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Negra, pobre e pioneira do judô no Brasil: Conheça Soraia André

Ela ousou praticar o esporte em uma época em que mulheres não podiam lutar, e foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro em uma edição de Jogos Pan-Americanos

Soraia André: 10 vezes campeã nacional e primeira brasileira a ganhar uma medalha de ouro em uma edição de Pan-Americano
Soraia André: 10 vezes campeã nacional e primeira brasileira a ganhar uma medalha de ouro em uma edição de Pan-Americano
Foto: Carlos Alberto

Ela foi pioneira do judô no Brasil. Ousou praticar o esporte em uma época onde mulheres eram proibidas (decreto-lei 3199/65, da ditadura militar) de lutar. Dez vezes campeã nacional, Soraia André foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro em uma edição de Jogos Pan-Americanos (Indianápolis-1987). Foi bronze outras duas vezes no Pan (1983 e 1991), e esteve em Seul-1988, quando o esporte foi apresentado pela primeira vez na Olimpíada.

A trajetória vitoriosa sofreu um duro golpe em 1992. Depois de um quinto lugar em Seul, Soraia ficou fora da briga por medalha na Olimpíada de Barcelona. Pensou em suicídio. Na volta ao Brasil fez críticas duras à Confederação de Judô e como punição, mais uma vez, foi proibida de praticar o esporte.

A história da "Japonegra" virou livro. Em entrevista para o Gazeta Online, Soraia conta como superou os preconceitos ao longo da carreira, como manteve o amor ao esporte mesmo diante de tantas dificuldades e como hoje, aos 52 anos, usa o judô para transformar a vida de outras crianças.

Seu começo no esporte foi em uma época em que mulheres eram proibidas de lutar. Como você driblou o preconceito ao longo da carreira?

"Claro que não foi fácil, mas eu estava tão focada e queria tanto o meu lugar ao sol eu superava, não me importava com o preconceito. O Judô foi para mim uma plataforma para que eu conseguisse sair da invisibilidade social, da condição de menina que não tinha o que comer. Mas isso, obviamente, deixou dores e marcas na minha alma, que eu resgatei com muita psicoterapia e muito amor de Cristo".

Você recebeu o apelido de "Japonegra" por que apesar do olho um pouco puxado, era a única criança negra em meio as filhas dos professores japoneses. Como foi o seu começo no judô?

"Eu tinha 12 anos e um dia eu resolvi brincar com palavras, já que brincar com brinquedos era muito impossível para mim por que a minha família não tinha condições. Eu brincava de rimar, e um dia disse ao meu pai que eu queria ganhar um violão e um macacão. E próximo ao meu aniversário eu falei que queria ganhar um gravador, e fiquei procurando uma palavra para rimar, aí disse que eu queria fazer judô. Eu nem sabia o que era o judô, foi tudo uma grande brincadeira. Mas hoje eu acredito que foi uma 'brincadeira' que foi inspirada por Deus, por que isso foi que mudou a minha vida"

Qual o significado do judô na sua vida?

"Judô significa caminho suave, e eu sempre tive muita habilidade para movimentos rítmicos, coordenados. Eu no meu imaginário infantil, era uma dança. O judô tem muito isso: um tempo, uma métrica, que você faz em harmonia com o outro. Para mim eu ia dançar, não ia lutar. Até porque quando eu comecei, o esporte era proibido para mulheres"

Você teve uma carreira muito vitoriosa, mas não ganhou nenhuma medalha olímpica, isso te frustou de alguma forma?

"A minha experiencia com Olimpíada foi muito significativa. Eu participei da primeira olimpíada, quando o judô ainda era proibido para mulheres. Fui aonde ninguém tinha ido, com os recursos que as pessoas não tinham. Disputei o bronze, mas terminei em quinto lugar. Para o Brasil significado tem quando a gente traz medalha, mas fui pioneira e para mim isso é muito significativo"

Soraia em encontro com judocas no Espírito Santo
Soraia em encontro com judocas no Espírito Santo
Foto: Carlos Alberto

Nos jogos de Barcelona, 1992, criou-se uma expectativa sobre a sua participação, mas você não fez uma boa olimpíada. Isso te traumatizou de alguma forma?

"Em 1992 eu realmente não fui bem, não disputei nem medalha, e na época sai muito frustrada. Tive que lidar depois com uma perda grande, não só de medalha, mas uma perda de identidade. Porque eu só fazia isso, eu era atleta. Saí do tatame e não recebi um abraço, passei a pensar 'se você não serve para nada, então por que não se mata'. Fui parar em hospital psiquiátrico, internada como louca, e não consegui lidar com isso. A gente valoriza muito a medalha, mas antes da medalha, existe um ser humano"

Pós Barcelona-1992, você passou a fazer críticas a Confederação de Judô, que não repassava para os atletas o dinheiro que recebi nas competições. A punição veio com a determinação de que atletas a partir de 28 anos não poderiam mais defender o Brasil e você fez um protesto marcante na época. Como foi esse momento? E como você vê essa questão das críticas que, até hoje, atletas de várias modalidades fazem aos seus dirigentes?

"Fui cortada, mas hoje eu acredito que era para ter sido assim. Ali, quando eu fui cortada, eu fui buscar rever toda a minha vida, fui buscar a Soraia pessoa. Até então eu era personagem. E aí eu descobri que eu não preciso ser reconhecida por ninguém, eu posso ser eu mesma independente de ser ou não reconhecida. Acho que a gente tem que ser livre para protestar, se eu não concordo com uma medida eu preciso me manifestar, não posso ficar calada. Naquela época, vestir um quimono preto significou o meu luto, eu me senti morta. E se me mataram, eu realmente vesti meu luto. Foi muito forte, muito significativo, era um luto de toda aquela situação que me impedia de ser eu mesma"

As dua brasileiras campeãs olímpicas - Rafaela Silva (2016) e Sarah Menezes (2012) - são negras, pobres e também enfrentaram preconceitos ao longo da carreira. Como foi para você ver essas meninas conquistarem uma medalha de ouro olímpica?

"A Rafaela traz a minha história, um pouco do que eu vivenciei lá atrás e sem visibilidade, porque o judô ainda estava no começo e ninguém acreditava no esporte. Não só a medalha da Rafaela, mas também a da Sara Menezes, eu tenho parte nela. Essas medalhas também são minhas. A medalha fica com uma pessoa, mas é uma conquista coletiva"

Soraia André: alegria e amor ao esporte mesmo depois de enfrentar preconceitos
Soraia André: alegria e amor ao esporte mesmo depois de enfrentar preconceitos
Foto:

Como você avalia o judô feminino no Brasil hoje?

"Nós chegamos, mas ainda tem muito o que melhorar, muito o que fazer, principalmente na base. Ainda existe muito preconceito, muito misticismo. Eu tive alunas que a mãe não deixava fazer judô porque era uma mulher que estava dando aula. Então acho que nós mulheres, não só no judô, ainda temos muito o que aprender sobre nós mesmas nesse país. O Judô está num ponto legal, mas ainda tem muito o que fazer. Acredito que daqui há quatro anos nós vamos ter mais medalhas e um resultado muito melhor. A tendência é avançar. É preciso criar uma identidade no judô feminino, e não ser uma cópia do masculino. Nós mulheres, precisamos ter uma identidade"

Hoje você dedica seu tempo para ensinar judô para crianças carentes, como é esse trabalho?

"Sempre trabalhei com crianças, mesmo quando estava na Seleção. Hoje tem ainda mais significado. Eu planto uma semente do bem nas crianças, se elas vão ser campeãs ou não com o judô, não é esse o meu foco. Eu busco por meio do judô transformar vidas, resgatar pessoas. Assim como um dia acreditaram em mim, me deram a oportunidade de fazer o esporte e transformar a minha vida. Se eu não tivesse encontrado o judô, talvez eu estivesse como alguns primos meus que se envolveram com drogas. É dar um sonho e uma esperança para essas crianças, mostrar para elas que elas podem ser o melhor naquilo que elas quiserem, e fazer elas perceberem que dentro delas mora um ser digno de ser amado"

O que o judô representa na sua vida hoje?

"Para mim significa um caminho por meio do qual Deus se manifestou na minha vida, um caminho de equilíbrio. O caminho que me leva a ter perseverança para buscar um objetivo, e no final conquistar uma coroa da vida. Ter uma vida harmônica, de paz, hoje o judô tem esse significado. Depois de buscar a medalha, hoje eu busco o aperfeiçoamento. Crescer dia após dia e me tornar uma pessoa melhor"

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