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CAPIXAPÉDIA: Conheça as pessoas que dão nome a estádios capixabas

Kleber Andrade, Alencar de Araripe, Salvador Costa... quem são as personalidades que emprestam nomes aos estádios?

O futebol capixaba já esteve na elite do futebol brasileiro e viveu momentos históricos. Os templos de belos gols, dribles e lances inesquecíveis presenciam hoje dias mais modestos quando o assunto é público. Faz tempo que a maioria dos gigantes de concreto do Espírito Santo não recebem grandes multidões como em épocas passadas. Kleber Andrade, Engenheiro Araripe, Salvador Costa, Robertão, José Olímpio da Rocha, José Olívio Soares, Gil Bernardes, Sernamby, Joaquim Calmon e Eugênio Bitti. Esses são nomes dados a estádios populares do Estado. Agora, quem foram esses homens que "emprestaram" seus nomes para batizar os locais? O que eles representam?

Rio Branco enfrentou o Vasco no estádio Kleber Andrade lotado em 1986
Rio Branco enfrentou o Vasco no estádio Kleber Andrade lotado em 1986
Foto: José A. Magnago/ Arquivo Ag

Kleber José de Andrade é o dirigente que dá nome oficial a um dos mais tradicionais estádios do Espírito Santo. Foi um dos maiores incentivadores do futebol capixaba, dedicando longos anos de sua vida ao clube de coração: o Rio Branco. Pai de cinco filhos, Kleber Andrade participou diretamente da construção do Klebão, localizado em Campo Grande, Cariacica. Por isso, recebeu até o apelido de "eterno dono do estádio".

Em 1972, no segundo dos cinco mandatos que teve como presidente do Capa-Preta, Kleber Andrade iniciou a construção da casa alvinegra - orçada inicialmente em 10 milhões de cruzeiros. Com uma animação sem fim, o dirigente procurou dezenas de maneiras para conseguir materiais e dinheiro para que a obra fosse realizada. Tudo corria bem, o estádio ganhava forma, mas um acidente de carro, no dia 12 de julho 1978, matou Kleber Andrade, sua esposa (Aureny Ribeiro de Souza) e dois sobrinhos. Um momentos momentos mais marcantes do esporte local, como conta Antônio Cesar Andrade, de 64 anos, filho de Kleber Andrade.

Kleber José de Andrade, ex-dirigente do Rio Branco
Kleber José de Andrade, ex-dirigente do Rio Branco
Foto: Arquivo Jornal A Gazeta - GZ

"Foi um dia horrível. Mesmo depois de tanto tempo, até hoje é difícil falar sobre esse assunto. Foi uma comoção imensa em todo o Estado e mesmo depois de 38 anos as pessoas comentam sobre aquele momento. Meu pai era um homem do bem e querido por todos. Tivemos medo do sonho dele acabar e a obra parar", relembra Antônio.

Kleber Andrade se foi, mas a obra continuou e foi batizada com seu nome. O primeiro jogo foi no dia 7 de setembro de 1983. O Brancão venceu o Guarapari por 3 a 2. Seguindo os passos do pai, Antônio Cesar se tornou dirigente do clube e fez parte da construção. Endividado, o Rio Branco, em 2008, vendeu o estádio ao Governo do Estado.

"Fiquei três anos sem chegar perto desse novo estádio, rejeitava. Jogaram tudo que meu pai fez no chão. Só mudei de ideia no fim de 2013. Vi que o sonho dele não tinha morrido. Uma conversa com o arquiteto que fez o novo projeto (Ciro Pirondi) também me ajudou a mudar de ideia. Hoje eu gosto e sei que o Espírito Santo ganhou um estádio bonito, que pode ser um incentivo para o nosso futebol voltar a ser competitivo", concluiu.

Engenheiro Araripe

O estádio da Desportiva, apelidado pelos grenás de "Monumental de Jardim América", chama-se Engenheiro Alencar de Araripe. O nome foi colocado para homenagear o engenheiro capixaba Delecarliense de Alencar Araripe, funcionário da Companhia Vale do Rio Doce. Delecarliense, que era superintendente da estrada de ferro Vitória-Minas, tornou-se em 1945 diretor da mineradora multinacional.

Delecarliense de Alencar Araripe e o estádio de Jardim América que leva o seu nome
Delecarliense de Alencar Araripe e o estádio de Jardim América que leva o seu nome
Foto: Montagem

O estádio onde tudo começou passou a ser pequeno para comportar seus adeptos. A Desportiva crescia, sua torcida também. Não cabiam mais todos os torcedores na velha arquibancada de madeira, já passava de 2.500, e o campo, cercado com algumas peças de trilhos, casa da Locomotiva desde 1966, precisaria se reinventar.

Em 1969, alargou-se em oito metros o gramado, mas ainda era pouco. A Desportiva pensou em alternativas para expandir até chegar a estrutura que possui atualmente o Araripe de concreto - a área do antigo Colégio Eliezer Batista foi utilizada para a construção de uma nova arquibancada. Delecarliense, contudo, morreu em 1964, dois anos antes da conclusão completa das obras do estádio. Hoje, o Engenheiro Alencar de Araripe tem capacidade máxima para oito mil pessoas.

Presidente do clube por quatro anos (1979 a 1982), Salustiano Sanchez levou o time grená a conquistar três títulos do Campeonato Capixaba de maneira consecutiva (1979, 1980 e 1981). Além disso, em 1980, participou da melhor campanha de uma equipe capixaba na Série A do Brasileiro. Salustiano tinha tanto prestígio dentro do clube que recebeu uma homenagem do time de remo da Desportiva, dando nome a um barco de Salustiano Ardito Sanchez, o primeiro barco construído totalmente no próprio clube ferroviário.

"A Desportiva Ferroviária veio para abraçar o esportista capixaba e ser um clube de força nacional. Sempre digo que a Desportiva é o clube mais charmoso do Brasil e tem o escudo mais bonito de todos. Trabalhei no clube por dez anos e mesmo hoje não consigo ficar sem contribuir com o time. Fiquei como presidente por quatro anos e conheço bem a grandeza que tem a Desportiva", lembrou o ex-dirigente.

Salvador Costa 

Salvador Venâncio da Costa foi presidente do Vitória por aproximadamente dez anos e um dos principais responsáveis pelo início das obras do estádio em 1965, quando as arquibancadas de madeira prevaleciam. Salvador também foi o responsável pela parceria do clube com a construtora Rio Doce, que bancou boa parte do dinheiro para a execução do projeto. Além disso, o ex-mandatário fazia rifas com o objetivo de arrecadar mais verba para a conclusão da obra.

Salvador Venâncio da Costa foi presidente do Vitória por cerca de 10 anos
Salvador Venâncio da Costa foi presidente do Vitória por cerca de 10 anos
Foto: Arquivo AG

Com isso, em 2 de abril de 1967, o Vitória inaugurava o Estádio Salvador Costa. A casa alvianil ficou pronta em menos de dois anos, entregue com 110 metros de arquibancadas de concreto e cobertas, com 14 degraus. Lá, 750 cadeiras para sócios, com 650 vendidas antes da inauguração do local.

"O Salvador Costa dava a vida dele pelo Vitória e para ver o clube bem. Tirava dinheiro do próprio bolso para comprar sacos de cimento, areia, brita, vergalhões e outros materiais de obras. Estou no futebol há muito tempo, sei o que acontece nos bastidores do clubes capixabas e poucas vezes vi um homem tão dedicado ao futebol como o senhor Salvador Costa. Ele é forte e continua vivo, mas quando partir deixará saudades", elogiou o diretor-superintendente do Vitória, Antônio Perovano.

O "moderno" estádio contava com dez cabines, quatro para rádios, duas para jornais e mais quatro para autoridades e convidados. Tinha três bares, três vestiários, e capacidade para cinco mil torcedores sentados. Aos 88 anos e com sérios problemas de saúde, Salvador atualmente reside no bairro Mata da Praia, em Vitória. O ex-dirigente sofre de Alzheimer e recebe acompanhamento médico semanalmente.

Roberto Siqueira Costa (Robertão)

Roberto Siqueira Costa, que dá o nome oficial ao estádio Robertão, em Serra Sede, dedicou boa parte de sua vida ao Serra Futebol Clube.

Robertão, estádio do Serra, tem o nome do ex-goleiro e funcionário do clube Roberto Siqueira Costa
Robertão, estádio do Serra, tem o nome do ex-goleiro e funcionário do clube Roberto Siqueira Costa
Foto: Reprodução

Começou como goleiro nas divisões de base do clube e brilhou defendendo a baliza do time tricolor na década de 80. Chegou a ser funcionário da diretoria do clube cobra-coral durante nove anos, além de ter ocupado as funções de técnico.

José Olímpio da Rocha (Rochão)

José Olímpio da Rocha dá nome ao estádio do Real Noroeste e foi o maior inspirador para que o presidente merengue, Flaris Olímpio da Rocha, resolvesse erguer as paredes de concreto do clube em Águia Branca. Nascido em 1914, no município de Pancas, José Olímpio trabalhou durante toda a vida na roça como agricultor. A paixão pelo futebol o acompanhava por onde ia. 

Estádio José Olímpio da Rocha teve jogo adiado entre Real Noroeste e Linhares
Estádio José Olímpio da Rocha teve jogo adiado entre Real Noroeste e Linhares
Foto: Real Noroeste/Divulgação

Aos 20 anos, para tentar dar uma melhor condição à família, mudou-se para a região Noroeste do Espírito Santo. Esposo da dona de casa Maria José da Rocha, com quem teve quinze filhos, ele faleceu em 1996, aos 82 anos. Entretanto, o amor de José Olímpio pela modalidade foi transferido para os filhos e, principalmente, para Flaris. O presidente do Real Noroeste afirma com os olhos marejado quem foi seu pai: "O melhor homem do mundo". 

Construído por Flaris Olímpio da Rocha em 2010, o estádio inicialmente tinha capacidade para 3.200 pessoas. Após passar por reformas em 2013, o local passou a estar apto a receber aproximadamente 5.300 torcedores.

José Olívio Soares

O estádio do Atlético Itapemirim homenageia em seu nome José Olívio Soares. Bancário, fez carreira também no futebol, sendo, inclusive, o criador do clube alvinegro, além de adquirir recurso financeiro e parcerias para a construção da praça esportiva que leva seu nome.

José Olívio Soares, que dá nome ao estádio do Atlético Itapemirim, foi fundador do clube
José Olívio Soares, que dá nome ao estádio do Atlético Itapemirim, foi fundador do clube
Foto: Reprodução

Nascido no Rio de Janeiro e torcedor fanático do Botafogo, José Olívio foi responsável pelo time de Itapemirim durante as décadas de 60 e 70, recebendo o apelido de "Homem do futebol" na cidade. Isso porque, por ser detentor de algumas terras na região Sul do Estado, ele resolveu doar uma área para o Atlético, onde o estádio foi construído.

O maior sonho do ex-dirigente alvinegro era ver o Galo da Vila atuando no futebol profissional do Espírito Santo. Feito que aconteceu somente em 2011, quando o clube deixou de ser um time amador e filiou-se à Federação Capixaba de Futebol (FES). José Olívio morreu em 1993, aos 57 anos, deixando esposa e dois filhos.

Gil Bernardes da Silveira

Desde 1938, o estádio do Tupy recebe o nome de Gil Bernardes da Silveira, considerado um dos maiores nomes da história do time de Vila Velha. Foi fazendeiro e pai de Américo Bernardes, prefeito da cidade canela-verde entre 1963 e 1966.

Estádio do Tupy leva o nome de Gil Bernardes, pai de Américo Bernardes, prefeito de Vila Velha entre 1963 e 1966
Estádio do Tupy leva o nome de Gil Bernardes, pai de Américo Bernardes, prefeito de Vila Velha entre 1963 e 1966
Foto: Reprodução

Com capacidade para mil espectadores, a área onde o estádio foi construído foi doada pelo então político Américo Bernardes e por sua esposa Marina Barcellos em 1967. Depois de pronto, o espaço foi batizado de Gil Bernardes da Silveira.

Joaquim Calmon

O estádio tem o nome em homenagem ao prefeito que dedicou muitos anos de sua vida ao Linhares Futebol Clube. Presidente do clube na década de 50, Joaquim Calmon foi o responsável por encontrar o terreno onde foi construído o estádio e também por conseguir o dinheiro necessário para que as obras fossem iniciadas. O político, que também trabalhava com bovinos, contudo, só passou a dar nome à casa da Coruja Azul em 1952, quando uma importante reforma do estádio foi realizada.

Estádio Joaquim Calmon, uma homenagem ao ex-prefeito da cidade de Linhares
Estádio Joaquim Calmon, uma homenagem ao ex-prefeito da cidade de Linhares
Foto: Reprodução

Nascido e crescido no município de Linhares, ao morrer, o filho de Joaquim, Sérgio Calmon, assumiu o comando do imóvel. Roberto Calmon, neto de Joaquim, treinou o time do Linhares na campanha do Capixabão deste ano, mas deixou o comando da equipe logo após o torneio estadual.

Eugênio Antônio Bitti

Com capacidade para receber cerca cinco mil pessoas, o Estádio Eugênio Antônio Bitti, tradicionalmente conhecido como Bambu, é uma das praças esportivas mais tradicionais do Espírito Santo. Trata-se de uma homenagem a um importante político do município. Foi vereador durante dois mandatos, trabalhou boa parte de sua vida no setor agropecuário da região e doou o terreno para que o estádio pudesse ser erguido. Conhecido por sua bondade, Eugênio Bitti construía casas e as cediam para pessoas carentes poderem residir.

Time do Aracruz posando para foto no estádio que leva o nome do político Eugênio Bitti
Time do Aracruz posando para foto no estádio que leva o nome do político Eugênio Bitti
Foto: Arquivo AG

Nascido em novembro de 1900 e pai de 14 filhos, ele faleceu em 1995 vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Como legado de sua trajetória, Eugênio Bitti deixou a paixão pelo Esporte Clube Aracruz. Quem conta é o neto de Eugênio e atual presidente do clube, Eduardo Bitti, de 37 anos.

"Meu avô tem uma história marcante. Ele fez tudo o que pôde para ver o crescimento da cidade de Aracruz. Hoje estou na presidência do Aracruz porque meu pai, Jair Bitti, me transferiu o amor que veio do pai dele. Vai passando de geração em geração esse sentimento. Tudo começou com o meu avô Eugênio", disse Eduardo Bitti.

Manoel Moreira Sobrinho (Sernamby)

O estádio Manoel Moreira Sobrinho, conhecido popularmente como Sernamby, foi inicialmente idealizado para ser um centro comunitário e não um estádio. O centro contava com salas de aula para cursos de graça e um campo de futebol, aonde treinava a Associação Atlética Paroquial.

Sernaby tem o nome do líder religioso Manoel Moreira Sobrinho
Sernaby tem o nome do líder religioso Manoel Moreira Sobrinho
Foto: Arquivo AG

É onde começa a história de Manoel Moreira, um líder religioso respeitado na cidade. Foi delegado e, nos horários vagos, dava aulas de português gratuitas para crianças de classe baixa da região.

Membro da Igreja Católica e personalidade ativa no dia a dia da comunidade do bairro Sernamby, onde fica localizado o estádio, Manoel Moreira tinha como objetivo retirar jovens das ruas para ajudá-los através dos estudos. O futebol era utilizado por ele para atrair os estudantes.

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