Notícia

De desconhecido a ídolo em todo o mundo

Para o aposentado Buru, areia agora é apenas sinônimo de lazer

Vinicius Ribeiro Mariani Fambre. Por esse nome poucas são as pessoas que o conhecem, mas se dissermos Buru o cenário muda completamente. Entra em cena a lenda do futebol de areia, um dos expoentes desse esporte originalmente brasileiro e elevado a outro nível desde que Buru deu os primeiros toques na bola na praia, onde brilhou por quase duas décadas. Aos 39 anos, ele agora aproveita a aposentadoria ao lado de quem ama.

"Continuo sendo o mesmo cara humilde, com os pés firmes no chão. Quem me conhece sabe disso. Não mudei meus hábitos, nada”
"Continuo sendo o mesmo cara humilde, com os pés firmes no chão. Quem me conhece sabe disso. Não mudei meus hábitos, nada”
Foto: divulgação

Meu começo na areia foi meio ao acaso. Tinha voltado do América-MG e esperava uma oportunidade de aparecer um clube. Em 1997, estava desempregado e jogava as finais do Estadual de Futsal, quando o Marcos Soares, Paulo Sérgio e o Índio foram ao Clube Ítalo Brasileiro para assistirem ao primeiro jogo da decisão de futsal.

No final da partida, o Marquinhos (Marcos) veio até a mim e disse que estavam fazendo uma seleção do Espírito Santo e que disputariam o Brasileiro de Beach Soccer, em Guarapari. Eles disseram que eu tinha o perfil, que eu era forte e me fizeram o convite. No primeiro desafio RJ x ES, realizado em dezembro do mesmo ano, na Praia de Camburi, já fiz parte desse time e logo em seguida, em março de 1998, teria o Mercosul, também em Guarapari.

Eu estava treinando forte, o Magal se machucou e acabei tendo minha primeira convocação. E veio a calhar: botaram um capixaba na seleção atrairia o público local e impulsionaria o esporte. Antes mesmo de ser campeão pelo meu Estado, já estava levantando taça pelo Brasil. Fui bem, fiz gol na final e daí comecei a escrever meu nome na areia.

Sempre fui ligado ao esporte. Desde pequeno, jogava futebol, futsal, joguei uma Copa A Gazetinha, em seguida o Álvares Cabral me convidou para jogar no campo e no salão. Paralelo a isso eu surfava. Com 9, 10 anos, já pegava minhas ondinhas em Camburi. Quando não estava com a bola no pé, era com minha prancha para cair na água. Cheguei a andar de skate também, mas depois de um tempo vi que era no futebol que deveria seguir. Cheguei a ir para o Rio com a seleção da Gazetinha, fiquei no Flamengo, de onde segui para a Portuguesa-SP, e depois parei no América-MG.

Coroação na Suíça

Na época fui pego de surpresa com esse convite de ir a Zurique (Suíça). Tinha sido meu primeiro ano na Rússia, era muito difícil. Havia dias que acordava chorando por causa do frio, da dificuldade com a língua, a comida, e de todos os outros sacrifícios. Foi a coroação de tudo que fiz até então. Ninguém treinou o beach soccer como eu treinava.

Eu introduzi a importância da parte física no esporte, meio que profissionalizei a preparação. O Cantona (ex-jogador francês), deu uma entrevista na época e disse que nunca havia visto nenhum jogador de areia como eu. Essa reportagem meio que me levou até a cerimônia da Fifa e sou muito grato.

Tive a chance de conhecer atletas como Messi, Kaká, Cristiano Ronaldo, Pelé. Foi uma experiência incrível. De fato 2007 foi um ano marcante.

Com todo esse sucesso, porém, jamais me vislumbrei com as coisas que o futebol de areia me deu. Continuo sendo o mesmo cara humilde de sempre, com os pés firmes no chão. Quem me conhece sabe disso. Não mudei meus hábitos, amigos, nada. As conquistas individuais me abriu portas e soube não me perder em nenhuma.

O esporte me ensinou a ter disciplina, valorizar as pessoas. Sei o quanto tive que ralar e não colocaria tudo a perder em troca de luxo e ostentação.

Por isso mesmo que parar está sendo tão difícil. A semana da aposentadoria foi a mais dolorosa. mal dormi. A toda hora lembrava de tudo o que fiz. Eu não sabia de que maneira eu agradeceria ao público. Tudo iria acabar. Era minha última vez. O Buru era um personagem, e a história dele estava no último capítulo. Mas valeu a pena ter me sacrificado nesses 18 anos. Não me arrependo de nada. Só da perda do Mundial do Rio para Portugal nos pênaltis. Ali eu fiquei mal, muito mesmo.

Idolatria

Não tenho a dimensão do que represento para o futebol de areia. Talvez daqui a alguns anos, quando a ficha cair de vez, eu consiga ter uma noção disso, do que é ser um ídolo. Se falarem meu nome poucos saberão quem

sou, mas se disserem Buru tudo muda. Isso é meio louco (risos).

Aliás, carrego o apelido de Buru desde a infância, coisa da minha avó. Não me lembro o motivo, mas ela falava assim: 'igualzinho ao Buru, lá vem o Buru'. Ela me disse que Buru era um pássaro.

Essas coisas são gostosas de lembrar, mas vivi intensamente o esporte, muitas vezes abrindo mão da minha família, filho e das coisas que gosto. Agora é hora de dar atenção a eles. Estou terminando o curso de Educação Física, tenho um emprego em Castelo e levo uma vida normal. Nem adianta me convidar para jogar (risos). Quero dar um tempo. O Buru agora é história. É a vez do Vinicius.

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