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A busca pela verdade: do carbono ao smartphone

A imprensa é a vista da nação, dizia Rui Barbosa. "Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe", afirmou o jurista

André Hees
André Hees
Foto: Cedoc

Comecei a trabalhar na Gazeta em fevereiro de 1992, há 26 anos. Na época, usávamos máquina de escrever e papel-carbono: uma cópia da reportagem ficava com os editores, a outra ia para a gráfica. Naquele mesmo ano o jornal começou o processo de informatização da redação, e as inovações seguiram adiante. Em 1996, a empresa lançou o Gazeta Online, hoje o maior portal de notícias do Espírito Santo. Em 2008, eu já era editor executivo, e iniciamos uma primeira fase da integração das redações.

Ao longo de todo esse tempo acompanhei o crescimento da empresa e a mudança radical no mercado de comunicação, com a internet e as redes sociais. Hoje, o número de pessoas que leem A GAZETA no celular é maior do que o no impresso. Curioso notar, contudo, que uma coisa não muda: o espírito do repórter, o brilho nos olhos de quem corre atrás da notícia.

Quem escolhe ser jornalista normalmente o faz por um certo idealismo, um desejo sincero de melhorar o mundo, sem exagero ou romantismo – talvez um pouco de romantismo. Mas o que move o repórter é a indignação, o inconformismo, a busca pelo furo, a vontade de revelar um fato que pode transformar a realidade da comunidade. E transforma! Uma reportagem realmente é capaz de mobilizar o poder público e a sociedade em busca de soluções.

Dizem que o jornalismo faz o primeiro rascunho da história. Fazemos todos os dias o registro dos

Selo de 90 anos da Rede Gazeta
Selo de 90 anos da Rede Gazeta
Foto: Rede Gazeta

 principais acontecimentos da cidade, do país, do mundo. A imprensa é a vista da nação, dizia Rui Barbosa. “Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe”, afirmou o jurista. Thomas Jefferson, um dos pais da pátria dos EUA, dizia que preferia uma imprensa sem governo do que um governo sem imprensa. Ele acreditava que só um povo bem informado poderia escolher bem seus governantes. E o que move essa instituição chamada imprensa é o trabalho diário dos repórteres.

Nos anos 80, a cobertura da imprensa profissional foi fundamental para a redemocratização. Depois de anos de censura, ela pôde cobrir momentos cruciais como a explosão da bomba no Riocentro, em abril de 1981, e o movimento das Diretas Já, em 1984. Na época, o país enfrentava grandes desafios como a transição democrática, uma inflação fora de controle, uma economia estatizada e fechada para o comércio mundial e a realização da Assembleia Nacional Constituinte.

Hoje, passados exatos 30 anos da Constituição de 88, aquele modelo construído nos anos 80 parece esgotado, e temos outros desafios: a explosão da violência nas ruas, o descrédito geral da classe política, o desequilíbrio das contas públicas, uma crise de confiança que espanta investidores e dificulta a retomada do crescimento econômico e mais de 12 milhões de desempregados, além da histórica desigualdade social.

Em outubro, temos eleições gerais. E a imprensa faz o seu trabalho de promover debates e sabatinas com os candidatos, com o chamado fact-checking: repórteres verificam se as declarações de campanha são verdadeiras ou não. A imprensa, assim, cumpre mais uma vez a missão de refletir sobre a agenda pública da nação, retratando suas aflições e ambições, com os repórteres na linha de frente, em busca da verdade, para que o país possa compreender melhor o presente e decidir o futuro. Da máquina de escrever ao smartphone, isto não muda: o compromisso da imprensa com a verdade, a democracia e a liberdade.

André Hees é editor-chefe de Jornalismo Impresso e On-Line

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