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Aos 89 anos, Calixto cata latinhas para ajudar famílias carentes no ES

Há 5 anos ele faz o bem, e hoje pede ajuda para continuar com o trabalho: "um triciclo ou quadriciclo motorizado"

Foto: Marcelo Prest

Não ter mais tanta força nas pernas poderia ter dois resultados para o seu José Calixto, de 89 anos, quando foi ao médico há cinco anos para questionar a falta de mobilidade: ou ele se entregaria à cadeira de rodas, ou sairia de casa, todas as noites, para recolher latinhas, vendê-las e reverter o dinheiro em cestas básicas para doar a famílias carentes de Vila Velha. Ele escolheu a segunda opção - e com a justificativa médica, ainda, de que o exercício fortaleceria a musculatura dos membros inferiores.

É muito triste saber que tem gente passando fome. Poder mudar um pouco essa realidade é transformador para mim
Seu Calixto, de 89 anos

Ele conta, emocionado, que o que o move, hoje, é ver o sorriso - principalmente das crianças - no rosto de quem recebe as doações. "É impagável. E é muito triste saber que tem gente passando fome. Poder mudar um pouco essa realidade é transformador para mim", detalha. Seu Calixto, como é chamado, mora com uma filha, que também o ajuda com as tarefas diárias. "Ela cuida de mim, e acha muito legal o trabalho que faço. Ela só fica preocupada com algo que possa acontecer comigo, já que eu só saio para recolher as latinhas à noite", explica.

500 quilos

É o máximo de peso, em latinhas, que seu Calixto já conseguiu juntar

Para ele, Deus é quem o acompanha. "Muita gente não acredita (em Deus). Eu acredito. E é por isso que nada aconteceu comigo. Eu não saio de casa sem fazer minhas orações", diz. Quando vai recolher as latinhas, seu Calixto passa por mais de 40 lugares diferentes, em Vila Velha, com um carrinho parecido com aqueles de supermercado.

Isso porque, segundo ele, o próprio carrinho é usado para ele se apoiar durante a caminhada. "Não consigo andar por muito tempo, minhas pernas já não respondem mais como antes. Mas eu não vou parar", exclama, entusiasmado.

Seu Calixto frisa que gostaria de ter um triciclo ou quadriciclo motorizado para não ter que, um dia, parar com o trabalho que faz. "Eu não sei quanto mais vou aguentar, e já tentei usar um triciclo de pedalar, mas não adiantou. Precisaria ser motorizado", afirma.

MEIA TONELADA

De ponto em ponto, seu Calixto já chegou a juntar até meia tonelada de latinhas. Ele conta que hoje vende o montante de dois em dois meses. "Eu não consigo um volume bom todo mês, então chamo a empresa responsável dando um intervalo de uns 60 dias e consigo tirar cerca de R$ 600 a R$ 700", complementa.

Com o dinheiro, ele compra cestas básicas. Das cestas que consegue adquirir, duas ele dá à igreja que frequenta, em Itapuã, bairro de Vila Velha. As outras, ele divide entre famílias que realmente sabe que precisam de comida. "Antes de dar as doações eu faço questão de conhecer quem é que vai ter as cestas", esclarece.

Todo mundo passa por situações complicadas às vezes, e todo mundo merece uma ajuda para se reerguer
Seu Calixto, de 89 anos

Seu Calixto detalha que as famílias que ganham as cestas, quando melhoram de situação, até fazem questão de ajudá-lo com latinhas. "Já aconteceu de eu dar a primeira cesta, e no mês seguinte a família vir me trazer latinhas para me ajudar na hora que eu as vendesse", comemora.

"E olha, não é só família miserável e maltrapilha que eu ajudo. Já ajudei gente que já teve carro, que tem profissão. Mas você sabe, né? Todo mundo passa por situações complicadas de vez em quando, e todo mundo merece uma ajuda para se reerguer", destaca. Veja galeria de fotos:

HISTÓRIA

Assim que recebeu a recomendação médica de que fazer exercício seria melhor para fortalecer os músculos da perna, há cinco anos, seu Calixto começou a caminhar no entorno de sua casa, em Vila Velha. Nos primeiros dias de caminhada, ele se deparava com as latinhas na rua e começou a recolher.

"Em seguida eu estava com um tanto delas em casa, e tive que achar uma forma de dar um fim àquilo", diz, se referindo à ideia que teve de vendê-las. "Ai eu pensei que se eu as vendesse, conseguiria dinheiro e poderia transformar esse valor em uma boa ação. Então, comecei a comprar arroz, feijão, e dava para quem eu sabia que precisava", relembra.

AJUDA

Seu Calixto sequer sabe quantificar quantas pessoas já ajudou. Mas sabe que são muitas. Por isso ele comemora. No entanto, lamenta ter medo de não poder continuar com o trabalho das latinhas. É que com dificuldades para andar, ele já tentou usar um triciclo para pedalar e não ter que andar, mas também não conseguiu.

"Eu precisava de um triciclo ou um quadriciclo motorizado", pede. Seu Calixto, hoje, cata as latinhas com um carrinho parecido com aqueles de supermercado, e o usa até como forma de apoio para conseguir andar melhor. 

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