS são da casa de milhões por ano. A mesma OMS afirma que a cada dólar investido em saneamento economiza-se 4,3 dólares gastos no sistema de saúde.

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Quando não perdem a vida para doenças, as populações carentes, principais prejudicadas pela falta de saneamento, entram em um círculo vicioso de pobreza. Um estudo da ONG Trata Brasil mostra que a ausência desse serviço básico, garantido pela Constituição, afeta a produtividade dos trabalhadores e o desempenho dos estudantes. Com menos renda e menos estudos, fica difícil romper essa cadeia.

> Populações sem rede de esgoto têm renda menor

Saneamento básico é sinônimo de desenvolvimento, a mola-mestra da qualidade de vida. Infelizmente, o custo alto dos investimentos em algo que fica debaixo da terra, invisível à massa de eleitores, não desperta o interesse dos políticos. Apesar de regulamentado pelo Plano Nacional de Saneamento Básico, em 2007, o Brasil já admitiu que não vai cumprir a meta de 90% do território com o tratamento e destinação do esgoto até 2033. A Serra é um bom contraponto. Com leis severas, fiscalização e multas – e a opção inteligente por uma Parceria Público-Privada –, o município conseguiu fazer o índice de cobertura saltar de 58% para 86%. Certamente verá os efeitos na economia e no bem-estar da população.

 

 

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