Notícia

Crônica: "Nos atrevamos", de Maria Sanz

"De repente, o som desperta: é o barulho da série entrando"

"Fazer a verdade" confira a crônica de Maria Sanz
"Fazer a verdade" confira a crônica de Maria Sanz
Foto: Unsplash/@dinpanag

Então, pra dar sentido à vida terráquea, a gente pega a prancha e adentra o oceano. Rema forte, atravessa a arrebentação e se posiciona lá fora, no salão do mar, para esperar a melhor onda.

Às vezes ela demora. E deixa a gente imaginando coisas que atravessam a mente com formas interessantes, feito nuvem-dinossauro-elefante. Balançando na água, sentados na prancha, imaginamos: ideias, planos e visões (inclusive perturbadoras, dessas que fixam os olhos no horizonte).

De repente, o som desperta: é o barulho da série entrando.

O horizonte se aproxima em forma de linha. Subindo, tomando forma, ganhando corpo e envergadura. E na medida em que se apresenta, aumenta o frio na barriga – chama medo mesmo.

Remar o bastante para se soltar na onda é uma escolha – na verdade, uma emoção, uma intuição e uma ação. Mas como não existe tempo pra pensar em nada – nem mesmo que depois da primeira, outras virão, então sentir/intuir é a grande questão.

Leia também

(Nisso, o coração já tá disparado e o corpo querendo saber: e aí, vai ou não?)

Pausa filosófica: ações do presente constroem o amanhã. E cada oportunidade que deixamos passar é também um pedaço de futuro que deixa de existir. Certo?

(Tá! Tá bom. Mas vai dropar ou não vai? Ó, depois que for, não dá pra puxar o bico da prancha, porque o capote é certo).

Pensando bem, talvez não sejam as coisas que fazemos ou não fazemos, mas aquelas que acontecem em nós. Isso pode ser libertador. Repare: e se em vez de lutarmos contra nossas famigeradas “crenças limitantes”, decidíssemos ser maior que elas? Ou se parássemos de duvidar? E se a gente não tivesse medo?

Perdemos muita energia nos defendendo de nós mesmos, lutando contra o nosso passado, explicando ou justificando “quem somos”. E assim, valorizando e fundamentando nossas emoções negativas (e improdutivas), nos vangloriamos delas, sem nos darmos conta.

Temos a tendência de considerar nobre, por exemplo, nossa falta de confiança. E isso é um grande engano.

Descer a onda significa fechar as portas para o passado, fechar as portas para o medo paralisante, fechar as portas para a insegurança. Descer a onda significa olhar pra frente, dar um passo, dar a chance, dançar a dança ou, simplesmente, abrir a porta e dialogar com o futuro que se almeja (tanto).

Às vezes fico pensando que a vida da nossa vida é como aquela pergunta que quer saber:

“Isso é arte?”

(Sendo a melhor resposta possível aquela que garante: “não, arte é que é isso”.)

Nota: talvez eu siga assim, pintando o alvo entorno da seta depois que ela cai. E tudo bem. Importante é que ela seja disparada.

Mas, voltando à onda que chegou – e só chegou porque esperávamos por ela – com medo mesmo, olhando pra frente, é hora do drop. Estejamos inteiros, confiantes e responsáveis por nós mesmos (ainda que sem saber direito o que estamos fazendo).

É hora do surfe! Descer reto ou manobrar, agora tanto faz. Importante é protagonizar o roteiro que escrevemos desde cedo. E assumi-lo é exatamente não deixar que a natureza antagonista da mente nos roube a vida a troco do medo.

Nos atrevamos a surfar a onda que (tanto) procuramos.

Ver comentários