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Pesquisadora descobre "berçário" de pterossauros na China

Taíssa Rodrigues integra equipe que achou ovos do réptil que é "primo" dos dinossauros

Taíssa Rodrigues na China. Em destaque, ovos e ossos de pterossauros adultos
Taíssa Rodrigues na China. Em destaque, ovos e ossos de pterossauros adultos
Foto: Arquivo pessoal

Cientistas acabam de divulgar uma das maiores descobertas sobre os pterossauros, feita na China. O estudo, considerado um dos mais importantes dos últimos dez anos, tem participação de uma professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a paleontóloga Taíssa Rodrigues, de 35 anos, que conversou com a gente. Confira a entrevista e entenda um pouco sobre por que esse achado é revolucionário.

Como foram encontrados esses ninhos?

Haviam encontrado apenas três embriões de pterossauros no mundo até hoje. Eram de espécies diferentes. O primeiro em 2004, ou seja, há pouco tempo, e estava muito achatado. Em 2014, encontramos nessa região, no Noroeste da China, perto de uma cidade chamada Hami, cinco embriões de uma mesma espécie, a Hamipterus tianshanensis. Pensamos: onde tem um, tem mais. E continuamos escavando, um trabalho de campo muito difícil.

Por que é considerada uma descoberta revolucionária?

A novidade agora é que encontramos muito mais ovos desta espécie. Pela primeira vez, temos os embriões preservados em três dimensões. Pela primeira vez, a gente sabe que os pterossauros se reproduziam em colônia, por exemplo. Já sabemos muita coisa sobre os pterossauros adultos. Mas pouco sobre os filhotes. Agora, está muito mais fácil pesquisar.

Pela sua empolgação, deve ter sido uma descoberta mesmo emocionante. 

Estou numa empolgação incrível. É uma emoção enorme. Uma coisa única. A gente nunca sonhou encontrar uma quantidade tão grande de embriões da mesma espécie, algo que não via a luz do dia havia mais de 100 milhões de anos. Somos os primeiros seres humanos a ver uma coisa dessa. Vai ser um passo muito importante para a pesquisa sobre esses animais. A gente tem pouca informação sobre como cresciam. Ninguém sabe direito. Agora, poderemos estudar uma população inteira, da mesma espécie, o que é extremamente raro, e ver como ela se desenvolveu.

O que vocês querem desvendar agora?

A hipótese defendida antes era de que os filhotes de pterossauros eram independentes. Nossa pergunta, então, era: será que os filhotes sabiam voar desde que saíam do ovo? Agora, sabemos que conseguiam caminhar, mas o osso da asa era menor, ou seja, eles não conseguiam voar ainda. Por isso, deviam ter ajuda do pais para se alimentar e se defender dos predadores. Fizemos esse estudo e agora abrimos a porta para muitos anos mais de estudos pela frente para saber como os filhotes dessa espécie cresciam, por exemplo.

Como foi sua participação nessa pesquisa?

Somos uma equipe grande, de quase 20 pessoas. São quatro brasileiros. Além de mim, há professores do Rio de Janeiro, do Ceará e de Pernambuco. Eu não participo das escavações. Mas todo ano vou à China para estudar os fósseis nos museus. Cada vez que vou, fico duas semanas.

Havia pterossauros no Brasil?

Os pterossauros voavam por todo o planeta. Mas o Brasil é o melhor lugar do mundo para estudar pterossauros. Temos registros de fósseis encontrados na chapada do Araripe, no Sul do Ceará, e recentemente foram encontrados fósseis no Paraná.

E no ES? Não temos notícias de dinossauros?

Não tivemos dinossauros, infelizmente. Não temos rochas dessa idade, da Era Mesozoica, que é a Era dos dinossauros. Mas no final da década de 1970, cientistas acharam no Sul do Estado um fóssil de uma preguiça gigante, que é um mamífero de 10 mil anos. Temos um aluno pesquisando essa preguiça agora.

O QUE SÃO

O que são pterossauros?

Primos

Diferentemente do que se imagina, os pterossauros não são dinossauros, mas “primos” bem próximos deles, pertencendo a outro ramo evolutivo. Uma diferença básica entre eles: os pterossauros voavam, o que não era possível para os dinossauros.

Quando existiram

Era Mesozoica

Esses répteis com asas existiram na Terra cerca de 110 milhões de anos atrás, na Era Mesozoica, e foram extintos, junto com os dinossauros, quanto um meteoro atingiu o planeta, há aproximadamente 66 milhões de anos.

Os "brasucas"

Voavam longe

Eles voavam por todo o planeta, inclusive pelo Brasil, considerado um dos melhores lugares do mundo para se estudar pterossauros. Vários fósseis foram encontrados, por exemplo, chapada do Araripe, no Sul do Ceará, e recentemente, no Paraná.

A descoberta

Modo de viver

O achado expande enormemente a pesquisa sobre os pterossauros, sobretudo os filhotes, permitindo aos cientistas saber sobre como eram, se desenvolviam e viviam esses animais.

O local

“Berçário”

Os cientistas descobriram há alguns anos que a região no Noroeste da China foi escolhida pelas fêmeas da espécie de pterossauro para ser uma espécie de “ninho coletivo”. Porém, tempestades fizeram os rios da região transbordarem, inundando a área, enterrando os ovos, que acabaram fossilizados.

Tridimensionais

Pela primeira vez

Até hoje, só haviam sido descobertos três embriões de pterossauros, dois na China e um na Argentina. Os três, porém, não estavam intactos. Essa é a primeira vez que embriões são encontrados como os ossos tridimensionais. Foram estudados 215 ovos em um ninho onde se estima que havia cerca de 300.

Filhotes

Revelação

O estudo dos ossos dos embriões revelou também uma informação inédita. Quando nasciam, os pterossauros eram capazes de andar, mas não de voar, indicando que precisavam de cuidados parentais até se tornarem independentes. No material encontrado, há ovos cujos embriões estão em diferentes estágios de desenvolvimento.

Espécie

Características

Há mais de 200 espécies de pterossauros. A espécie da qual foi descoberto o “ninho” na China, Hamipterus tianshanensis, alcançava uma envergadura (distância da ponta de uma asa à ponta da outra) de 3,5 metros, com cerca de 1,2 metro de altura e 12 quilos de peso.

Fontes: pesquisadora Taíssa Rodrigues, com informações de Estadão e O Globo

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