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A divisão de tarefas continua desigual

A mulher foi para o mercado de trabalho, mas se mantém sobrecarregada com os afazeres da casa, o que gera brigas e muitas vezes compromete o casamento

Isabel Cunha faz o possível para dividir as tarefas da casa com o marido, Luciano, e ainda dar conta da criação dos filhos. Mas fica sobrecarregada
Isabel Cunha faz o possível para dividir as tarefas da casa com o marido, Luciano, e ainda dar conta da criação dos filhos. Mas fica sobrecarregada
Foto: Guilherme Ferrari

Melinda Gates, esposa de Bill Gates, fundador da Microsoft, contou em uma recente entrevista que entrou em um acordo com sua família. Na hora do jantar, Bill e os três filhos só podem se retirar da cozinha após a mãe deixar o local em ordem e também sair de lá. A divisão do trabalho doméstico, que gera tantas brigas entre homens e mulheres, foi o tema da carta anual divulgada mês passado pelo casal, através da Fundação Bill e Melinda Gates.

Mesmo com a revolução feminina e a entrada da mulher no mercado de trabalho, elas ainda gastam mais tempo com tarefas domésticas do que homens. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, elas trabalham cerca de 21 horas e 12 minutos em casa por semana, enquanto eles tiram apenas 10 horas semanais para ajudar em casa. A média de horas é a mesma de 10 anos atrás. O resultado? Discussões e brigas que parecem não ter fim e que podem, sim, comprometer o casamento.

Assim como acontece com o bilionário Bill Gates e sua esposa Melinda, na casa de Isabel e Luciano Cunha não é diferente. Mãe de Maria Luisa, 10 anos, e Guilherme, 4 anos, a empresária se desdobra para dar conta da vida profissional, dos afazeres domésticos e da criação dos filhos. O trabalho só aumenta e é cada vez mais desgastante, por isso, o marido precisa compartilhar as responsabilidades. “São muitas tarefas, como fazer almoço, lavar roupa, fazer dever de casa com as crianças, levar na escola...”, enumera Isabel.

Todos os afazeres de casa são de responsabilidade dela. O marido ajuda as crianças nas atividades da escola, além de levar e buscar na escola e nas aulas extraclasse. Mas às vezes é preciso ‘cutucar’ o marido, que está assistindo televisão, e delegar algumas funções, como ajudar o mais novo a tomar banho e trocar de roupa.

A psicóloga Gina Strozzi explica que a divisão de tarefas é uma das principais queixas dos casais. “O homem foi criado para dominar fora de casa, no espaço público, e a mulher dentro de casa, no espaço privado. Mas essa lógica não existe mais. A mulher agora também é importante no espaço público e avançou em termos de salário e poder. Mulher, agora, vive a tripla jornada, com casa, trabalho e o estudo. Por isso fica tão sobrecarregada”, explica.

Maísa Marianelli sonha com o dia que o marido, Thales Malacarne, queira aprender a cozinhar
Maísa Marianelli sonha com o dia que o marido, Thales Malacarne, queira aprender a cozinhar
Foto: Divulgação

Para ela, o homem precisa assumir o papel de parceiro em casa e se tornar cada vez mais atuante nas atividades rotineiras, visando melhorar o relacionamento. “Não é uma questão de imposição. A mulher não deve cobrar o tempo inteiro. É uma questão de conscientização, do homem assumir o papel de amigo e parceiro.

Mas conscientizar não é brigar”, pontua o psicólogo Antonio Elmo, acrescentando que o problema é cultural. Para ele, a mesma mãe que incentiva a filha a brincar de casinha, cuidar das bonecas e fazer comidinha, não faz o mesmo com o menino. “Dificilmente encontramos uma mãe que ensina o filho a cozinhar, lavar e passar roupas. Essa é a causa e origem de tudo. As famílias não preparam os jovens para divisão de trabalho”, explica Antônio. Para ele, os homens da nova geração, que estudaram fora, moraram em repúbli ca de estudantes e foram obrigados a entrar em um rodízio de tarefas domésticas, são os mais propensos a ajudarem em casa no futuro. “Neste novo contexto eles já estão acostumados com a rotina e sabem como fazer o trabalho doméstico”, diz.

Casados há quase dois anos, a bancária Maisa Marianelli e o produtor musical Thales Malacarne tentam se entender na hora de colocar a mão na massa. “Geralmente ele organiza a bagunça ‘por cima’. Eu aspiro, passo pano, lavo banheiro, dou faxina no geral, lavo roupa, coloco no varal e tiro. Em algumas semanas em que ele tem muito trabalho e está cansado, eu faço as tarefas dele”, conta Maísa. Acostumada a delegar e muito agitada, geralmente é ela quem faz a divisão das obrigações. “Às vezes ele está com preguiça, aí no outro dia eu peço novamente. Mas se ele não faz a semana toda, aí eu vou lá e faço”, confessa a bancária.

Na casa dos pais, Thales não estava costumado a fazer muitas coisas, nem arrumar o próprio quarto. O produtor teve que aprender muita coisa, mas nem tudo. “No início do casamento foi bem difícil. Ainda tenho um sonho de ele pelo menos aprender a cozinhar, mas ele não se interessa”, brinca Maísa.

Para o psicólogo Antônio Elmo, ainda existe o preconceito na hora de o homem assumir o trabalho em casa. “Mas quanto mais escolaridade alguém tem, menor é esse preconceito”, diz. Aliás, segundo os dados da pesquisa do IBGE, as mulheres com ensino fundamental incompleto trabalham 36 minutos a mais do que mulheres com ensino superior.

A solução para os desentendimentos é cuidar do problema logo na raiz, ou seja, quando o relacionamento está ainda no começo. “A orientação para as meninas é que, ao arrumar um namorado, ao fazer algum programa, como churrasco ou um jantar, delegue as tarefas. Vejo no consultório que elas se preocupam muito com coisas culinárias enquanto os homens fazem coisas mais práticas, como comprar gelo e cerveja em um churrasco, enquanto elas fazem o arroz, cortam o tomate para o vinagrete... E quando acaba o churrasco, enquanto eles continuam bebendo, elas ainda precisam lavar a louça e limpar a cozinha. Aí mora o erro”. Para o psicólogo, caberia à essas meninas já começarem a educar seus namorados e noivos para surpresa não ser maior depois do casamento.

“Se casados a situação é complicada, com a chegada dos filhos, pode piorar. E qual a graça de um pai que só brinca com o filho mas nunca trocou uma fralda. Ele é mesmo pai? A divisão de tarefas é muito mais do que trabalho, é uma filosofia de vida e um comprometimento com o outro. Isso propicia um trajeto de vida em comum, gera parceria e cumplicidade”.

E os resultados aparecem até na hora do sexo. A mulher moderna quer alguém que dialogue e reparta as tarefas domésticas. Quer dividir e não ficar sobrecarregada. Isso causa um desgaste. A mulher, já tão atarefada, ainda precisa transar? Recebo queixas frequentes de mulheres que não possuem desejo porque estão exaustas, ficam o dia inteiro pensando nos filhos e na casa. Se compartilhar o trabalho fica muito mais fácil ter vida sexual ativa”, afirma Gina.

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