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Casal troca endereço fixo por imensidão azul

Eles deram a volta ao mundo, passando por 30 países, e já planejam mais uma viagem

Fausto Pignaton, 62 anos, e Guta Favarato, 35, trocaram há anos o endereço fixo em terra pela imensidão das águas do mar. Ele já mora em barcos há mais de 25 anos, e ela, há 14. Juntos, foram o primeiro casal capixaba a dar a volta ao mundo em um veleiro.

Fausto Pignaton e Guta Favarato na Polinésia Francesa
Fausto Pignaton e Guta Favarato na Polinésia Francesa
Foto: Arquivo Pessoal

Trocar o conforto e a estabilidade de uma casa de concreto por um barco sem endereço pode parecer loucura para alguns, mas para Fausto e Guta foi uma libertação. “O que nos motivou a fazer essa mudança foi o estilo de vida mais tranquilo e o mais autossuficiente possível, o contato com a natureza e a sensação de liberdade que a vida no mar nos proporciona. A vida é feita de sonhos. O do Fausto era construir barcos. O nosso foi velejar o mundo”, conta Guta.

Após passarem três anos e oito meses conhecendo 30 países ao redor do mundo, o casal voltou a viver em águas brasileiras, em Angra dos Reis. A casa deles é o Guruçá Cat, barco que ganhou o nome em homenagem a um tipo de caranguejo amarelo que vive nas praias capixabas e, também, o apelido que Fausto tinha quando criança.

O veleiro foi planejado para atender às funções de uma casa comum. "O Guruçá foi projetado pelo Fausto, já foi pensado para não faltar nada. É grande, tem internet e é autossuficiente". Para não depender da terra, produz energia, coleta água da chuva e gera água doce a partir da água do mar.

Fausto Pignaton na Tailândia
Fausto Pignaton na Tailândia
Foto: Arquivo Pessoal

Outra motivação de Fausto é a paixão por construir veleiros. O Guruçá é o terceiro barco que ele projeta. "Fausto descobriu que tem um talento. Os catamarãs projetados e construídos por ele são belíssimos e pessoas de várias partes do mundo já tentaram comprar um projeto dele, o que ele não pretende fazer. Acho que ele gosta mais de projetar e construir do que de viajar", conta Guta.

Com a paixão de colocar em prática as inspirações que somente ele consegue visualizar, Fausto colocou o Guruçá Cat à venda para construir a sua quarta criação. O motivo? "Tem pergunta que não tem uma resposta, sabe?", diz Guta. "Por que a maioria das mulheres quer ter o segundo filho? Ela já não estaria realizada como mãe com o primeiro filho? No meu caso, seria o quarto filho, só isso, nada mais.", se defende Fausto. Guta completa: "É o que ele gosta de fazer. Para muita gente é loucura, mas pra ele é uma coisa normal".

Um novo barco também traz uma nova vontade de explorar as partes do mundo que ficaram de fora da última vez. "Com o projeto novo, a gente pensa em fazer a Rota do Atlântico, passando pelo Caribe, por Portugal e pela Grécia para chegar ao Mediterrâneo". Mas, antes disso, eles ainda querem desfrutar um pouco mais das águas brasileiras. "Para construir o Guruçá a gente gastou três anos e três meses, o que é raro porque foi muito rápido! Dessa vez, a gente não tem pressa. Queremos ter mais tempo e menos preocupações. Nós não temos mais aquela gana de construir e viajar imediatamente".

Enquanto esse dia não chega, o casal segue dividindo a vida entre fazer charter (aluguel do barco para excursões turísticas) pelo litoral do Brasil e traçando os planos pessoais. Fausto com o novo barco e Guta com dois projetos de livros que ela quer escrever. "Comecei a escrever um livro sobre a viagem e outro de ficção, aí começo a pensar em um e vem ideia do outro. Mas estou tranquila, sem prazo para terminar".

Para um casal que sonhou tão alto e conseguiu realizar suas paixões, o próximo passo é sempre um desafio. "Nós estamos precisando de um sonho. Eu sei que um sonho move muitas pessoas. A gente já foi mais animado, mas depois que você conhece tudo parece que você está preenchido e que chegou ao ápice. Acho que a gente ficou meio perdido em relação ao que fazer agora. Além de construir o barco e escrever o livro, falta alguma coisinha. Isso quer dizer que tem mais aventuras por aí!"

Fausto Pignaton e Guta Favarato em Galápagos
Fausto Pignaton e Guta Favarato em Galápagos
Foto: Arquivo Pessoal

Os desafios da vida no mar

Fausto e Guta iniciaram a sua volta ao mundo em 2012. Depois de três anos e oito meses velejando, conheceram mais de 30 países. Guta confessa que a vontade de viajar veio da inveja que sentiam quando viam outras pessoas se aventurando. "A gente já morava no barco e trabalhava com ele fazendo charter. Quando começou a onda de blogs de viagens marítimas, passamos a acompanhar e o Brasil ficou pequeno para nós dois".

Fausto Pignaton e Guta Favarato em Bali
Fausto Pignaton e Guta Favarato em Bali
Foto: Arquivo Pessoal

Se por um lado eles tiveram o mundo todo para descobrir, por outro precisaram viver confinados em um mesmo veleiro. "Eu costumo dizer que o mar é o lugar em que você mais briga e que mais faz as pazes rapidamente. A gente fica 24 horas juntos então, naturalmente, tem hora que você quer matar o seu parceiro, mas também não aguenta esse clima por muito tempo". Ao final da volta ao mundo, na travessia da África do Sul até o Espírito Santo, o casal chegou a ficar 27 dias dentro do veleiro, sem ter contato com terra firme. "Nesses casos não tem muita alternativa. Não tem para onde você ir quando dá vontade de desistir. Já passamos por tantas situações complicadas que tem uma hora que você pensa: 'o que eu estou fazendo aqui?' e decide que quando chegar em terra você vai desistir, mas quando você finalmente chega é tão emocionante que você desiste de desistir".

Para manter a mente tranquila, enquanto veleja, o casal acredita que é preciso criar uma rotina. "A gente não pode ficar entediado. Nós acordamos, o Fausto, geralmente, observa o tempo e faz a navegação. Nós tomamos café da manhã, lemos algum livro, eu faço almoço e o Fausto projeta o novo barco. Depois tiramos uma soneca, assistimos um DVD. A gente faz tudo bem devagar para gastar bastante tempo!".

Trinta países depois e com uma bagagem cultural enorme, Guta conta que também bateu a saudade de casa, ainda que por "casa", eles se refiram às águas brasileiras. "Quando você está no Brasil, reclama de tudo. Mas quando viaja, começa a ver que todos os países têm seus problemas. Não tem lugar perfeito. Apesar de tudo, o Brasil ainda é o melhor lugar para se viver.".

Veja como o casal lava roupas:

Veja a viagem para Galápagos:

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