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Explosão de carreta com 28 toneladas de gás mata seis pessoas no ES

Trágico acidente que muitos ainda guardam na memória completa dez anos neste sábado (14)

As chamas permaneceram por pelo menos nove horas após o acidente em Capim Angola
As chamas permaneceram por pelo menos nove horas após o acidente em Capim Angola
Foto: Gildo Loyola | Arquivo

Há exatos dez anos uma tragédia ocorria na BR 101, na localidade de Capim Angola, em Rio Novo do Sul. O acidente envolvendo caminhões de gás, carvão e adubo provocou uma gigantesca e horrenda explosão. Seis pessoas morreram e cinco ficaram feridas, todas com queimaduras pelo corpo. O gás do caminhão-tanque vazou por dois minutos e explodiu, formando uma imensa bola de fogo que "engoliu" veículos que estavam na rodovia e até mesmo um morador que estava na varanda da casa dele, que ficava às margens da BR 101.

Uma carreta, que carregava 28 toneladas de gás de cozinha, seguia no sentido Rio de Janeiro x Vitória, quando perdeu o controle no quilômetro 381 e bateu na lateral de um caminhão carregado de carvão que seguia no sentido contrário. Na sequência, o caminhão-tanque se chocou contra uma D20 e duas motos, e o cilindro formou um "L" no meio da pista. Um caminhão bitrem, carregado de adubo, bateu contra o cilindro de gás e, por conta do impacto, o tanque foi arrancado e a cabine parou cerca de 600 metros à frente. Um Peugeot 206, que iria para o Rio de Janeiro, também bateu atrás do bitrem.

Matéria publicada em A Gazeta. Na edição daquele dia, três mortes foram confirmadas. Dias depois, o número de mortos subiu para seis
Matéria publicada em A Gazeta. Na edição daquele dia, três mortes foram confirmadas. Dias depois, o número de mortos subiu para seis
Foto: Cedoc | A Gazeta

Por causa da batida houve uma fissura no cilindro de gás e um perigoso vazamento começou no local. Uma imensa fumaça branca se formou e o pior aconteceu: uma explosão que devastou tudo em um raio de aproximadamente 250 metros. Todos os veículos foram engolidos pelas chamas, incluindo um caminhão Mercedes-Benz que estava parado próximo ao local, fazendo reparos. Apenas a carreta que levava o gás escapou do incêndio já que, com a batida, o tanque foi arrancado e a cabine acabou ficando distante do cilindro.

Lavouras de café, coco e banana, além de áreas de pastagem, foram perdidas. Residências da localidade de Capim Angola, que ficam às margens da rodovia, também foram atingidas pelo fogo. Uma casa ficou completamente destruída. João Daniel Rohr, de 61 anos, que estava na varanda da residência dele, foi engolido pelas chamas. Ele foi socorrido em estado grave, ficou internado no CTI da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro de Itapemirim, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

Duas pessoas morreram no local do acidente: o motociclista Eliézio Pereira Nunes, 28, e o motorista da carreta bitrem — que transportava o adubo — que não foi identificado. Uma outra pessoa que deu entrada no hospital de Cachoeiro de Itapemirim, e também não havia sido identificada, morreu.

O 2º sargento da Polícia Militar Paulo da Silva Rocha Pereira, 49, ficou ferido com a explosão e foi internado no Hospital Dório Silva, em Laranjeiras, na Serra. Porém, ele também não resistiu aos ferimentos e morreu três dias depois do acidente.

Uma das casas destruídas após explosão
Uma das casas destruídas após explosão
Foto: Bernardo Coutinho

Militar da reserva, Pereira havia ido ao Rio de Janeiro com a esposa para visitar parentes e retornava para Vitória no dia da colisão. Na hora do acidente, Pereira mandou que a esposa corresse. Ela acabou caindo em um buraco e livrou-se das chamas. Ele não teve tempo de escapar do fogo e teve 80% do corpo queimado.

Dez dias depois do acidente, mais uma vítima morreu na Santa Casa de Cachoeiro. Gildete Victória Rohr, 53, que morava em uma das casas atingidas, também não resistiu aos ferimentos e morreu.

As pessoas que ficaram feridas e socorridas foram identificadas como: Jucemery Winsler Santana Gonçalves; Júlio Cesar Lourenço; Darli Gambarini; Wendel Moreira Souza da Silva; e Manoel Ferreira Quimbeler.

INCÊNDIO INTENSO

2.154 botijões

Esse é o número equivalente à quantidade do combustível que era transportado pelo caminhão-tanque envolvido no acidente

As chamas no asfalto permaneceram por pelo menos nove horas após o acidente. O Corpo de Bombeiros precisou de 100 mil litros de água para apagar as chamas. Prefeituras e empresas enviaram carros-pipa até o local para ajudar no trabalho dos militares.

Diante da destruição causada pelo acidente, 20 famílias ficaram desabrigadas. Os moradores tiveram que deixar as casas que fazem parte do vilarejo e que foram atingidas pelas chamas. Na época, todos foram levados para um hotel da região.

Sem acreditar no que via, o lavrador João Luiz Gonçalves lamentava o estado da casa, que tinha sido herança do pai, totalmente destruída. Ele é irmão de Maria de Lurdes Gonçalves – que escapou ilesa – e marido de Jucemery Winsler Santana Gonçalves, 35, que ficou internada em Cachoeiro. A esposa dele ficou bastante queimada nas costas, nas nádegas e nas pernas.

Foto: Bernardo Coutinho

“A casa está totalmente destruída, mas isso, a gente trabalha e reconstrói. Pelo menos todos da minha família se salvaram. Já contei mais de 50 mortes em acidentes nesse trecho da rodovia”, afirmou João Luiz naquela época.

DANOS AMBIENTAIS

Depois de vistoriar a área atingida pelo acidente, o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado (Idaf) estimou que os danos causados pelo incêndio se estenderam por uma área de 15 a 20 hectares de vegetação. Para se ter ideia do tamanho do estrago, um hectare equivale a um campo de futebol. Já o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) informou que nem o curso d’água nem o solo foram contaminados por resíduos.

10 ANOS DEPOIS, SOBREVIVENTE RELEMBRA PERDAS

Foto: Arquivo Pessoal
Não são as minhas cicatrizes que me marcam, mas sim as perdas daquele dia
Sobrevivente Jucemery

Após uma década, o assunto ainda traz a Jucemery Winsler Santana Gonçalves a emoção de ter sobrevivido ao acidente. Na época, ela era cuidadora de dois irmãos que moravam em uma casa às margens da BR 101. Ela teve quase 90% do corpo queimado e passou dois meses internada na Santa Casa de Cachoeiro de Itapemirim. O marido e um irmão ajudaram a socorrê-la. "Lembro com detalhes daquele dia. Algo que não dá pra apagar da lembrança", contou em entrevista à jornalista Beatriz Caliman, correspondente da Rede Gazeta no Sul do Espírito Santo.

Não muito longe do local da tragédia, ele ainda mora em residência às margens da rodovia. Mas a rotina mudou. “Hoje, minha vida é dentro de casa. Não posso pegar sol, chuva. Estou aposentada. Tudo que gostava de fazer hoje não posso. Adorava ir na roça, trabalhar fora. Evito ao máximo sair. Tudo faço na parte da manhã, na sombra”, conta a sobrevivente.

O que mudou também, em sua visão, foi a segurança naquele trecho. "Depois que colocaram radar os acidentes diminuíram muito aqui. Era quase toda semana um acidente com morte. Graças a Deus isso melhorou. Mas em outros locais os acidentes poderiam ser evitados”.

Apesar das limitações, Jucemery encontra forças para ajudar ao próximo. “As cicatrizes são o de menos. Sempre que vejo alguém doente e posso busco ajudar. Recebi ajuda, oração de pessoas que nem conhecia. Hoje em dia, não sei dizer não. Sempre tive o sim, uma palavra amiga, um abraço”.

Desde o acidente, ela marca a data com uma promessa. “Todo o ano, no dia 14 realizo minha promessa - o meu terço. Convido a comunidade, os amigos, em agradecimento à minha vida. Peço por quem já se foi, pelos amigos que fiz. Quando vim do hospital, todos se juntaram e arrecadam dinheiro. Comecei a fisioterapia com a ajuda dos outros. Nunca me esquecerei disso”.

AJUDA ÀS FAMÍLIAS DAS VÍTIMAS

A empresa MVA Transportadora, dona do caminhão que carregava o gás de cozinha, informou que prestou ajuda aos parentes das vítimas. A empresa disse, ainda, que iria garantir todos os direitos dos familiares caso fosse considerada culpada pelo acidente.

A empresa afirmou, na época, que o motorista estava na velocidade permitida, 60 km/h, e que todas as carretas têm a velocidade máxima do veículo controlada em 80 km/h, além de serem monitoradas constantemente pela central da transportadora. No entanto, em agosto do ano passado, a Justiça condenou a empresa a pagar R$ 400 mil a uma família que perdeu duas pessoas no acidente. A defesa das vítimas alegou que o caminhão com gás inflamável estava em velocidade superior à permitida, conforme foi apontado pelo laudo da Polícia Civil e pelo laudo judicial.

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