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"Solteira ou casada, o machismo pune e cobra mais da mulher", diz sexólogo

A vida sexual das mulheres que assumem as várias jornadas de atividades são bem dificultadas. Não há como ter desejo e prazer cansadas, desestimuladas, atribuladas e com as cobranças do trabalho e da vida social

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Foto: Unsplash

Semana passada, no Dia das Mães, estive reunido com um grupo heterogêneo de mulheres, da família e amigas. De repente surgiu o assunto do quanto ser mãe é difícil no exercício da sexualidade. Não tem jeito, não sou uma pessoa comum, por estar naquele ambiente, como sexólogo e terapeuta de casais, as mulheres “soltaram a franga”. Tentei mudar o rumo da conversa, mas não teve jeito, falaram o que quiseram, via de regra sobre os maridos, que ficaram em silêncio. Compartilharei com vocês alguns aspectos do debate em família. Espero que elas não me crucifiquem ao lerem esse artigo.

As jovens solteiras e algumas jovens mães solteiras compartilharam algo assim:

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As que não têm filhos, mas tem vida sexual ativa, disseram que têm medos e tensões ao fazer sexo para não engravidar... Usam remédios, algumas vezes preservativos (o que é um risco), mas, mesmo assim, guardam um receio, pois sabem que o parceiro eventual e alguns namorados não assumiriam a tarefa de cuidar da futura criança. São conscientes da problemática, cuidam disso, mas dizem que às vezes não sentem orgasmos por recear a concepção. Curioso para mim é o cuidado com uma possível gravidez, mas pouco cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). No imaginário delas, as doenças são tratáveis ou contidas, mas a gravidez é para sempre e iria atrapalhar a vida acadêmica, social e profissional. Curioso perceber como apesar de toda a informação existente, a preocupação ainda é com a gravidez e não com as doenças – e como prazer é primordial que suplanta os riscos do encontro.

As mães solteiras relatam a dificuldade em viver a vida, pois necessitam do apoio da família, dos pais ficarem com a criança para se divertirem, sair com namorados ou amigos. Elas dizem que percebem que os pais a “castigam” com a responsabilidade em cuidar da criança, já que elas teriam “errado em engravidar”. Usam a clausura como “punição”, com medo de que elas engravidem de novo.

Entendo o que elas dizem, mas a estatística mostra que a maior parte das mulheres que engravidam e ficam solteiras tendem a engravidar uma segunda vez. Difícil para os pais do ponto de vista moral e social ter uma filha grávida solteira, diferente de um filho que engravida uma mulher. Parece que o machismo e o conservadorismo punem e cobram mais da mulher. Algumas mães relataram que apoiariam a filha se isso acontecesse, mas que elas teriam que ter a responsabilidade em cuidar da cria. Duvido, pois enquanto solteiras e não grávidas têm pouca responsabilidade no cotidiano da vida. Dar atividades e responsabilidades no dia a dia constroem a realidade do que é gerar e cuidar de uma criança e do próprio corpo.

Já as mulheres casadas disseram o quanto é difícil cuidar do trabalho externo, da casa e das crianças e no final do dia ter que ser esposa e mulher. Perguntei por que seus maridos não as ajudam? Responderam que eles não querem. Nesse momento eles responderam que elas não deixam ou exigem que sejam do jeito delas. Pois é! Essa é uma realidade. Se você mulher quer que seu parceiro contribua e, assim, diminua seu cansaço, precisa abdicar do poder da casa e da cria e deixá-lo fazer do jeito dele. De outra forma ele não o fará.

A vida sexual das mulheres que assumem as várias jornadas de atividades são bem dificultadas. Não há como ter desejo e prazer cansadas, desestimuladas, atribuladas e com as cobranças do trabalho e da vida social. Principalmente do Instagram e do Facebook. Inclusive nesse debate, com comida e cerveja e filhos em volta, muitas delas ficaram olhando e clicando no celular. Algumas trazendo informações do Google e de amigas que estavam participando da conversa on-line.

Percebi o quanto é difícil ser... Percebi o quanto as mulheres se cobram estarem lindas, adequadas, conectadas às mídias, deixando seu desejo para depois, e , claro, seus parceiros. Acho que a responsabilidade também é deles, que não exigem a atenção, não dividem as tarefas, não cobram as demandas deles e da família, e não são ativos como parceiros.

Preferem não criar confusão, não terem DRs, e assim deixam a vida sexual a dois ficar monótona e sem atrativos. Sei que a solução não é fácil, mas a infelicidade sexual e conjugal com certeza é um pouco mais difícil.

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