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Capixabas enchem os olhos com "totó" em olimpíada: "Um orgulho imenso"

A provável inclusão do futebol de mesa como modalidade olímpica deixou os amantes do esporte no Espírito Santo orgulhosos

Existem inúmeras formas de cultivar o amor pelo futebol, e uma delas é o pebolim ou totó, como costuma ser carinhosamente chamado. Nesse esporte, que antes era tido apenas como um passatempo, a velocidade de raciocínio e a habilidade com as mãos são o que realmente importa para se dar bem, mas tem gente que sempre levou a modalidade a sério e agora deve colher frutos para agradar qualquer paladar. Isso porque o COI (Comitê Olímpico Internacional) estuda a possibilidade de acrescentar o futebol de mesa, como os atletas preferem chamar, no programa para a Olimpíada de Tóquio, em 2020.

José Luiz Nascimento mantém amor pelo pebolim vivo
José Luiz Nascimento mantém amor pelo pebolim vivo
Foto: Marcelo Prest

Embora seja muito popular nos bares e estabelecimentos de entretenimento de várias regiões do Brasil, somente pouco mais de 3 mil pessoas têm uma rotina de treinamentos semanais visando a disputa de competições nacionais e internacionais. E o Espírito Santo possui os melhores atletas de futebol de mesa do país na atualidade. É o que afirma o empresário José Luiz Nascimento, de 42 anos, que tem o esporte como paixão desde a infância e pratica a nível de alto rendimento há 10 anos.

“Guarapari sempre foi o maior centro de futebol de mesa não só do Brasil mas também do continente sul-americano. Temos aqui cerca de 40 atletas que brigam de igual para igual contra qualquer outro competidor, vencendo na maioria das vezes. Por mais que seja um esporte que ajuda a relaxar e serve de lazer para muitos, nós levamos a sério e competimos para valer. Temos jogadores que viajam o mundo jogando e, até por isso, somos os melhores do Brasil na categoria individual. Na dupla estamos entre os melhores também.”

José Luiz joga pebolim desde quando ainda era criança
José Luiz joga pebolim desde quando ainda era criança
Foto: Marcelo Prest

Por mais surreal que seja a possibilidade de estar em Tóquio, afinal o futebol de mesa costuma ser apontado como amador, o fato é que não é tão simples assim um esporte tornar-se olímpico. Mas o primeiro passo foi dado. Os esportistas passarão, por exemplo, a correr em busca dos requisitos de reconhecimento exigidos pelos comitês olímpicos nacionais e, após isso, se adequarem aos termos de comprometimento da Agência Mundial Antidoping (Wada).

“Só de sermos vistos e de termos a possibilidade de entrarmos em uma olimpíada já é uma felicidade sem medidas. É o reconhecimento que nós merecíamos”, vibrou José Luiz.

Rivalidade Espírito Santo x São Paulo

Quando se fala em futebol de mesa de alto nível é impossível deixar de citar a rivalidade entre Espírito Santo e São Paulo. É como diz o autônomo Ezequiel Alves, de 34 anos, considerado um dos melhores do país quando está ao lado do parceiro José Luiz Nascimento na categoria dupla: "Não tem outro estado que consiga brigar com a gente. A guerra nos campeonatos que vamos disputar é sempre entre capixabas e paulistas. Realizamos confrontos sempre emocionantes, brigados e equilibrados quando nos enfrentamos nos torneios. Contudo, na maioria das vezes, vencemos."

Espírito Santo está entre os melhores do país quando o assunto é pebolim
Espírito Santo está entre os melhores do país quando o assunto é pebolim
Foto: Marcelo Prest

Morando em Vila Velha, cidade onde costuma se reunir com outros praticantes para treinar, Ezequiel explica que o entrosamento é a principal arma para manter a parceria em constante evolução. Juntos, Ezequiel e José Luiz já conquistaram títulos capixabas (2016 e 2017) e a Copa Internacional (2017), onde derrotaram rivais peruanos e norte-americanos. “Ganhamos recentemente campeonatos grandes contra vários bons jogadores. Da Copa Internacional cerca de 100 atletas vieram disputar. Do Estadual, que acontece sempre em Guarapari, 40 competidores concorrem ao troféu. E não adianta a pessoa chegar achando que vai ganhar só porque joga vez ou outra em algum lugar, tem que praticar regularmente e conhecer regras e técnicas”, explicou Ezequiel.

Experiência internacional e chama acesa

Totó, pebolim ou futebol de mesa: a forma como a modalidade é chamada é o que menos importa. O bom mesmo é combinar as regras antes da bolinha, produzida de plástico revestido, começar a rolar, ou a quicar, dependendo da intensidade da partida. Vale ou não “roletar” - girar o boneco em 360º várias vezes? Gol de goleiro vale dois? Certas perguntas, porém, não são ouvidas em um torneio de nível profissional. No Brasil, as regras são definidas e criteriosamente seguidas durante as competições.

A história passa a ser diferente em outros países. Praticante ativo de futebol de mesa desde a infância, Lucio Giurizzatto, de 46 anos, já viajou o mundo e mediu forças contra atletas do Japão, Itália, Estados Unidos e Marrocos. A bagagem adquirida dentro da modalidade fez o jogador ter a certeza: os brasileiros têm suas particularidades.

“Joguei várias partidas contra eles. Lá eles jogam no estilo ‘bate-bate’, sem muita precisão, é uma proposta de jogo meio desorganizada. Aqui a gente joga parando a bola, pensando nas jogadas. Eu amo o esporte, mas tenho amigos que investem ainda mais para disputar campeonatos. Alguns deles vão para a França, onde tem ótimos atletas, para duelar”, destacou Lucio.

Antônio é um dos atletas mais experientes do Estado
Antônio é um dos atletas mais experientes do Estado
Foto: Marcelo Prest

Se a fomentação do futebol de mesa no Espírito Santo continua viva, muito se deve a Antônio Cláudio Nunes, de 60 anos, que desde os 14 abraçou a arte. Febre entre as décadas de 70 e 80, o esporte é como um simulado da paixão dos adeptos pelos gramados. Décadas depois de quase ser extinta por conta da popularização dos videogames, esse tipo de diversão vem ganhando novamente chão e se alastrando por clubes e espaços públicos no Estado.

“Estou há 46 anos aprendendo a jogar pebolim. Mas me sinto honrado por fazer parte do grupo de principais atletas do Espírito Santo. Após um período um pouco fraco, parece que agora o totó voltou a ser bem praticado por crianças e jovens. Nossa missão é manter o amor por esse esporte aceso e com cada vez mais novos jogadores”, projetou Antônio Cláudio.

Unidos no amor e no esporte

Já se tornou rotina sempre surgir pesquisas pelo mundo afora que colocam algum tipo de jogo como “algoz” no que diz respeito a problemas de relacionamento. De tudo já foi dito sobre o assunto. Mas quem é apaixonado por esportes sabe que, definitivamente, não é bem assim que funciona. Aliás, no futebol de mesa, o cenário costuma ser o oposto para quem encontra sua “cara metade”.

Leandro Porto fez questão de voltar a jogar pebolim com a namorada Aline Salomão
Leandro Porto fez questão de voltar a jogar pebolim com a namorada Aline Salomão
Foto: Marcelo Prest

É o caso do servidor público Leandro Porto, de 28 anos, e da estudante Aline Salomão, de 23, que namoram há cinco anos. Para eles, o esporte é um hobby que estimula a criatividade, o raciocínio e que aproxima o casal. “Quando eu era guri eu ganhei alguns campeonatos amadores que eram feitos na escola. Era tudo na brincadeira, mas sempre gostei de jogar. As mesas também chamam a atenção por serem bonitas e estou gostando bastante em ter a oportunidade de brincar com ela”, falou Leandro.

Se o namorado demonstra ter certa intimidade e boa técnica com as manetes nas mãos no comando de sua equipe, Aline conta que não leva tanto jeito, mas que se esforça para aprender. “Na verdade eu sou mais acompanhante dele, porque não sei jogar direito, então, ele é que está me treinando para ver se eu ao menos consigo brincar. Já joguei quando era criança e agora poder voltar a jogar está sendo divertido, mas competir deixa só com o Leandro mesmo”, concluiu.

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