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Psicóloga: "Nós adoecemos o emocional de mulheres que viram mães"

Na maioria dos casos, o que promove os adoecimentos psíquicos perinatais é principalmente a incompatibilidade do ritmo social imposto às mulheres com o ritmo biológico da gravidez e lactação dos bebês

Bianca Martins: "Depressão pós-parto não é modinha!"
Bianca Martins: "Depressão pós-parto não é modinha!"
Foto: Unsplash

PERGUNTA: ANDRÉ, 40 ANOS 

"Depressão pós-parto existe mesmo ou é modinha?"

O nascimento de um bebê é um trauma (no sentido Freudiano do termo) para todas, absolutamente todas as mulheres. Eu diria que é como no Kintsugi, a técnica milenar oriental de suturar a cerâmica com ouro, proporcionando cicatrizes à peça quebrada. O pós-parto é assim, momento de ressignificar o feminino, construir o materno e estabelecer vínculos com a cria.

Esse processo não é natural, embora seja “naturalizado” pela sociedade. O imperativo desse período é que todas as mulheres terão seus “dias de blues” após o nascimento de seus filhos. Esse remanejo das emoções é muito necessário para a precisa sintonia entre a mãe e o bebê, que mobiliza a imagem materna na mulher. Tempo de conhecer o bebê e se fazer conhecida por ele. É a relação mais fina que pode haver entre dois seres humanos.

Quando essa tristeza inicial não passa, se amplia, faz a mulher duvidar de sua capacidade de ler as necessidades do bebê, tudo isso potencializado pela exaustão desse período, aí pode surgir a depressão pós-parto, e ela não é uma modinha! Essa questão é muitas vezes invisível, subnotificada e, acima de tudo, minimizada pela sociedade, afinal, de acordo com a expectativa cultural, a maternidade é o desabrochar da mulher, e ela está no seu momento mais feliz, como pode se sentir triste? (Essa frase contém ironia).

Independe da cultura, da idade, da renda, da etnia, o que promove o desencadeamento dos adoecimentos psíquicos perinatais é principalmente a incompatibilidade do ritmo social imposto às mulheres com o ritmo biológico da gravidez e lactação dos bebês. Jornadas ampliadas de trabalho, ausência de suporte social à mãe trabalhadora, centralização nos cuidados do bebê exclusivamente nas mulheres, pouca ou inexistente rede de apoio familiar e social, ausência de creches em tempo integral e perto do trabalho da mãe.

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Ou seja, a conta do adoecimento emocional das mães deve ser cobrada do desamparo social e familiar estrutural ao qual muitas mulheres são submetidas nesse momento de suas vidas, e muito menos do indivíduo, numa sociedade que tem como determinante “quem pariu Mateus que o embale”.

Uma mãe adoecida terá menos condições de acolher as necessidades de seu bebê. Somos todos responsáveis pelas crianças em nossa sociedade, está na lei. Então somos todos também responsáveis pela promoção de bem-estar das famílias que nos cercam.

De fato, uma família com um bebezinho é uma família que está desempenhando o trabalho mais intenso do mundo, e também o mais importante. Afinal, se permitir ser capturado por um pequeno ser humano não é tarefa fácil, mas ela é indelével, e do cuidado de uma mãe, de um pai e seu bebê que dependem os rumos que nossa sociedade vai tomar. Portanto, estamos produzindo adoecimentos emocionais nas mulheres que estão se tornando mães, estamos permitindo que mães colapsem na porta de entrada em suas experiências maternantes. E qual a fatia de responsabilidade cabe a todos nós? Estamos preparados para as consequências de nossa negligência com nossas mães-bebês? É urgente que apoiemos as mães em seus puerpérios.

 

 

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