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"Somos complementares", diz Lélia Wanick

Grande parceira de Sebastião Salgado, um dos fotógrafos mais importantes do mundo, ela fala de família, viagens, casamento, questões ambientais e política

Lélia Wanick na Papua Nova Guiné, em 2008
Lélia Wanick na Papua Nova Guiné, em 2008
Foto: © Sebastião SALGADO / Amazonas images

Não tente se referir a ela a algo como “a mulher do Sebastião Salgado”. Seria como comprar briga. Aliás, seria cometer uma tremenda injustiça. A capixaba Lélia Wanick pode não ter a fama do marido, o fotógrafo brasileiro mais importante e reconhecido do mundo. Mas é ela a responsável por grande parte do sucesso dele. É Lélia, por exemplo, quem edita os livros, organiza viagens e as exposições de Tião, como o carinhosamente chama. “É muita parceria. Sobretudo, somos complementares”, dispara.

Aos 72 anos, Lélia ainda trabalha bastante. Além de coordenar a agência Amazonas Images, que criou com Salgado, se dedica ainda ao Instituto Terra, ONG de preservação ambiental que fundou há 20 anos na região do Vale do Rio Doce.

Conversamos com ela após um evento, em Vitória, no final de agosto, por ocasião do 4º aniversário do Instituto Ponte, entidade que trabalha com a educação de adolescentes de baixa renda. Lélia foi uma das palestrantes.

Radicada em Paris há 50 anos, ela falou com a Revista.ag sobre como é ter estado em alguns dos lugares mais incríveis e inóspitos do planeta. Falou ainda sobre a família, o casamento, sobre o Instituto Terra, os novos projetos e até sobre política.

Veja fotos das viagens de Lélia:

Lélia, como é viajar pelo mundo todo, visitar tantos lugares incríveis?

Realmente, já fomos a lugares maravilhosos. Quando eu podia viajar com o Tião, eu ia. Nem sempre é possível porque tenho muito trabalho. E antes ainda tinha os filhos, que hoje são adultos. Quer dizer, temos um outro filho também que tem Síndrome de Down e vamos tomar conta dele até o fim. Mas temos uma pessoa muito boa que fica com ele quando viajo. Os outros já são grandes. Com o trabalho do Gênesis viajei muito. Primeiro porque eu também queria ver. Segundo porque, como é um trabalho muito sério de ecologia e tudo, eu tinha que estar lá, sentir os cheiros, para poder depois fazer meu trabalho. Sou eu que edito os livros, que faço as exposições. Precisava ter uma maneira de mostrar bem mais autêntica.

Alguma experiência foi mais marcante?

Ah, muitas! A primeira vez em que eu me senti na natureza mesmo foi quando fomos a um parque nacional na África, o Masai Mara. Lembro que o jipe que nos levava parou de repente no meio do parque. Era a única coisa que atrapalhava a natureza ali. E as nossas roupas. Porque o resto era tudo natureza! Você faz uma volta 360 graus em torno de você mesma e só vê natureza. Foi uma coisa muito importante na minha vida, mesmo com o Instituto Terra, que já existia. Mas aquela imensidão, aquela dimensão, eu jamais tinha visto. Foi quando decidimos fazer o Genesis. Para mostrar o que tem de bonito e prístino na natureza. E foram muitos lugares! Galápagos também foi incrível. A gente dormia na natureza, tomava banho nos rios. Experiências inesquecíveis mesmo.

Você também fotografa ou não?

Fotografo também, mas é para mim. Gosto de fotografar a natureza, as plantas, é o que me agrada. E depois faço estudos com elas.

Onde você e o seu marido passam a maior parte do tempo hoje?

Nosso trabalho, nossa vida é em Paris. Estamos lá há quase 50 anos. Lá que está o trabalho, a agência, tudo.

O que vocês fazem nos momentos de lazer?

Falo sempre com o Tião: ‘a gente não sabe fazer outra coisa além de trabalhar’ (risos). Mas gostamos muito de nadar, ir à praia, ao teatro. Gostamos de ler literatura e de cinema. Nem falo o cinema local. Vemos muito filme em casa mesmo. Colocamos uma tela bem grande em casa. Também gosto muito de música! Aliás, estudei música, né? Fiz o Conservatório em São Paulo e até fui professora de piano.

Não toca mais?

Ah, não toco muito não. Só para mim, nas minhas horas de necessidade.

E quando dá, você acompanha o Sebastião Salgado nas viagens...

Não gosto muito dessa palavra ‘acompanhar’. Eu sempre ia para trabalhar mesmo. Mas na época em que ele fez muita guerra, essas coisas, francamente, eu não quis ir. Não me interessava. Não fazia parte da minha vontade participar disso. E tinha meus filhos também.

Te incomoda quando se referem a você como ‘a mulher do Sebastião Salgado’?

Sim, me incomoda profundamente. Eu detesto. Digo sempre que trabalhamos juntos. As ideias dos projetos são nossas. É muita parceria! Sobretudo, somos complementares. O que tenho e sei, ele não tem, nem sabe. E o que ele tem e sabe, eu não tenho e nem sei.

O casamento perfeito, profissionalmente falando...

É verdade. O casamento mesmo tem uns arranca-rabos de vez em quando (risos)... Mas a gente se dá bem, vive bem.

Fale mais sobre o casamento de vocês...

Pois é, fizemos 50 anos de casamento em dezembro do ano passado. Já estávamos juntos havia três anos. Sabe o que é bom para casamento? É um que viaja (risos). Viagem ajuda muito. Claro que para uns atrapalha muito. Muita gente não aguenta, e o casamento acaba por causa disso. Para mim, fez bem. Porque veja que coisa boa ter uma vida mais livre, poder fazer o que quer, sem aquele compromisso o tempo todo com uma pessoa.

Também te incomoda o assédio em cima do seu marido?

Incomoda sim. É meio difícil. Na França, isso acontece mais quando vamos a vernissages. Ele nem gosta de ir. E depois do advento do celular... Esse negócio de selfie é uma coisa horrorosa! Todo mundo quer tirar uma foto. Para quê? Para botar na rede social? Que bobagem.

Vocês têm rede social?

Quase não entramos em rede social, essas coisas. Até fizeram um grupo de WhatsApp na família do Tião, e outro na minha família. Mas é tanta bobagem! Não sei nem quantos ‘bom dia’, ‘boa tarde’. Não tenho tempo nem para ficar limpando aquelas mensagens. Porque tem que limpar, né? A gente vira escravo dessa máquina. Eu não. Eu tenho horas para pegar nessa maquininha! Se tenho e-mails para responder eu respondo. Mas besteira eu não leio.

E vocês comemoraram também agora 20 anos do Instituto Terra. Conseguiram alcançar tudo o que planejaram?

Alcançamos algumas metas, como a da plantação, da evolução da floresta, da educação ambiental. Só que todo dia tem uma meta nova. E agora nossa grande meta é a recuperação das nascentes do Vale do Rio Doce. A gente quer recuperar a água do Rio Doce. Evidente que não vou ver isso, vou morrer antes, mas não tem importância nenhuma. É algo muito lento. Conseguimos recuperar em torno de 500 nascentes por ano. Mas calculamos que haja umas 300 mil para recuperar. O que interessa é a gente começar e conseguir que outras pessoas continuem. Vamos conseguir se encontrarmos as pessoas que aceitem essa ideia, os mais jovens. Isso é trabalho para 30, 40 anos.

Imagino a tristeza de vocês com essa tragédia sobre o Rio Doce…

Foi uma tragédia mesmo. Um desastre profundo. Muito triste ver os peixes todos mortos. E as populações ainda vão viver por muito tempo as consequências daquilo. Podem dar uma nova casa, uma nova terra para aquelas pessoas trabalharem, mas não é mais aquela que eles adoravam, onde viviam. É diferente. Cada vez que você é obrigado a sair do seu lugar, é difícil você se adaptar a outro. Agora o Rio Doce já estava muito morto quando esse desastre aconteceu, o que foi pior do que se ele tivesse mais água. Infelizmente aconteceu. Como aconteceu outro desastre que foi o incêndio no Museu Nacional.

Vocês que moram na Europa, onde a cultura é bem valorizada, como viram esse acontecimento?

A coisa no Brasil está tão difícil que até o museu resolveu dizer isso para todo mundo. Onde já se viu um museu desse, pegando fogo, e os bombeiros chegam e não encontram água para apagar? Que é isso, gente? Eu não sou pessimista. Mas minha visão é que o Brasil vive uma situação muito complicada, politicamente, eticamente… Sei que temos que ter esperança, achar que as coisas vão melhorar, que vão aparecer pessoas novas e com ética para levar esse país para frente. Esse país é maravilhoso com todo esse roubo, com tudo isso! Imagina se não houvesse isso! Esse museu pegou fogo porque não recebeu o dinheiro que tinha que ter recebido.

Acha que alguma coisa vai mudar nessas eleições?

Ah, não sei..

Vocês votam aqui no Brasil?

A gente votou na França, mas é só para presidência do Brasil. Não temos direito de votar para os outros cargos.

Você estava escrevendo um livro. Onde é que está nesse projeto?

Gosto muito de escrever. Muitos anos atrás comecei a escrever alguma coisa. Tem início e fim, só não tem o meio (risos). É uma história de ficção que tem muito de autobiografia. Mas é uma ficção. Quem sabe uma hora dessas eu acabo.

Agora tem esse projeto na Amazônia, com os índios suruwahas. Como vai ser?

Esse último, na Amazônia, não pude ir. Mas fui a muitos outros, como ao Xingu, à tribo Zo’é. Tá difícil porque estou ficando cada dia mais alérgica a mosquito. Então, não dá para ir às tribos. Agora, na Amazônia vai ser um grande projeto. Vamos mostrar uma nova maneira de ver a Amazônia, de viver na Amazônia. Uma maneira econômica para a Amazônia também.

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