Notícia

Campeonato Mundial de Parapente colore céu de Baixo Guandu

Competição deve movimentar mais de R$ 1 milhão até o próximo dia 30 de março

Quem mora em Baixo Guandu, no Noroeste do Espírito Santo, já está acostumado a ver pela janela o céu, quase sempre, azul. Desde esta terça-feira (19), no entanto, ele tem ganhado outras tons: verde, laranja, amarelo, vermelho e roxo. A combinação até sugere a formação de um arco-íris, mas, coincidentemente, também são as cores mais comuns dos parapentes usados pelos atletas classificados para a Superfinal do Campeonato Mundial, que acontece na cidade até o próximo dia 30 de março.

Ao todo, 142 pilotos de 29 países darão suas contribuições para transformar a paisagem local. Entre eles, há seis brasileiros: Rafael Moraes Barros, Samuel Nascimento, Deonir Spancerski, Rafael Saladini, Jeison Zeferino e Frank Brown - este último, onze vezes campeão brasileiro e recordista mundial de vôo a distância. “Já voei o Brasil inteiro: nordeste, Brasília, Goiás, Rondônia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul… mas o meu lugar favorito é o Espírito Santo. Gosto muito de Baixo Guandu e Castelo”, comenta o capixaba.

A preferência do experiente piloto não é à toa. Considerada a capital estadual do vôo livre pela lei nº 10.838/2018, Baixo Guandu possui algumas características naturais que contribuem para a prática do esporte radical: dias ensolarados e baixa pluviosidade. A Rampa do Monjolo, por sua vez - tida como a melhor do Brasil e uma das dez melhores do mundo - também compõe perfeitamente o cenário. A 840 metros de altura, ela recebe ventos do quadrante norte. Ou seja, ventos de frente para a rampa, essenciais para uma boa decolagem.

 Considerada a capital estadual do vôo livre pela lei nº 10.838/2018, Baixo Guandu possui características naturais que contribuem para a prática do esporte radical.
Considerada a capital estadual do vôo livre pela lei nº 10.838/2018, Baixo Guandu possui características naturais que contribuem para a prática do esporte radical.
Foto: Divulgação

VALENDO

Depois de cinco etapas qualificatórias disputadas durante o ano passado, a Superfinal do Campeonato Mundial de Parapente consiste, basicamente, em uma corrida pelos ares. Voando sobre as montanhas e vales de Baixo Guandu e de cidades vizinhas, os pilotos devem saltar da Rampa do Monjolo, passar por pontos pré-determinados pela Comissão de Prova e pousar em um local específico. Para que seja possível acompanhar o cumprimento da passagem pelas coordenadas geográficas, os atletas têm um GPS acoplado ao equipamento.

Todas as manhãs, durante os 11 dias de competição, uma nova rota será traçada com base nas condições climáticas, como direção e velocidade dos ventos. A quantidade de pilões obrigatórios pode variar de um dia para o outro; e o percurso dificilmente se repete durante a etapa, já que são possíveis centenas de combinações. Quem conseguir completar o trajeto no menor tempo é o vencedor da parcial e quem tiver acumulado mais pontos no último dia consagra-se campeão.

 Todas as manhãs, durante os 11 dias de competição, uma nova rota será traçada com base nas condições climáticas, como direção e velocidade dos ventos.
Todas as manhãs, durante os 11 dias de competição, uma nova rota será traçada com base nas condições climáticas, como direção e velocidade dos ventos.
Foto: Divulgação

ECONOMIA AGRADECE

Como primeira sede capixaba de uma final de campeonato esportivo mundial, Baixo Guandu atrai mais de 300 turistas estrangeiros e espera, apenas de receita direta, R$ 1 milhão de reais. “No final, será muito mais, porque esse valor entra na cidade e se multiplica. Todos os hotéis daqui já estão lotados; em Aimorés (MG), também. Tem gente alugando as próprias casas, com oferta de cama e café. Há também os bares e restaurantes que poderão lucrar com um público estimado entre 500 e 1.000 pessoas durante, praticamente, três semanas”, avalia o prefeito Neto Barros. “Esta competição faz girar as rodas da nossa economia”, resume.

No total, o município investiu cerca de R$ 300 mil para realizar o evento. O valor é a somatória dos gastos com estrutura, publicidade, transporte, alimentação, resgate e premiação. Chefe do poder executivo local, Neto Barros espera que o governo estadual passe a investir na competição. “Já tentei dialogar diversas vezes, mas nunca tive resposta. Esse dinheiro é bastante alto para nós, mas é baixo para o cofre do Estado. Não entendemos o porquê de não ajudarem. Levamos o Espírito Santo para todo o mundo”, diz ele, que é parapentista amador.

Em nota, a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Sesport) afirma reconhecer a importância do Campeonato Mundial de Parapente e, por isso, investiu na competição com apoio logístico, enviando vans e motoristas a Baixo Guandu, conforme solicitado pela Associação Capixaba de Voo Livre (ACVL). Porém, por questões legais, informou não ter sido possível realizar, neste ano, um chamamento público, que seria a única maneira de se destinar recursos para entidades, conforme a Lei 13.019/2014.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

A primeira competição de parapente sediada por Baixo Guandu aconteceu em 2001, ano em que recebeu uma etapa do campeonato estadual. De lá para cá, a cidade vem se firmando cada vez mais no ramo e já incluiu, só nos últimos anos, outros cinco eventos. Prova disso é a votação quase unânime dos pilotos para que o município sedie o Campeonato PanAmericano, em 2020: foram 24 votos a favor e apenas um contra. “Quem votou são pessoas da Federação Internacional, que não conhecem aqui, mas que sabem do histórico positivo”, explica Marcos Aurélio Pinheiro, membro da Associação Capixaba de Vôo Livre (ACVL).

A primeira competição de parapente sediada por Baixo Guandu aconteceu em 2001, ano em que recebeu uma etapa do campeonato estadual
A primeira competição de parapente sediada por Baixo Guandu aconteceu em 2001, ano em que recebeu uma etapa do campeonato estadual
Foto: Divulgação

RECADO DADO

Em meio a dezenas de línguas estrangeiras, os guanduenses disseram, em claro português, “não” ao estereótipo de que, para produzir riqueza, através do turismo no Espírito Santo, seja necessário ou ter praia ou clima europeu de montanha. Às vezes, basta ter um céu aberto a receber a diversidade, seja ela idiomática, étnica ou de cores de parapente.

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