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"O objetivo da desinformação é semear confusão", diz pesquisadora

Especialista diz que disseminadores de notícias falsas querem deixar pessoas inseguras sobre em quem confiar

Pesquisadora do Harvard Kennedy School’s Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy, a britânica Claire Wardle é uma das principais referências no mundo quando os assuntos são as notícias falsas, as interferências em eleições e os impactos da confusão informativa na qual a sociedade se meteu com as redes sociais.

É, por algumas razões, contra o uso do termo “fake news”, expressão adorada também por políticos que criticam o jornalismo profissional quando este expõe os equívocos e as incoerências.

Claire Wardle, fundadora e diretora do First Draft
Claire Wardle, fundadora e diretora do First Draft
Foto: Alice Vergueiro/Abraji

Wardle defende que o termo não é o bastante para descrever a complexidade do fenômeno. Prefere “disinformation”, para descrever as informações distribuídas de maneira maliciosa, e “misinformation”, para aquelas compartilhadas, sobretudo, de maneira negligente. Ambas, em inglês, são traduzidas literalmente como “desinformação”, mas a primeira indica algo deliberado, enquanto a segunda tem um sentido de engano.

A especialista alerta que o problema de desinformação é muito maior do que confundir eleitores em favor de um candidato ou contra algum outro. É a confiança nas instituições democráticas que está em jogo.

As informações falsas, em todas as suas gradações, estão a serviço da corrosão de credibilidades de instituições, o que é altamente perigoso em uma sociedade polarizada.

“O principal objetivo de muitas campanhas de desinformação é semear confusão, tornando as pessoas menos seguras sobre em quem confiar”, assevera.

Comprova

Claire Wardle é uma das intelectuais por trás do projeto Comprova, a coalizão com 24 importantes empresas de comunicação do Brasil formada para combater a desinformação na eleições presidencial.

Coordenada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a coalizão reúne veículos como Folha de S. Paulo, Estadão, Veja, SBT, Gazeta do Povo, UOL e AFP. A Rede Gazeta, por meio do Gazeta Online, é uma das parceiras desse projeto. O Facebook Journalism Project e a Google News Initiative, além do Shorenstein Center, atuam como parceiros.

A proposta já funcionou de maneira bem-sucedida nas eleições da Alemanha e da Inglaterra. Nela, jornalistas trabalham coletivamente para monitorar as informações falsas ou enganosas e publicar as versões corretas.

 Normalmente, informações falsas sobre políticos são criadas e consumidas por pessoas com os mesmos pontos de vista. Então, às vezes parece que a desinformação não é tão poderosa. É? Qual o tamanho do problema?

Existem diferentes tipos de desinformação. Frequentemente pensamos que a única razão para criar e disseminar a desinformação é mudar a mente das pessoas. Esse raramente é o caso. Pode ter impactos como suprimir votos, convencer as pessoas de que o sistema de votação não é seguro. Também pode fortalecer as visões existentes das pessoas sobre certos assuntos para elas irem às ruas. O principal objetivo de muitas campanhas de desinformação é semear confusão, tornando as pessoas menos seguras sobre em quem confiar. O declínio da confiança nas instituições, incluindo a mídia, torna as democracias muito mais vulneráveis.

Temos políticos atacando a imprensa, pois a rede social permite que eles falem para seus apoiadores.

Uma consequência imediata dos desmembramentos publicados pela imprensa é que nas caixas de comentários as pessoas acusam a imprensa de mentir. Como o jornalismo deve lidar com isso? O jornalismo está sob ameaça?

O jornalismo está sob ameaça. Vinte anos atrás, as pessoas precisavam confiar em “guardiões” para obter informações. Essa informação era verificada, checada e publicada sob códigos profissionais de ética. Agora as pessoas podem encontrar qualquer informação que quiserem na internet, com uma infinidade de fontes. Como humanos, somos atraídos por informações que reforçam nossas visões existentes. Há muitos aspectos dessa mudança que são poderosos e benéficos para a sociedade, mas também estamos vendo que, em uma era de aumento de polarização, isso pode levar à nossa situação atual, em que as pessoas confiam menos na mídia. Quando as pessoas dizem que algo é falso, muitas vezes é porque aquilo não reforça as opiniões delas. Além disso, temos políticos atacando a imprensa, pois a rede social permite que eles falem diretamente para seus apoiadores. E atacar a imprensa é uma maneira de contornar o papel de “cão de guarda” que ela tem.

Você tem publicado muito a respeito: claramente, por que não devemos usar o termo “fake news”? Tem a ver com a apropriação que os políticos fizeram dele. Mas eles não poderiam simplesmente mudar o termo e passar a acusar a imprensa de promover “desinformação”, por exemplo?

 “Fake news” não ajuda porque não explica a complexidade dos problemas que enfrentamos. Muitas das desinformações mais poderosas têm a forma visual. Não são sites que parecem notícias. Além disso, muito conteúdo problemático não é falso. É genuíno, mas usado fora de contexto. Mas o mais importante é que se apropriaram do termo como arma. Usam para descrever as informações de que não gostam. Como resultado, pesquisas recentes revelaram que, quanto mais a mídia fala sobre notícias falsas, mais o público acha que a mídia convencional não é confiável.

O Brasil está preocupado com a desinformação nas eleições. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Polícia Federal e outras autoridades vêm preparando grupos especializados. Justiça e polícia devem dizer o que é verdade ou não?

Não, principalmente porque é raro que algo seja 100% verdadeiro ou falso. Desinformação bem-sucedida normalmente leva um núcleo de verdade. Mesmo como jornalistas, é difícil entender os exemplos que estamos vendo. É demorado fazer esse trabalho. Mostrar os exemplos de desinformação requer coalizões de jornalistas, acadêmicos e sociedade civil.

Desinformação, em períodos eleitorais ou não, é uma realidade em vários países do mundo. O Brasil tem alguma característica especial?

Essa é uma característica em vários outros países, mas o uso pesado do WhatsApp no Brasil torna isso particularmente desafiador. Nele, é difícil saber o que está circulando e é difícil produzir os devidos debunks (os desmentidos) depois que os boatos já foram disseminados.

 

 

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