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Há 47 anos, dois países entraram em guerra por causa do futebol

Em 1969, Honduras e El Salvador entraram em conflito durante a disputa das eliminatórias da Copa de 1970. Seis mil morreram

É comum, no mundo do futebol, tratar uma partida de muita rivalidade com o sinônimo de "guerra" . Mas houve um dia na história em que o futebol foi o estopim de uma conflito armado de verdade, envolvendo dois países vizinhos da América Central: Honduras e El Salvador. O fato aconteceu em 1969, quando as seleções disputavam uma vaga na Copa do Mundo de 1970, no México.

O primeiro jogo foi realizado no dia 8 de junho, na capital hondurenha, Tegucigalpa. A seleção salvadorenha chegou um dia antes para pernoitar num hotel da capital, mas os atletas passaram a noite sem dormir, pois os torcedores gritavam, buzinavam em frente ao hotel e atiravam pedras nas janelas dos quartos em que o time de El Salvador estava hospedado. Eles também batiam tambores e soltavam rojões.

No dia da partida, os salvadorenhos estavam exaustos e, nesse clima pouco amistoso, perderam a partida por 1 a 0. O gol foi marcado no minuto final pelo atacante hondurenho Roberto Cardona.

Quando isso aconteceu, a salvadorenha Amelia Bolanios, 18 anos, que assistia à partida pela TV, em San Salvador, se matou com o revólver do pai. O suicídio da torcedora foi noticiado nos jornais e comoveu o país. O enterro foi transmitido ao vivo pela TV e acompanhado pelo presidente da República, seus ministros e também pelos 11 jogadores, que já haviam retornado ao país.

No dia 15 de junho foi a vez de El Salvador receber a seleção hondurenha para o segundo jogo, que aconteceu na capital. Os torcedores salvadorenhos deram o troco: à noite, estilhaçaram as janelas do hotel que abrigava os atletas, atiraram ratos mortos e ovos podres.

Em 1969, El Salvador e Honduras entraram em conflito que ficou conhecido como Guerra do Futebol
Em 1969, El Salvador e Honduras entraram em conflito que ficou conhecido como Guerra do Futebol
Foto: Reprodução

No dia seguinte, o time rival teve que ser escoltado pelo Exército até o estádio. Antes da partida, os torcedores vaiaram a execução do Hino Nacional de Honduras e hastearam um pano de chão no lugar da bandeira oficial do país.

Como resultado, El Salvador ganhou por 3 a 0. Na saída do estádio, os jogadores foram escoltados até o aeroporto, enquanto a torcida hondurenha era massacrada pelos torcedores de El Salvador. Duas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.

Horas depois do jogo, a fronteira foi fechada. Na manhã de 14 de julho, El Salvador começou a bombardear a capital hondurenha. El Salvador era militarmente superior ao oponente, com 20 mil soldados no Exército e mil na Força Aérea, contra 12 mil soldados do exército hondurenho e 1.200 na Força Aérea. Apesar disso, a guerra inflamou o patriotismo dos hondurenhos, que se armaram até com facões para defender as vilas dos ataques inimigos.

Depois de 100 horas de conflitos, na noite de 18 de julho, a guerra terminou sem vencedores, assim como a disputa por terras. Uma parte dos camponeses voltou a El Salvador, enquanto outra permaneceu no país vizinho. Levou mais de uma década para os países finalmente assinarem um tratado de paz, em 30 de outubro de 1980.

Uma terceira partida entre as seleções foi realizada em território neutro, no México, dia 27 de junho, com a vitória de El Salvador por 3 a 2. No estádio, as duas torcidas ficaram isoladas por um "muro" de policiais mexicanos.

O conflito ficou conhecido como Guerra do Futebol, ou Guerra das 100 horas, pois foi esse o tempo que o conflito durou, de 14 a 18 de julho, terminando com a morte de aproximadamente seis mil pessoas e dezenas de milhares de feridos. Vilas inteiras foram destruídas e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. A guerra só terminou com a intervenção da OEA (Organização dos Estados Americanos) e a criação, em 1971, de uma zona desmilitarizada.

Rivalidade histórica

As fatídicas partidas de futebol foram o estopim para a guerra, mas o clima entre Honduras e El Salvador já não era dos melhores. Na década de 60, a população em El Salvador aumentou consideravelmente, enquanto que as terras disponíveis para o trabalho eram cada vez mais escassas. Houve então um processo de fuga em massa de salvadorenhos para Honduras, onde se instalaram e começaram a trabalhar principalmente nas plantações de banana.

Em 1962, uma lei agrária em Honduras estabelecia que somente naturais do país poderiam usufruir de terras estatais. Quem não pudesse comprovar essa nacionalidade seria expulso do país. Em outubro de 63, um golpe de Estado derrubou o presidente Villeda Morales. Instalou-se uma ditadura militar com o coronel Osvaldo López Arellano no comando.

A crise econômica e a corrupção aumentaram e os salvadorenhos foram escolhidos como bode expiatório. Foram intensificados os processos de expulsão dos vizinhos estrangeiros na base da violência, incluindo assassinatos. À frente dessa repressão, a Mancha Brava (braço armado do governo), a polícia secreta e o Exército.

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