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Alzheimer: veja como reconhecer sintomas iniciais da doença

Dificuldade para fazer tarefas simples do dia a dia, como se vestir, cozinhar ou dirigir pode ser sinal de que o Alzheimer chegou

Dona Nadia Ventura, 87 anos, tem alzheimer. Na foto, sua filha Vanessa Ventura, 38 anos, e o neto João Pedro Ventura Possatto, 18 anos
Dona Nadia Ventura, 87 anos, tem alzheimer. Na foto, sua filha Vanessa Ventura, 38 anos, e o neto João Pedro Ventura Possatto, 18 anos
Foto: Carlos Alberto Silva

Em dias de correria, de várias tarefas para cumprir, esquecer onde ficou a chave do carro ou o nome de um morador do prédio pode ser chato, mas é normal, acontece. E quando a velhice chega isso pode ser até mais frequente.

Certos esquecimentos, porém, merecem atenção. Principalmente se a pessoa passou dos 60 anos e começa a não se lembrar de coisas que faz todos os dias, por exemplo como coar um café. É sinal de que algo mais sério pode estar por vir: o Alzheimer.

No próximo dia 21 é comemorado o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, e as associações de Alzheimer prepararam uma programação (veja cartaz abaixo).

Programação Mês Mundial do Alzheimer
Programação Mês Mundial do Alzheimer
Foto: Reprodução

Falhas

As pequenas falhas na memória daquele parente são “coisas da idade” ou um sinal de que essa doença neurodegenerativa está chegando?

“Tem algo que é normal do próprio envelhecimento. O idoso tem a capacidade de processamento da informação um pouco mais lenta. Não que cometa erros, só demora mais. Quando ele sai e tem várias tarefas para fazer, esquecer uma delas não é preocupante. Pode acontecer com qualquer um de nós. Pelo menos 35% da população tem queixa de memória, em qualquer idade”, diz o neurologista Rodrigo Rizek Schultz, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz).

Frequência

Um fator que deve ser observado, segundo o médico, é se esse episódio foi algo isolado ou ocorre com mais frequência.

“A pessoa começa a guardar coisas em lugares estranhos, como a chave dentro geladeira. Ou seja, ela vai posicionando coisas do dia a dia em locais atípicos. E passa a não dar conta de tarefas simples, como se vestir com a roupa adequada para determinada situação ou ir ao supermercado, fazer cálculos de dinheiro, pagar conta em banco...”, cita a geriatra Juliana Gama, diretora científica da Abraz no Estado.

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Pequenos sinais que podem ser confundidos com algo típico da velhice. “Não é repentino, de uma hora para outra. Vão se passando meses e anos, e a família continua não valorizando esse conjunto de sinais. Quando percebe, tem dois anos”, observa a médica.

Na fase mais inicial, o Alzheimer não compromete muito a rotina do paciente, que continua desempenhando suas funções sem precisar de ajuda. “É algo leve, porque ele continua tocando a vida, é independente para tudo. Mas caracteriza já uma anormalidade”, destaca o neurologista.

O problema, segundo Juliana, é que quando os familiares se dão conta de que algo está errado, a doença já pode ter se instalado com mais força.

“Se esses episódios estão acontecendo, não pode demorar para levar a pessoa a um especialista, que pode ser geriatra, neurologista ou psiquiatra. Se entrar logo com diagnóstico adequado e com o tratamento, tanto medicamentoso quanto multiprofissional, você consegue controlar uma evolução rápida da doença”, aponta ela.

A doença age matando neurônios

O Alzheimer age matando os neurônios e causando um declínio das funções cognitivas, interferindo nas capacidades de trabalho, no comportamento, na personalidade da pessoa. É um transtorno progressivo, sem cura. E não há um exame que o detecte.

Por isso, não é simples descobrir que há algo errado. Até para os médicos. “Não dá para avaliar tomando como exemplo apenas um acontecimento. É um critério bastante subjetivo”.

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Dificuldades na memória são, certamente, um sintoma comum. Mas não é qualquer memória. “Outro dia, no consultório, ouvi o caso de uma senhora de 77 anos que foi a uma festinha infantil, de uma amiguinha da neta. Em determinado momento, ela perguntou para a filha que horas eles iriam apagar as velas, sendo que já tinha cantado o parabéns 15 minutos antes. Essa memória imediata deveria ter sido guardada. É diferente de esquecer se falou com uma ou outra pessoa na festa”, aponta Schultz.

Comportamento

Pode não ser tão fácil concluir que alguém está com sintomas desse tipo de demência. Mas o que dá para perceber é que a pessoa mudou, segundo a geriatra. “Muda a personalidade dela. Ela fica estranha, começa a usar um tom mais irritado, mais severo com os outros”.

Às vezes, o próprio paciente sente a mudança. “Um terço reconhece que tem alguma doença”, afirma o neurologista.

Muitas vezes, complementa Juliana, nem é alguém da família que detecta o problema. “Já aconteceu de o porteiro do prédio avisar a família que a pessoa pode estar com Alzheimer”.

A doença não tem classe social e pode afetar pessoas relativamente jovens. “Há poucos casos abaixo dos 65 anos. Mas não são raros”, esclarece Schultz.

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Diante do diagnóstico, a saída é começar a tratar os sintomas. “Não existe remédio capaz de impedir a evolução da doença. As drogas atuam controlando sintomas como delírios, a agressividade, distúrbios do sono, apatia...”, conta o médico.

Diagnóstico veio após um grande susto

Certa vez, ela deixou uma panela de pressão no fogão ligado e foi cochilar. Com filhos, netos e amigos, passou a contar sempre a mesma história, do tempo em que era assistente de enfermagem e fazia partos. Contava uma, duas, dez vezes. A família começou a achar que dona Nádia estava um pouco estranha. Até o dia em que ela desapareceu.

“Minha mãe saiu cedo para caminhar com R$ 50 no bolso e não voltou. Ficou todo mundo doido. Ela só apareceu por volta das 20 horas, só com moedinhas, machucada. Não sabia contar aonde tinha ido, o que havia ido fazer...”, relata a funcionária pública Vanessa Ventura, 38 anos, filha de dona Nádia.

Isso aconteceu 13 anos atrás. O susto só serviu para uma coisa: para alertar a família que algo havia mudado, que aquele comportamento de Nádia não era normal.

“Até então, ela dava sinais. Mas como ela mesma sempre dizia que era muito ‘esquecida’, a gente achava que era coisa da idade, distrações. Quando ela se perdeu, começamos a pesquisar mais. E decidimos procurar uma psicóloga e um médico”, diz Vanessa.

Medo

Já são 13 anos convivendo com o Alzheimer. Todos na família. “Passamos a não deixar mais minha mãe caminhar sozinha, começamos a acompanhá-la em tudo. Não a deixávamos mais sozinha em casa porque a gente tinha medo”.

E com o passar dos meses, a doença foi dando as caras de verdade. “Na época do diagnóstico, meu pai já estava doente. Ele faleceu em 2010 e ela nem soube”, comenta a funcionária pública, que morou com a mãe por muitos anos, até que, junto com os irmãos, decidiu que o melhor para Nádia era frequentar uma casa de repouso.

“Meu filho foi meu braço direito no início. Ele era criança. Hoje, minha mãe não reconhece quase ninguém. Só se lembra de mim e dele, que tem 18 anos, além de uma irmã dela”.

Impacto

O Alzheimer não era novidade na família, o que não deixou a notícia da chegada da doença ser menos impactante para todos em casa.

“Minha avó teve e umas tias também. Mesmo assim, é chocante. A família sofre muito porque vê isso e não tem como ajudar muito. Não há o que fazer. É muito sacrificante para quem cuida. Mas sabemos que ela não sofre. Sofre quem é o cuidador”.

Cada vez mais distante, dona Nádia, hoje com 87 anos, continua firme, recebendo todo amor da família. “É um carinho muito grande que temos por ela. É como um bebê”.

Fique atento

Os casos - Estima-se que a cada três segundos alguém desenvolva demência no mundo, o que implica mais de 9,9 milhões de novos casos a cada ano. Estima-se ainda cerca de 50 milhões de pessoas vivendo com demência no mundo, e esse índice deverá aumentar para 152 milhões em 2050

Sobre o Alzheimer - É a forma mais comum de demência causada pela deterioração e atrofia lenta e progressiva do cérebro. A doença não tem cura e os medicamentos apenas ajudam a preservar o que restou da função cerebral, além de possibilitar o tratamento de sintomas secundários como insônia e depressão. Em estágios avançados, os problemas de memória podem vir acompanhados de dificuldade de locomoção, comunicação e deglutição e incontinência

O cérebro

Especialistas defendem que o a partir dos 27 anos nosso cérebro muda. Em 2015, pesquisadores da Universidade de Rush mostraram que o Alzheimer pode ter início 18 anos antes dos primeiros sintomas. Após os 65 anos, o risco de desenvolver a doença dobra a cada cinco anos

O diagnóstico - A certeza do diagnóstico só pode ser obtida por meio do exame microscópico do tecido cerebral do doente após seu falecimento. Na prática, o diagnóstico da doença é clínico, isto é, depende da avaliação feita por um médico, que irá definir, a partir de exames e da história do paciente, qual a principal hipótese para a causa da demência

As fases - Existem diferentes fases no curso da doença. Assim, a pessoa com demência em fase inicial será capaz de realizar várias atividades com e sem ajuda por anos. Na fase moderada, ela irá requerer maior orientação e apoio, e na fase grave, precisará de cuidado total e amor

Sinais

O estágio inicial raramente é percebido. Parentes e amigos (e, às vezes, os profissionais) veem isso como “velhice”, apenas uma fase normal do processo do envelhecimento. Como o começo da doença é gradual, é difícil ter certeza exatamente de quando a doença começa

É bom se atentar se a pessoa...

- Tem problemas com a linguagem

- Tem perda significativa de memória, sobretudo das coisas que acabam de acontecer

- Coloca objetos em lugares errados

- Tem dificuldades em executar tarefas domésticas, como se vestir, fazer contas, cozinhar...

- Não sabe a hora ou o dia da semana

- Fica perdida em locais familiares

- Tem dificuldade na tomada de decisões ou fica inativa ou desmotivada

- Ela tem mudança de humor, depressão ou ansiedade ou reage com raiva incomum ou agressivamente em determinadas ocasiões

Fonte: Abraz

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