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O que fazer para dar mais segurança aos filhos na internet?

O psicólogo Thalles Contão responde a pergunta da leitora, que se preocupa com o reflexo da influência que a internet pode ter sobre seu filho

Crianças x computador
Crianças x computador
Foto: Unsplash

 

PERGUNTA: FLAVIA

"Sou mãe de uma criança. Estou com muito medo do reflexo da influência que a internet vai ter sobre meu filho! Afinal, todas as crianças hoje ficam horas ao celular. O que fazer para que situações como a da boneca Momo não tenham efeito?"

A demonização das nossas emoções, infelizmente, é, talvez, a primeira causa a ser tratada nas pessoas! Como sempre escrevo na coluna, criou-se uma realidade utópica e, por isso, vendável, de que sentir medo, tristeza, dor e etc é uma coisa muito ruim, patológica. Só que é justamente o contrário! Cara leitora, fico muito feliz de que tenha muito medo de uma situação que, de maneira geral, está reduzindo nossas crianças a "deficientes emocionais". Não falo do acesso à internet, mas do que está por de trás dela, que é a terceirização digital do convívio com os filhos, que, traduzindo, é: tenho mais tempo para mim com as crianças mais tempo na internet.

Não vou responsabilizar a internet pela culpa dos pais contemporâneos, porque a influência do agente virtual só tem poder real quando o ambiente familiar é negligente! Criancas que são orientadas pelos pais, e consolidadas pelo exemplo cotidiano dos mesmos, jamais exercitaram coisas que sejam muito diferentes do que encontraram na segurança familiar. Está explícito na sua fala que seu filho passa muitas horas na internet e fica difícil imaginar que em todas as explicações possíveis para tal, remontemos a responsabilidade familiar. Então o seu medo é o indicativo de que as coisas precisam mudar!

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Você tem razão, as crianças atuais passam muito tempo online, e o que constatamos é que estão cada vez mais perdidas por mais presença de momos e menos presença mães. Quando romanceamos nossos filhos e achamos que sua habilidade com o smartphone denota uma genialidade ímpar, esquecemos que eles são seres em formação e que diferente dos animais, precisam realmente aprender culturalmente, no seio familiar, hábitos e comportamentos que buscaram em outro lugar, quando a família, por egoísmo e conforto, negligencia ensino.

Quando pais sentem medo de que a internet influencie seus filhos, já estão operados pela culpa implícita de que deixam os filhos mais tempo do que deveriam na rede. Se não quer que fenômenos virtuais dirijam o comportamento do seu filho de 6 anos, passe mais tempo com ele do que ele passa com o celular. O problema da paternidade e maternidade atual é que filhos são trazidos ao mundo sem o entendimento do que isso significa, tem sido uma escolha tão irresponsável como todas as outras que somos estimulados a fazer. As pessoas não estão lidando com a consequência de que ter filho implica em ajudá-los; é o processo sublime de continuar não somente a espécie, mas a nossa sociedade, e isso requer tempo, sacrifício e esforço, coisas para as quais um tablet ou um telefone parecem ser a saída mais comum.

A boneca, meme, monstro ou qualquer outra coisa pela qual a momo é chamada não é nada mais do que um sintoma da doença geral de todos os que negligenciam os filhos. Todos que ignoram a responsabilidade de educar as crianças, veem nos riscos de internet um bom bode expiatório para não abrir mão do próprio desejo de ter mais tempo livre e seguir negando, por conforto e vergonha, o próprio egoísmo. Estas situações não são novas, desde Adão é melhor culpar outra pessoa pelos próprios erros, até uma serpente ou mesmo uma mulher-galinha!

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