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1986: o ano em que Rio Branco lotou o Kleber Andrade e bateu recorde de público

Maior público da história do futebol capixaba foi registrado em partida de Rio Branco X Vasco. Torcida precisou se espremer em barranco

Arte Capixapédia

Gramado simples e uma arquibancada que só acomodava 3 mil pessoas, o restante precisou sentar no barranco. O Kleber Andrade de 1986 em nada lembrava o atual estádio, com gramado padrão Fifa e cadeiras coloridas. Mas foi lá, em uma partida entre Rio Branco e Vasco pelo Campeonato Brasileiro Série A, que o futebol capixaba recebeu o maior público de sua história: 40 mil torcedores.

 

Depois de anos jogando no antigo estádio Governador Bley, o Rio Branco tinha a sua casa. O estádio foi inaugurado três anos antes, mas em 86 as obras ainda não tinham sido concluídas. O planejamento inicial previa capacidade para 110 mil torcedores, mas depois de muitas mudanças, a capacidade foi reduzida quase pela metade. Ainda que o Kleber Andrade estivesse inacabado e não oferecesse conforto algum para os torcedores, quem esteve no estádio naquela tarde de domingo, 21 de setembro de 1986, não esquece do que viu.

 

"Lembro que fui bem cedo para o estádio com um grupo de amigos. A gente chegou faltando umas duas horas pro jogo, entramos e ficamos entre o finalzinho da arquibancada e o começo do barranco. O tempo passava e só ia enchendo de gente, e chegou um ponto em que eu me perguntei onde aquele povo todo iria ficar. Faltava banheiro, água, não tinha nada. Mas a gente tinha muito orgulho do estádio, mesmo ele não estando concluído. O formato circular, a arquibancada, o fosso, parecia muito com grandes estádios como o Morumbi e o Maracanã. Mas era campo, a gente encontrava barro, poeira, ficava no barranco espremido pra ver o jogo. Ele misturava um pouco a modernidade com aquela coisa de estádio de interior", lembra Fabiano Mazzini, torcedor do Rio Branco, na época com 21 anos.

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Em casa, o Rio Branco fez valer o seu mando de campo e não se intimidou diante de um Vasco que tinha Roberto Dinamite, Romário, Geovani e outros grandes nomes no elenco. O único gol do jogo saiu aos 29 minutos do segundo tempo, quando Mazolinha recebeu a bola de Edson e de primeira cruzou para Márcio Fernandes, na esquerda, dominar e marcar: Rio Branco 1 X 0 Vasco.

Superioridade Capa Preta e Vasco em crise

O time Capa Preta era comandado pelo técnico Paulinho de Almeida e boa parte da equipe veio do interior de São Paulo, emprestados pela Ferroviária de Araraquara e pelo São Bento. Os capixabas no elenco eram apenas seis: China, Vicente, Rubinho, Piquê, Careca e Paulinho Vieira. Entre luvas e salários, o investimento do Rio Branco foi de pelo menos Cz$ 500 mil (cruzados).

 

O meia Cardim, um dos que vieram emprestado da Ferroviária, lembra com saudade daquele time: "Era um time de amigos. O Paulinho de Almeida montou uma equipe bem entrosada, porque muitos já jogavam juntos na Ferroviária e os capixabas deram força ao elenco. Tínhamos um time forte, e um ataque veloz com Mazolinha. A defesa nos dava muita tranquilidade também. Foi um time inesquecível. A gente não temia ninguém".

Rio Branco e Vasco se enfrentaram na sétima rodada do Campeonato Brasileiro, e vinham de situações muito diferentes na competição. O time capixaba havia goleado o Piauí na rodada anterior (4 a 0) e tinha apenas uma derrota e dois empates até então. Já o clube carioca, ainda não havia ganhado uma partida sequer e somava apenas dois pontos, frutos de dois empates. O Vasco era lanterna do grupo C.

"Apesar da fase ruim, o Vasco era um time grande e agente sabia que eles não iam querer perder mais uma. Mas nossa equipe era experiente, a gente não se assustava com isso. Lembro que no vestiário, o Paulinho de Almeida perguntou se a gente acreditava ser capaz de vencer o Vasco. E a gente disse que sairia de campo com vitória. O que nos surpreendeu foi a torcida capixaba. Eu fiquei entusiasmado com o público presente. O pessoal no barranco, tudo grudado, um em cima do outro. Mostrava a cumplicidade com um grupo que queria crescer. Isso me marcou muito e me dá bastante saudade", conta Cardim.

 

O capixaba Geovani era um dos jogadores que integravam o elenco do Vasco. A crise no cruzmaltino era tanta, que ele e Romário chegaram a brigar com o técnico Cláudio Garcia antes da partida. Por conta disso, os dois jogadores ficaram no banco e Geovani só entrou no segundo tempo, quando o Vasco já perdia a partida e jogava com um a menos, após a expulsão de Roberto Dinamite.

 

O ex-meia diz, que apesar do Vasco ter um time com grandes jogadores, o Rio Branco era muito superior na partida. "Eu e o Romário tínhamos brigado com o técnico, porque ele chegou mudando o time todo, deixou a gente de fora e nós ficamos irritados com isso. Eu era o único no Vasco que já tinha sido convocado pra Seleção e tava fora do time titular. Fizemos um péssimo campeonato. O Rio Branco naquela época jogava com time muito fechado, usava bem o contra-ataque, envolveu o nosso time, surpreendeu a gente e conseguiu vencer. Na época, a gente percebia que o time do Rio Branco estava bem montado", afirma.

Escalação de Rio Branco 1 X 0 Vasco, pelo Brasileirod e 1986
Escalação de Rio Branco 1 X 0 Vasco, pelo Brasileirod e 1986
Foto: Reprodução/Internet

Trânsito e briga na arquibancada

Ir e voltar do Kleber Andrade foi tarefa difícil. Em 1986, a BR 262 ainda não era duplicada e por conta da enorme fila de carros que se formou no caminho para o estádio, muita gente fez parte do trajeto a pé, numa verdadeira romaria que ia da Segunda Ponte até o local do jogo.

 

"Na época não tinha Transcol ainda, ou o sistema tava começando. Os ônibus convergiam todos para o centro de vitória, e foi uma loucura. Era muita gente, ônibus lotados e muito engarrafamento. No fim do jogo, na volta, lembro que se formou uma fila imensa de carros e a gente teve que andar um bom pedaço para só depois pegar um ônibus, que estava completamente lotado", conta Fabiano Mazzini.

Ao contrário do que acontece hoje, naquela época as torcidas podiam entrar no estádio com enormes bandeiras, sustentadas por varas de bambu. E no meio da multidão, as varas de bambu viraram armas nas mãos da torcida organizada do Vasco. Houve pânico e corre-corre, e a polícia demorou para conter a confusão.

 

"Fiquei feliz de ver o estádio cheio. Mas a estrutura era mínima, quase nenhuma para ter um jogo. Daquela época pra hoje mudou muito. Foi aquela dificuldade pra chegar ao estádio, teve confusão na arquibancada, o desconforto de ficar no barranco, e mesmo assim o público compareceu", recorda Geovani.

 

A imprensa da época registrou um público pagante de 32.308 torcedores, mas os jornais dão conta de que houve quem entrasse sem pagar e havia pelo menos 40 mil pessoas no Kleber Andrade naquele domingo. A renda foi de Cz$ 788.450,00 (cruzados).

 

"Foi uma grande festa, com grande público e uma característica especial de superação. Quando a gente viu o estádio cheio e o resultado do jogo, me pareceu que no futebol os resultados são possíveis, independente do adversário. Era o futebol capixaba de igual para igual com os time grandes", diz Mazzini.

O Rio Branco venceria o Vasco de novo naquele Brasileirão (2 a 1), desta vez em São Januário, e empataria em 1 a 1 em um terceiro duelo entre os times.

O Capa Preta fez ótima campanha, e terminou na 20° colocação, entre 44 times. O regulamento estabelecia que os 24 melhores colocados disputariam a Série A em 87, o que rebaixaria o Botafogo (31°). O time capixaba estaria garantido na elite do futebol nacional, mas as regras do jogo mudaram. Em crise, a CBF abriu mão de organizar o campeonato do ano seguinte e os grandes clubes criaram então o Clube dos 13. Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Santos, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Internacional, Grêmio, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Bahia representavam 95% dos torcedores do país e criaram um campeonato nos seus moldes, deixando o Rio Branco fora da série A no ano seguinte.

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