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Sassicaia: degustação vertical reuniu as 47 safras desse ícone italiano

A degustação reuniu safras já produzidas entre 1968 e 2016. Algo semelhante só havia ocorrido recentemente em Roma, por ocasião do aniversário do guia de vinhos e gastronomia italiano Gambero Rosso

As garrafas da  degustação quase inimaginável: todas as safras já produzidas do supertoscano, entre 1968 e 2016, a última lançada no mercado
As garrafas da degustação quase inimaginável: todas as safras já produzidas do supertoscano, entre 1968 e 2016, a última lançada no mercado
Foto: Luiz Cola

Imagine a experiência fantástica que é poder degustar várias safras de um mesmo vinho, uma modalidade conhecida entre enófilos como degustação “vertical”. Imagine agora que o vinho provado é um grande clássico italiano, no caso, o Sassicaia. Imagine então que essa degustação reúne todas as safras já produzidas entre 1968 e 2016, a última lançada no mercado!

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Pois essa quase inimaginável degustação aconteceu há cerca de um mês aqui mesmo, no Brasil, mais precisamente na biblioteca de um dos hotéis mais icônicos do país: o Belmond Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Algo semelhante só havia ocorrido recentemente em Roma, por ocasião do aniversário do guia de vinhos e gastronomia italiano Gambero Rosso (com “apenas” 44 safras).

Para aqueles que ainda não ouviram falar desse célebre tinto italiano, membro de uma elite de vinhos conhecidos como “Supertoscanos”, apresento um pouco de sua história, antes de falar da grandiosa degustação em si.

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As garrafas da  degustação quase inimaginável: todas as safras já produzidas do supertoscano, entre 1968 e 2016, a última lançada no mercado
As garrafas da degustação quase inimaginável: todas as safras já produzidas do supertoscano, entre 1968 e 2016, a última lançada no mercado
Foto: Luiz Cola

O Sassicaia nasceu na Tenuta San Guido, uma propriedade localizada nos arredores de Bolgheri, a apenas 10 quilômetros do Mar da Ligúria. No final da Segunda Guerra Mundial (1944), o Marquês Mario Incisa della Rocchetta plantou as primeiras vinhas de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc em um solo bastante pedregoso, cuja característica acabou servindo de inspiração para o seu nome de “batismo” (sassi, em italiano, significa rochas). Nesse local remoto, bem longe das áreas tradicionais da vitivinicultura toscana – como as denominações de origem Chianti Clássico ou Brunello di Montalcino –, o Sassicaia permaneceu quase incógnito por duas décadas, restrito a ser servido como o “vinho da casa” da família Incisa della Rocchetta.

Somente em 1970, com o lançamento da safra 1968, o Sassicaia finalmente chegou ao alcance do público italiano e estrangeiro, imediatamente dividido por sentimentos de curiosidade, surpresa ou certa indignação.

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A razão dessa recepção conflituosa pelos italianos foi uma decorrência da composição do Sassicaia: um tinto elaborado na Toscana com uvas “estrangeiras” (85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc), uma verdadeira heresia para os tradicionalistas da região. Devido a essa ousadia de ferir as rígidas regras da denominação de origem, o vinho foi classificado como “Vino di Tavola”, a posição mais baixa prevista na legislação do país.

Por outro lado, os estrangeiros logo reconheceram a imensa qualidade da bebida produzida na Tenuta San Guido, voltando seus olhares para a - até então obscura - zona de Bolgheri, onde ela está inserida. Se os desconcertados italianos não tiveram escrúpulos ao rebaixar o Sassicaia, os estrangeiros não tiveram dúvidas em proclamar o nascimento de uma nova categoria de vinhos italianos: os Supertoscanos!

De volta à degustação, a vertical completa com as 47 safras lançadas entre 1968 e 2016 (apenas em 1969 e 1973 ele não foi produzido), aconteceu graças ao empenho do colecionador Flávio Souza, que correu atrás dessas garrafas em várias partes do mundo, em leilões on-line e até mesmo contando com a ajuda de outros colecionadores, inclusive de um capixaba, grande amante de vinhos italianos.

A tarefa hercúlea de degustar 47 vinhos foi sabiamente dividida em dois dias e quatro etapas (dois almoços e dois jantares). Cada uma delas foi comandada por Marcelo Copello, um dos mais influentes e renomados especialistas em vinho do Brasil e um dos privilegiados convidados da citada vertical de 44 safras oferecida pelo Gambero Rosso.

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Tive o prazer de ser convidado para participar de uma das etapas do evento (com 12 safras entre 1994 e 2016) e pude corroborar minhas impressões de provas anteriores: que me perdoem os italianos, mas os estrangeiros estavam certos em exaltar esse vinho com o prefixo “super”. 

Dentre os vinhos degustados, as safras pares mais jovens, ficou claro que na tenra juventude o Sassicaia já pode se apresentar grandioso (ainda que meio tímido), mas é a partir de seus 10/15 anos de guarda que ele começa a brilhar, ganhando mais charme e complexidade à medida que amadurece lentamente. Meus prediletos foram o surpreendente 2002 (uma safra problemática em toda Europa), o 2006 e o jovem 2010, safras que ainda são relativamente fáceis de ser encontradas no mercado (ainda que os preços não sejam muito convidativos).

Se falta ao Sassicaia uma tipicidade para chamar de sua, ele pode se contentar com o simples fato de ser um grande vinho, nascido de vinhas francesas, mas naturalizado como um legítimo italiano!

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