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Presos ocupados são peças importantes no tabuleiro da ressocialização

Prisões não podem ser tratadas como um calabouço, onde condenados e presos provisórios se amontoam. O resultado é ainda mais violência

Presos do Complexo Penitenciário de Viana disputam torneio de xadrez com presidiários de outros países por meio da internet
Presos do Complexo Penitenciário de Viana disputam torneio de xadrez com presidiários de outros países por meio da internet
Foto: Fernando Madeira

Uma notícia como a de que quatro presos que cumprem penas por crimes como tráfico e homicídio no Estado participaram de um torneio internacional de xadrez tem a capacidade de provocar reações que vão da indignação à esperança.

Nas redes sociais, houve leitores que reclamaram do uso do dinheiro público, dos gastos decorrentes da participação dos competidores, que exige uma estrutura com computadores e acesso à internet dentro da prisão, e até mesmo da possibilidade de a prática tornar os condenados mais perspicazes, usando o aprendizado para voltar ao crime com mais eficiência quando retomarem o convívio em sociedade.

É justamente esse o ponto: os presos, um dia, sairão da prisão. Na reportagem de Vinícius Valfré - que inclusive disputou uma partida com um dos detentos -, a subsecretária de ressocialização da Secretaria Estadual de Justiça, Roberta Ferraz, fez a indagação necessária: “Cabe ao governo e à sociedade se perguntarem: como vão voltar?”. A esperança, citada também por leitores da matéria, pode se materializar em ações como o incentivo ao xadrez. E não se trata de um trocadilho infame.

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Este jornal de forma alguma defende a impunidade. Reconhece, de antemão, que o Código Penal e a Lei de Execuções Penais suavizam as punições a ponto de criar uma cultura que encoraja a reincidência. Os exemplos são recorrentes, estão no noticiário com uma frequência inaceitável. Por isso, é preciso defender penas mais duras, que reprimam o impulso ao crime.

Mas, uma vez que se consolide a perda de liberdade, as prisões não podem ser tratadas como um calabouço, onde condenados e presos provisórios se amontoam. Assim se formam as “escolas do crime” e, pior, os quartéis-generais de facções que, mesmo dentro das celas, conseguem comandar a criminalidade nas ruas.

O xadrez é apenas um exemplo de estratégia de ressocialização. Não só isso: de pacificação do próprio sistema. Há muitas outras iniciativas que podem ser incentivadas. Manter o preso ocupado, interessado, potencializa o seu desejo pela mudança de vida. Ninguém é inocente de acreditar que seja uma transformação imediata, do dia para a noite. É um processo que também precisa ser acompanhado de transformações sociais do lado de fora das grades.

 

 

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