Notícia

Família: veja como ensinar meninos e meninas a se verem como iguais

A maneira como os pais veem as brincadeiras infantis, por exemplo, pode interferir na disseminação de um comportamento machista entre os filhos

A gerente de atendimento Cristina Serra, 42 anos, sempre se incomodou muito qualquer fala machista. "Por exemplo, quando alguém diz que mulher não dirige bem. As pessoas têm características diferentes, e isso independe do gênero". Por isso, os filhos dela, Miguel, de  4 anos (foto), e Rafael, de 15, nunca escutaram esse tipo de frase em casa. "O meu pequeno gosta de me ajudar a cozinhar", diz ela.
A gerente de atendimento Cristina Serra, 42 anos, sempre se incomodou muito qualquer fala machista. "Por exemplo, quando alguém diz que mulher não dirige bem. As pessoas têm características diferentes, e isso independe do gênero". Por isso, os filhos dela, Miguel, de 4 anos (foto), e Rafael, de 15, nunca escutaram esse tipo de frase em casa. "O meu pequeno gosta de me ajudar a cozinhar", diz ela.
Foto: Fernando Madeira

“Meninos não choram!”, “Meninas não jogam futebol”. Muitos pais já devem ter falado isso em casa sem se dar conta de que, dessa forma, podem estar colaborando para que os filhos e as filhas se tornem adultos machistas. Parece bobagem, coisa sem importância. Mas para os especialistas não é não.

Para a pedagoga Mara Zanotti, ao reproduzirem esses estereótipos, o pai e a mãe estão incentivando um tipo de comportamento, no futuro, que dá origem a várias formas de violência contra a mulher, por exemplo. Basta olhar a realidade hoje ao redor para constatar que muitas famílias provavelmente falharam nessa tarefa em casa.

“Vemos um mundo em que o homem acha que pode tudo, que não aceita fim de relacionamento, que mata ‘por amor’. Isso é fruto de uma cultura machista muitas vezes ensinada pela família”, aponta ela.

É uma reflexão importante para pais e mães, como destaca a também pedagoga Fernanda Gioro. “Mulheres são muito machistas. O machismo é uma questão cultural que acontece de forma global. Todo adulto envolvido na educação de uma criança, seja pai, mãe, avô, avó, pode influenciar as crianças a terem essa mentalidade”.

A maneira como os pais veem as brincadeiras infantis, por exemplo, pode interferir na disseminação de um comportamento machista entre os filhos. “Muitos meninos, quando estão brincando com uma boneca, são julgados, avaliados por isso. Meninas, por sua vez, são ensinadas a cuidar da casa. Isso tem que mudar. Parece pequeno, mas é muito significativo”, aponta Fernanda.

Mara Zanotti concorda e diz que é preciso encarar o universo infantil com mais naturalidade, sem preconceitos. “Ao brincar de casinha, o menino está começando a entender a função masculina. Ele pode brincar com a boneca, trocar roupinha, dar banho, fazer comidinha. Isso não tem probelma, é natural. Não quer dizer que ele vai virar homossexual. Esse jogo simbólico, como chamamos, é importante para a estruturação da personalidade dele. Quando adulto, ele vai ajudar a cuidar da filha”, observa ela.

As atitudes dos pais, dizem as pedagogas, são mais importantes até do que o discurso contra o machismo. “Crianças aprendem mais pelo exemplo. É importante um lar onde o pai respeita uma mãe. Se o menino vê o pai agredindo a mãe, tem grande chance de se tornar um adulto violento com as mulheres. E, por outro lado, a menina pode achar normal, quando for adulta e estiver em um relacionamento, ser maltratada e achar que tem que aceitar isso”, destaca Fernanda.

Na casa da gerente de atendimento Cristina Serra, 42 anos, o Miguel, de 4 anos, e o Rafael, de 15, aprenderam cedo que tarefas como lavar a louça, por exemplo, não são esclusivamente femininas. “Cresci vendo meu pai cozinhar. Minha mãe trabalhava fora. Somos em 10 irmãos, sendo seis mulheres, e todo mundo fazia de tudo em casa”, contou.

Crie os filhos sem machismo

Ensine que homem chora sim

Sentimental

Chorar é humano. Homens e mulheres têm sentimentos e devem poder demonstrá-los, sem medo de julgamentos. Chorar não vai fazer desse menino uma pessoa frágil. Qual o problema de o filho ser mais sentimental? Isso deve ser encarado como uma qualidade pessoal.

Menino machão não!

Delicadeza

Não ache normal menino bater, chutar, gritar, ou seja, reproduzir comportamentos violentos. Mostre que é preciso ter educação no trato com os outros. Da mesma forma, não exija que só a menina seja delicada, que não fale palavrões.

Menino pode usar rosa e menina pode usar azul

Liberdade

A criança tem que ter liberdade para usar as cores que mais lhe agradam. Não existe cor feminina e cor masculina. Isso é uma bobagem, não faz o menor sentido. Mostre que o que define a pessoa não é a cor da blusa, mas o caráter, como ela age, pensa e sente

Mesma regra para todos

Ajudando em casa

A menina tem que ajudar a cuidar da casa, arrumar a própria cama, mas o menino não precisa? Está errado. Os dois devem ter as mesmas regras, participar da mesma forma das atividades domésticas. Na hora de ir cozinhar, chame o menino também para se envolver na tarefa.

Menina joga bola

Brincadeiras sem gênero

Acabe com isso de que brincadeiras têm gênero. As meninas muitas vezes se interessam mais por bola, por jogos de aventura, do que por boneca, mas são criticadas por isso. Meninos, por sua vez, são até impedidos de brincar de casinha. Deixe a criança livre com sua curiosidade para vivenciar experiências. Isso é saudável, faz parte da infância, não é induzi-la a uma orientação sexual

Ensine a criança a respeitar o corpo do outro

Nada contra a vontade

Mostre aos meninos e meninas que respeitem o outro, que só se pode tocar em alguém com autorização dessa pessoa. Isso vai ensiná-los a não aceitar nenhuma forma de violência, a não aceitar nada que seja feito contra a vontade dela

Dê bons exemplos

Mais ação, menos discurso

Muito mais do que fazer discurso contra o machismo é agir em casa de forma correta. O pai que respeita a mulher – e vice-versa -, e a mãe que não aceita ser tratada de forma subalterna e agressiva. Um bom exemplo a ensinar é quando marido e mulher dividem igualmente as tarefas de casa e dos filhos

Pais, valorizem suas carreiras

Menos discriminação

Mostrem a importância de ter uma carreira, de ter ambição, de buscar a realização no trabalho. Isso deve ser natural em casa. A mãe que tem uma profissão deve demonstrar como isso é importante para ela e para a contribuição financeira do lar. O pai deve mostrar que se orgulha da mulher, que a apoia nos desafios da carreira dela. Assim, você estará educando pessoas que vão saber se posicionar no mercado de trabalho e combater a discriminação por gênero.

Sem essa de brinquedo de menino e de menina

Marcela e os filhos Murilo e Maya: não existe cor de roupa ou brinquedos proibidos para os irmãos
Marcela e os filhos Murilo e Maya: não existe cor de roupa ou brinquedos proibidos para os irmãos
Foto: Carlos Alberto Silva

A pequena Maya, de 2 anos, tem bonecas, bichinhos de pelúcia. Mas ela gosta mesmo é de brincar com o Homem-Aranha e se diverte com carrinhos e aviões do irmão, o Murilo, de 6 anos. Na casa deles, aliás, não tem essa de “brinquedo de menina” ou “brinquedo de menino”.

“Ela gosta de imitá-lo. Não vejo problema algum nisso. Da mesma forma, não vejo problema se ele pega uma boneca dela. Ele praticamente só tem primas, e quando está com elas, muitas vezes, acaba brincando de casinha. Tenho absoluta clareza de que esse tipo de atitude não influencia em nada numa orientação sexual no futuro”, conta a mãe das crianças, Marcela Lima Sant’Anna, 37 anos.

Marcela e o marido, o servidor público Marcio Vieira, 41 anos, procuram agir com o máximo de naturalidade em casa, acreditando que isso vai ajudar os filhos a crescerem fora de uma cultura machista.

“Educar as crianças longe dessa cultura machista é um esforço diário. Estamos em uma sociedade ainda mergulhada no machismo e podemos, sem querer, ter uma fala ou atitude errada, que leva a isso. A gente tem que ter cuidado para não se contradizer”, avalia ela, que é profissional da Educação Física.

Para Marcela, a melhor forma de contribuir para uma geração menos machista no futuro é dar exemplo dentro de casa.

“A criação deles é muito compartilhada aqui em casa. O pai cuida deles da mesma forma que eu. Tudo que eu faço o meu marido faz”, conta.

Marcio diz que não via esse comportamento no pai dele, mas sabe que os tempos são outros. “Quando eu era pequeno, minha mãe é quem cuidava mais da casa, dos filhos. Isso era mais papel da mulher. Mas a realidade hoje é diferente. Minha mulher trabalha tanto quanto eu. Cuidar da casa e das crianças é obrigação minha também. E é um exemplo que quero queixar para meus filhos”, comenta o pai do Murilo e da Maya.

A igualdade entre homens e mulheres deve existir até nas pequenas coisas, como destaca a pedagoga Mara Zanotti.

“Como pedagoga e mãe, acredito que para criar filho sem machismo, dentro de casa, o casal não pode diferenciar as tarefas entre os meninos e as meninas. Ambos têm que guardar os brinquedos, arrumar a cama. Os afazeres domésticos têm que ser iguais para os dois”, pontua.

E é preciso, completa a pedagoga, estimular a gentileza nos meninos. “Para isso, o pai deve ser gentil com a mãe. Isso não é ser feminino”.

Mesmo ainda pequeno, Murilo parece já ter entendido a lição. “Percebo nas falas, nas atitudes dele que ele compreende tudo isso. É um menino que brinca com meninas com uma postura diferente: é cuidadoso, atencioso. Quero que ele cresça assim e sempre respeite as mulheres. Da mesma forma, quero que minha filha seja educada, mas não aceite desrespeito, grosserias, autoritarismo”, comenta Marcela.

Ver comentários