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É verdade que a Ilha do Príncipe já pertenceu à realeza?

O pequeno monte de terra, à época ainda cercado de água por todos os lados, foi batizado de Ilha do Príncipe, em homenagem a seu ilustre proprietário

A história que corria pela Capital da província do Espírito Santo até meados dos anos 20 era de que um membro da família real brasileira era dono de um pedaço do chão de Vitória. Não qualquer pedaço, mas de uma ilha inteira. Também não era qualquer membro da realeza, era o príncipe D. Pedro II.

O pequeno monte de terra, à época ainda cercado de água por todos os lados, foi batizado de Ilha do Príncipe, em homenagem a seu ilustre proprietário.

Ilha do Príncipe

Mas a verdade é que a história do bairro e de seus moradores passa longe do glamour e do luxo da realeza. Desde o início de sua ocupação, a Ilha do Príncipe foi sinônimo de pobreza e luta.

A urbanização da ilha nunca foi devidamente planejada. O primeiro registro de uso do local está em um documento de 1854, onde o então Presidente da província do Espírito Santo solicitou ao Governo Geral o uso do local para a construção de um cemitério municipal e de uma ponte, que ligaria a ilha ao continente.

O cemitério jamais foi construído, mas foi a construção da ponte Florentino Avidos que deu início à "colonização" da ilha. Após o final das obras, os cerca de 2 mil operários que vieram para Vitória para trabalhar na construção ficaram sem emprego e sem ter para onde ir. Foram eles que construíram os primeiros barracos de sapé e estuque no local.

Sabendo do boato de que a terra pertenceria à um príncipe, os primeiros moradores a se instalarem na ilha, por volta de 1920, chegaram a procurar os descendentes da família real em Petrópolis, no Rio de Janeiro, para pedir documentos que comprovassem a posse. A informação, no entanto, nunca pode ser comprovada.

Em seguida vieram outras ondas de invasão: imigrantes do Norte e Nordeste do país e alguns que vinham do interior do Estado.

Ilha do Príncipe
Ilha do Príncipe
Foto: Reprodução

O crescimento desordenado das moradias na ilha muito desagradava o interventor do Estado, nomeado por Getúlio Vargas, Capitão João Punaro Bley. Encarregado de governar o Espírito Santo após o exílio do regente anterior, Bley travou uma guerra contra os barracos da Ilha do Príncipe e decidiu que transformaria o local em bairro de luxo.

Os métodos do capitão eram um tanto quanto duvidosos e os confrontos entre os fiscais do governo e os moradores eram constantes. Em 1938, em mais uma tentativa de acabar com as moradias irregulares da ilha, os fiscais provocaram um incêndio, em 1936, onde poucos barracos restaram.

Por alguns anos, devido à existência de becos e o aglomerado de barracos, os marginais fizeram fama na ilha e o meretrício se espalhou pela Avenida Alexandre Buaiz.

A mais famosa personalidade desta atividade era uma cafetina negra conhecida como Maria Tomba-Homem. Maria não era mulher disponível aos homens frequentadoras do seu bordel, que ficava na Ilha do Príncipe, com boa disponibilidade de negras e mulatas. Era a própria garantia contra badernas e arruaças, que ocorriam, nesse tempo, com relativa freqüência, nas casas de tolerância, como a sua. Ela pegava os arruaceiros e tombava com eles no chão do seu salão, daí a razão do Tomba Homem do seu nome.

Ilha do Príncipe

A zona foi transferida do local por volta dos anos 40 e, após diversos aterros, de ilha o bairro hoje só tem o nome.

O saneamento básico só chegou nos anos 80, com o último dos aterros, que deu origem à rodoviária de Vitória. Atualmente, a Ilha do Príncipe é um bairro residencial constantemente marcado pela venda e uso de drogas e os moradores nem se lembram mais do boato que fazia da pequena ilha um território da realeza. 

(com colaboração do historiador Willis de Faria)

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