Notícia

Momento maior, o gol é uma explosão de emoção para o atleta

Coração acelerado, pupilas dilatadas, pressão nas alturas. Em poucos instantes, jogador vive carrossel de emoções ao fazer um gol

Há quem ache que é apenas uma bola cruzando uma linha e se encontrando com a rede, mas o fato é que ele é o grande protagonista do futebol. O gol é o ápice de um esporte que se tornou muito mais que apenas entretenimento.

É algo que melhor se explica quando atrelado à paixão. Presenciar um gol é tudo que a torcida mais quer quando vê o time do coração em cena. Mas, e para quem é o autor "da criança", o que é esse momento máximo do futebol?

Neymar comemora gol na semifinal dos Jogos Olímpicos do Rio, contra Honduras
Neymar comemora gol na semifinal dos Jogos Olímpicos do Rio, contra Honduras
Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Já dizia o folclórico Dadá Maravilha: "Não existe gol feio, feio é não fazer o gol". E quando esse gol, belo ou nem tanto, decide um campeonato, é responsável por um título... O que se passa na cabeça e no corpo do jogador nessa hora? A medicina explica que os batimentos cardíacos e a pressão aumentam, bem como a dilatação das pupilas e dos brônquios. A euforia se traduz em comemoração.

“Nesse momento, a adrenalina, que prepara as pernas para correr, o indivíduo para lutar, para fugir, enfim, para enfrentar situações que geram estresse, é liberada. O coração acelera. Essas substâncias atuam no sistema elétrico produzindo maior frequência. E quando a frequência cardíaca aumenta, a pressão arterial aumenta também”, explica o cirurgião cardiovascular, Melchior Luiz Lima.

Infográfico sobre o que acontece com o jogador na hora do gol
Infográfico sobre o que acontece com o jogador na hora do gol
Foto: Marcelo Franco

O cardiologista Fabrício Bortolon relata como o hormônio produzido na suprarrenal aparece para garantir toda esta explosão de felicidade no atleta.

“No gol a adrenalina vem de forma prazerosa. Aumenta a frequência cardíaca, aumenta a força de contração do coração. Há um aumento na dilatação dos brônquios, para entrada de mais oxigênio, e há dilatação nas pupilas. O músculo é beneficiado pela irrigação sanguínea.”

Bebeto fez gols marcantes pelo Brasil e sempre extravasou
Bebeto fez gols marcantes pelo Brasil e sempre extravasou
Foto: Reprodução de Internet

Bortolon reforça que o coração do atleta pode chegar a uma frequência altíssima. Em repouso, os batimentos giram em torno de 50 a 60 por minuto. Já no momento do gol podem ir muito além, embora o atleta, por estar condicionado, tem um “controle” melhor dessa elevação.

“O jogador que não possui nenhum problema do coração, por exemplo, suporta bem essa elevação. Por isso é de suma importância estar sempre fazendo acompanhamento médico. Quando acontece um mal súbito em campo é porque o jogador tem algum tipo de problema e não suportou o esforço.”

Durante um jogo, os batimentos podem ir de 120 a 180 por minuto. O cardiologista Fabrício Bortolon ensina uma fórmula para saber qual é o máximo a que os batimentos podem chegar.

“Existe uma fórmula que indica qual é a frequência máxima de cada pessoa. É muito simples. Pega-se 220 e subtrai da idade da pessoa. Por exemplo, se você tem 30 anos, pegamos 220 menos 30 e sua frequência máxima é 190. É este o cálculo”, garantiu.

Algo que também às vezes é visto em campo são jogadores vomitando no gramado. O argentino Lionel Messi, do Barcelona e o atacante Luan, do Atlético-MG são alguns exemplos de atletas que têm passado por estes momentos durante as partidas.

“Apesar de eles serem atletas, um jogo pode exigir muito do corpo e o vômito pode surgir por causa de uma desidratação ou hipertermia (quando a temperatura corporal aumenta muito). As câimbras são também mecanismos de defesa para o músculo se recompor”, explicou o cirurgião cardiovascular, Melchior Luiz Lima.

Psicológico pesa para o atleta

Se o corpo sofre variadas mudanças por conta da partida de futebol, que chega a seu ápice para o atleta com a concretização do gol, o lado psicológico também tem sua importância. Muitas vezes o gol é o momento da afirmação ou reafirmação daquele atleta. Quando decisivo então, mexe com o ego de cada um.

“Olhando pelo lado do profissionalismo, o gol para o jogador tem uma conotação de valorização do atleta”, explica o psiquiatra Paulo Bonates.

Todo jogador se imagina em um momento decisivo. A pressão em campo é grande
Todo jogador se imagina em um momento decisivo. A pressão em campo é grande
Foto: Reprodução de Internet

Em determinadas situações, o jogador pode se sentir responsável pela alegria dos torcedores. No Brasil esse fardo pode ser ainda mais pesado já que as pessoas são muito apaixonadas pelo futebol.

“O futebol é algo que tem como característica a paixão. O ser humano troca de mulher, de marido, troca de cidade, mas não troca de time. “Para o brasileiro o futebol é uma extensão da própria vida. E essa paixão daqui supera a de qualquer outra nacionalidade. Você vê casas no reboco, pessoas sem comida, mas com uma faixa ou um pôster do time de coração na parede. Isso não falta.”

O psiquiatra faz menção a uma letra de João Bosco, intitulada ‘Gol Anulado’ para se referir a esta paixão. “A letra diz assim: ‘Quando você gritou Mengo, no segundo gol do Zico, tirei sem pensar o cinto e bati até cansar’. Na melodia ele acreditava que a mulher era Vasco, mas o fato de se dizer flamenguista acabou com a relação. E a gente ainda vê mulheres torcendo para times apenas para agradar os parceiros.”

Hidratação é fundamental

Durante os 90 minutos de partida, um atleta corre em média de 9 a 12km e perde de dois a três quilos de líquido corporal. Claro que isso pode mudar de jogador para jogador, mas o fato é que o esforço dentro das quatro linhas faz o indivíduo ir à exaustão, caso fique durante todo o jogo no gramado.

Hidratação é fundamental durante a partida, bem como após o jogo
Hidratação é fundamental durante a partida, bem como após o jogo
Foto: Divulgação

Em média, pode-se gastar cerca de 1500 calorias. Por isso, estar bem alimentado e também saber fazer a recomposição do que foi perdido durante a partida é de suma importância para o bom desempenho futebolístico dos atletas.

“Como o jogador perde bastante líquido durante um jogo de futebol, ele precisa estar sempre se hidratando, mesmo quando está em campo. Após o jogo, o ideal é ingerir água de coco ou alguma bebida eletrolítica (isotônicos). Suplementos à base de vitaminas e minerais também ajudam nessa função importante”, explica a nutricionista Brenda Reblin.

Carboidratos e proteínas também precisam estar presente na dieta destes profissionais. “Antes do jogo, ingerir carboidratos é fundamental e após a partida a ênfase deve ser na proteína. Deve-se mesclar os dois”, afirma a nutricionista.

Gols que ficaram para a eternidade

Quando o lateral direito Cocada saiu do banco de reservas aos 41 minutos do segundo tempo para fazer o gol do título do Vasco pelo Campeonato Carioca em cima do Flamengo, três minutos depois de ter entrado em campo, lá no ano de 1988, ele não poderia imaginar que aquele feito mudaria toda a vida dele.

Cocada fez o gol que garantiu o título Carioca para o Vasco em 1988
Cocada fez o gol que garantiu o título Carioca para o Vasco em 1988
Foto: Divulgação

Cocada entrou na partida quando o placar ainda marcava 0 a 0. O empate daria o título ao cruz-maltino porque no primeiro jogo da decisão a equipe havia vencido por 2 a 1. Mas o tento, já no fim, era a tampa para fechar o caixão rubro-negro e deixar os vascaínos com a taça assegurada.

"Naquele dia nem deu tempo de aquecer. Eu estava ‘frio’. Foi a primeira bola do jogo que eu havia recebido. Eu dei um pique de uns 65 metros ali na lateral, fui carregando, dei aquele desarme no marcador, e naquela hora todo mundo achava que eu ia entregar para o Romário, que tinha se posicionado lá na frente. Mas eu fui lá e chutei. Nem era minha perna boa. Eu acertei na gaveta. Não consigo medir aquela emoção. Não sabia se pulava, se corria, se dava um carrinho... Tirei a camisa. Fui expulso. Mas aquele gol mudou minha vida."

Maurício decide para o Botafogo em cima do Fla

Um ano depois, em 1989, era vez do menino filho de mãe merendeira e pai taxista, da favela da Pavuna, no Rio de Janeiro, superar a dor e a febre de 39°C para dar à nação botafoguense o título carioca diante do Mengão.

Gol de Maurício assegurou título estadual para Botafogo em 1989
Gol de Maurício assegurou título estadual para Botafogo em 1989
Foto: Divulgação

"Naquele dia eu não iria jogar, estava febril, com um furúnculo que me atrapalhava para andar e correr. Eu falei para os atletas o que estava se passando e que não teria condições, mas eles disseram: 'O Flamengo tem medo de você, você faz gol em todos os jogos contra eles. Vamos correr para você'", contou Maurício.

Depois de um primeiro tempo de dor, o jogador chegou para o treinador da época, Valdir Espinoza, aos prantos, pedindo para sair da partida. Mas o "professor" rebateu dizendo que havia sonhado que o atacante faria o gol do título. Argumento que convenceu Maurício a voltar para o gramado do Maracanã.

“Aos 12 do segundo tempo eu consegui dar aquele pique e fiz o gol. Muita gente falou que eu fiz falta, mas eu consegui colocar no cantinho. Aquele gol revolucionou a minha vida. Foi uma emoção sem tamanho. Na hora você não pensa em nada, pensa em sair correndo, ir para a torcida, enlouquece. É o momento de extravasar".

Substituto inesperado do baixinho

Responsável por garantir o último título em âmbito internacional do Flamengo, o atacante Lê não só apenas saiu do banco, naquela conquista da Mercosul em cima do Palmeiras, em 1999, como também saiu de um churrasco direto para a concentração do time em São Paulo.

Lê não tinha sido relacionado para a final, que seria o último compromisso do Fla naquele ano. Mas foi chamado de última hora após Romário ter o contrato rescindido por ter ido para uma balada depois da derrota para o Juventude, em Caxias do Sul-RS.

Lê chora ao marcar gol que deu título ao Flamengo em cima do Palmeiras, na Mercosul de 1999
Lê chora ao marcar gol que deu título ao Flamengo em cima do Palmeiras, na Mercosul de 1999
Foto: Divulgação

O atacante foi acionado pelo treinador Carlinhos, aos 30 da segunda etapa. O Mengão havia vencido a primeira partida por 4 a 3. O placar de 3 a 2, até aquele momento para o Palmeiras, levava a disputa para um terceiro jogo. Mas foi dos pés de Lê que saiu o decreto, oito minutos após sua entrada em campo.

"Eu saí como o cara que era a última opção do time, que nem relacionado estava, para fazer o gol do título. Na hora que a bola entrou eu nem consegui correr para comemorar, minha perna bambeou. Comecei a chorar porque lembrava da minha família, da minha esposa que sempre me apoiou, da minha filha pequena em casa, do meu pai, flamenguista fanático... Acima de tudo eu era flamenguista e tive uma felicidade dupla como jogador e torcedor... Não deu para segurar a emoção", recordou-se o ex-atacante.

Na época, o Verdão era o atual campeão da Libertadores, jogava no Parque Antártica e era a chance de amenizar o vice campeonato Mundial diante da derrota para o Manchester United no Japão.

"O time deles era muito melhor que o nosso no papel. A torcida estava em peso, mas fomos lá e ficamos com o título. Espero que esse jejum do Fla seja quebrado este ano, com a Liberta.”

Do banco de reservas para a glória no Araripe

Eram 27 mil torcedores lotando o Engenheiro Araripe para ver a decisão do Capixabão entre Rio Branco e Desportiva. Após dois empates anteriores, os times decidiriam a final do Estadual de 1983 em um terceiro encontro.

Uma nova igualdade levaria a partida para a prorrogação, mas o título viria dos pés de um reserva que entrou na vaga do grande nome do time, o atacante Dé Aranha. Aos 23 anos, Valdecir decidiria o título já no apagar das luzes, aos 44 do segundo tempo.

“Quando Vanderlei Luxemburgo me chamou para entrar, por causa da lesão do Dé Aranha, a torcida pediu outro nome. Mas ele me bancou. Disse que era para eu ir lá e fazer o gol.”

Valdecir foi autor do gol do título do Rio Branco no Capixabão de 1983
Valdecir foi autor do gol do título do Rio Branco no Capixabão de 1983
Foto: Gildo Loyola - 27/11/1983 A Gazeta

E foi por meio de uma jogada ensaiada que o Capa-Preta venceu a Tiva naquele 27 de novembro. “Após o escanteio, o zagueiro Daniel raspou para trás e eu entrei batendo de perna esquerda. A gente treinava esse lance. Foi uma festa geral quando aquela bola entrou. Fiquei doido na hora. Você não sabe para onde vai, é algo realmente indescritível. Momento que marcou muito. O coração parece que vai sair pela boca”, descreveu Valdecir, que hoje aos 57 anos mora em Colatina e trabalha como operador em uma companhia de tratamento de água.

Das lembranças daquele título histórico, além de toda a emoção de ter feito o gol da vitória, Valdecir recorda de uma promessa da arquibancada.

“Um torcedor, que estava com a mulher grávida, me disse que colocaria o nome do filho dele de Valdecir, para me homenagear”, disse.

Conexão com a Desportiva que atravessa o planeta

Grande contratação da Desportiva para 2016, o atacante Edinho havia retornado à equipe grená depois de ter conseguido o acesso com o time para a elite do futebol capixaba em 2007. E foi dele o gol do título em cima do Espírito Santo, em cobrança de pênalti, já no fim do jogo.

Edinho fez o gol do título da Desportiva no Capixabão 2016
Edinho fez o gol do título da Desportiva no Capixabão 2016
Foto: Henrique Montovanelli / Desportiva

“Fazer um gol em decisão de campeonato, depois do meu retorno de uma década fora, foi muito bom. Meu último título capixaba tinha sido pelo Vitória, em 2006”.

O Ronaldinho do Irã, como ficou conhecido lá fora, falou também do sentimento de ser o responsável por cobrar a penalidade aos 38 minutos da segunda etapa.

"Aquele momento só quem está dentro do campo sabe da responsabilidade. É indescritível", disse o atleta que ressaltou a importância do clube de Jardim America na carreira. "Joguei duas vezes na Tiva e em ambas fui campeão. Só tenho que agradecer a todos pela oportunidade", disse o ídolo grená.

Ver comentários