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Uso de bicicleta só atingirá potencial com mais civilidade no trânsito

As pedaladas são cada vez mais incentivadas pelo próprio poder público, que precisa, portanto, prover mais segurança

Ciclista fica "imprensado" entre acostamento e carreta na Estrada de Capuaba, Vila Velha
Ciclista fica "imprensado" entre acostamento e carreta na Estrada de Capuaba, Vila Velha
Foto: Ricardo Medeiros

A vulnerabilidade de quem escolhe ou depende da bicicleta como meio de transporte se evidencia quando vidas são perdidas de forma tão brutal. Em menos de uma semana, dois ciclistas de Vila Velha morreram em acidentes nas ruas.

A costureira Neuzi Braga Rosa, de 67 anos, foi atropelada por um ônibus no bairro Ataíde, na quarta-feira da semana passada. A violência do acidente foi registrada pelas câmeras. No domingo, um outro ciclista, não identificado, foi atingindo por um veículo na região da Praia de Itaparica e também não resistiu.

Uma reportagem publicada no último sábado neste jornal mostrou que o Detran-ES registrou 48 mortes de ciclistas nos anos de 2015, 2016 e 2017. Os dados levam em consideração o atendimento no local do acidente. No mesmo período, foram 3.166 acidentes envolvendo bicicletas.

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O uso do veículo como uma alternativa de mobilidade urbana tem sido cada vez mais estimulado, com o crescimento da oferta de bicicletas compartilhadas, enquanto que entre a população mais pobre é um meio que sempre esteve disseminado, mas disparou com a crise econômica desde a segunda metade da década.

Há cada vez mais bicicletas nas ruas, sem que esse aumento se reflita em melhorias consideráveis de infraestrutura. As ciclovias ainda são um privilégio das regiões mais nobres da Grande Vitória, mesmo que também continuem defasadas nessas áreas, sem estarem totalmente conectadas.

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Nas ruas, a bicicleta é encarada como categoria de segunda classe nessa espécie de “cadeia alimentar” do trânsito, em que cada um parece fazer questão de engolir o outro. Ela é mais frágil do que os carros, mas é mais agressiva do que os pedestres. Ao mesmo tempo, comportamentos imprudentes são compartilhados por todos, o que cria um ciclo destrutivo no trânsito que faz, no Brasil, com que a cada 12 minutos uma pessoa perca a vida. A conscientização desses diferentes personagens que precisam conviver no trânsito depende do cumprimento das regras do Código de Trânsito Brasileiro. A cada um cabe um papel; de todos se exige respeito.

As pedaladas são cada vez mais incentivadas pelo próprio poder público, que precisa, portanto, prover mais segurança. Não só no trânsito. Basta lembrar o roubo que levou à morte do ciclista Carlos Renato Souza na Ponte Florentino Avidos, há três semanas. O uso da bicicleta para deslocamentos nas cidades ainda precisa passar por um processo civilizatório para atingir seu potencial.

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