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Sexólogo: "Banalizar sexo é tão perigoso quanto cercá-lo de mística"

Nas escolas, alunos precisam aprender e conversar sobre sexo e aprendê-lo como uma forma de respeito ao corpo e à vida

Educação sexual nas escolas deve ser levada a sério
Educação sexual nas escolas deve ser levada a sério
Foto: muza.com.br

 

PERGUNTA: PROFESSORA DE ESCOLA PÚBLICA, 36 ANOS

"Tenho escutado críticas sobre a educação sexual nas escolas. O que você pensa sobre esse assunto?"

Cara leitora, a educação sexual no Brasil remonta as décadas de 70 e 80. Foi necessário em função do grande número de gravidezes indesejadas em adolescentes, além das doenças sexualmente transmissíveis (DST) – antes mesmo do advento da AIDS.

Ainda estudante de graduação, participava dos primeiros debates, pesquisas e trabalhos da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBRASH), com o grupo de Brasília. Sem conotação política, afinal estávamos em plena ditadura militar, o único foco era a saúde e o bem estar das pessoas. Programas de rádio e televisão proliferaram com a temática, tentando transformar o tabus, preconceitos e repressões sexuais em algo mais natural, pertencente a vida comum de todos nós. Conseguimos, nesse período, muito sucesso. Com o aparecimento da AIDS, a educação sexual tornou-se ainda mais necessária, pois apareceu uma DST que matava, e mata.

Nosso grupo sempre foi contra a Disciplina Curricular por entender que não teríamos professores capacitados para ministrar aulas dessa temática sem o cunho moralista ou religioso. Era necessário uma grande capacitação de todos os professores do Brasil, o que requereria muito dinheiro, o que não era possível.

Fizemos o que pudemos, com cursos, palestras para professores, material adequado para as idades dos alunos e o resultado de tudo isso foi uma maior liberação da informação em jornais, novelas, programas de TV... Hoje com a internet uma infinidade de informações adequadas ou não inundam nossos lares. Outrora os pais tinham um controle maior do que se via, hoje isso não existe mais.

Pais participantes do processo de educação são raros nos dias de hoje. Criticam a escola que tem essa preocupação, mas não fazem nada com seus próprios filhos, nem apontam soluções para a consequência da prática sexual.

Reprimir, trancar os filhos, já não é mais uma solução. Não temos tempo para cuidar, estamos cansados de nossos trabalho e vida, e muitos fazem de conta que o silêncio dos filhos é o sinal de que está tudo bem. As estatísticas mostram um aumento das DSTs que há 25 anos estavam quase erradicadas, como a Sífilis e a Gonorreia.

O programa de prevenção e cuidados com a AIDS diminuiu o número de soropositivos e a morte dos contaminados, e, segundo informes atualizados, a contaminação pelo vírus HIV voltou a crescer assim como as outras doenças.

Não estou falando de partido político, pois tanto a direita como a esquerda tiveram avanços e retrocessos. Mas impedir e dificultar o acesso à informação é um grande risco para a população, principalmente as de baixa renda, com pouco acesso à saúde e à medicação preventiva adequada.

Trabalho como terapeuta de casais e sexualidade e recebo em meu consultório uma infinidade de conflitos oriundos de desinformação, abusos e ignorância no trato com a sexualidade. Mais importante que a informação, que se obtém facilmente no Google, é a emoção que decorre dela.

Precisamos conversar, falar de sentimentos, falar a verdade sobre nossas experiências de vida com nossos filhos. Usar um preservativo, por exemplo, não deve ser ensinado como uma prática isolada e sem graça, mas sim como uma forma de respeito ao corpo, à vida.

Banalizar o sexo como algo sem afeto é tão perigoso como cercá-lo de uma mística inalcançável. “Transar” é muito bom, mas fazê-lo gostando de alguém é muito melhor.

Criticar e impedir a educação sexual nas escolas é um retrocesso perigoso, o adolescente não é um ser partidário. Não podemos querer que a repressão resolva nossos problemas de tempo e amor com nossos filhos e alunos. Não creio ser esse o caminho.

Carlos Boechat Filho é psicólogo e sexólogo

 

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