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Delegacia de Desaparecidos promove encontro de irmãs afastadas há 50 anos

Comovidos com a história de dona Alzira, os policiais da unidade decidiram colaborar e ajudar a aposentada a procurar a irmã

A Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas do Estado do Espírito Santo tem feito mais do que se propõe. Além de conseguir solucionar 90% dos casos de desaparecimento registrados por meio de boletins de ocorrência a equipe ainda encontra tempo para realizar um outro belo trabalho. Na última quinta-feira (05), policiais da unidade promoveram o encontro emocionante entre a aposentada Alzira Neves dos Santos, de 62 anos, com um sobrinho, filho de uma irmã que ela procurava há mais de 50 anos.

A história

Alzira, o investigador Adriel Moreira, Whitas e o delegado José Lopes
Alzira, o investigador Adriel Moreira, Whitas e o delegado José Lopes
Foto: Carolina Saitt | Gazeta Online

No mês passado, a aposentada Alzira Neves dos Santos procurou a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas querendo informações sobre o paradeiro da irmã, de quem foi separada ainda criança.

Segundo Alzira, ela e a irmã nasceram no município de Nova Venécia, região Noroeste do Estado. Quando tinham entre 4 e 6 anos de idade foram abandonadas pela mãe e deixadas com os avós maternos que, pouco tempo depois, entregaram as duas irmãs para adoção.

Adotadas por famílias diferentes, Alzira nunca mais viu a irmã, mas a vontade de reencontrá-la a acompanhou por toda a vida.

Comovidos com a história de dona Alzira, os policiais da unidade decidiram colaborar e ajudar a aposentada a procurar a irmã. "Geralmente esse tipo de caso foge da nossa atribuição, já que só procuramos por pessoas legalmente desaparecidas há menos de um ano. Aqui não nos sobra tempo para esse tipo de situação, mas a gente gosta do que faz e temos boa vontade para tentar ajudar as pessoas", declarou o delegado.

O Adriel foi um anjo na nossa vida. Prestou um bom trabalho e foi humano ao intermediar esse encontro com a minha tia, que eu jamais pensei em conhecer. Agora vou poder encontrar a grande família que tenho por parte de mãe
Sobrinho Whitas

E foi essa boa vontade que fez com que o investigador de polícia Adriel Ludolfo Moreira procurasse e encontrasse a irmã desaparecida. Ozilia Neves, de 60 anos, foi localizada. Além da irmã, o investigador encontrou dois sobrinhos de Alzira, o balconista Whitas Neves, 36, e a irmã dele, Andréia Neves, 35.

Ao contactar a parte desaparecida da família, Adriel soube que Ozilia teve um Acidente Vascular Cerebral e, por isso, estava se recuperando no Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo - Crefes. Desta forma, o investigador decidiu promover um encontro entre Alzira e o sobrinho Whitas, para que ele mesmo pudesse contar para a tia a situação da mãe.

O encontro emocionante

Tia e sobrinho tentaram colocar uma vida inteira em dia e descobriram muitas coincidências. As duas irmãs deram às filhas o nome de "Andréia". As duas também não tiveram condições de criar os filhos primogênitos e os deram para adoção. E, segundo Whitas, elas são muito parecidas fisicamente.

O encontro promovido pelos oficiais da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidos foi apenas o primeiro de muitos que a família deseja ter daqui para frente.

Para dona Alzira, o encontro foi um presente. "Foi um presente de Natal adiantado porque esse ano eu vou poder passar a data com a minha irmã. Ainda não sei como vai ser o reencontro, mas eu estou muito feliz, ansiosa e pronta para ajudá-la em tudo que ela precisar nessa recuperação", contou Alzira. O encontro entre as irmãs não deve demorar e será no próprio Crefes, onde Ozília se recupera do AVC.

O trabalho da Delegacia de Desaparecidos

Segundo o sociólogo e pesquisador Dijaci David Oliveira, autor do livro "O desaparecimento de pessoas no Brasil", um desaparecido civil se caracteriza como uma pessoa que deixou sua família e seu laço afetivo e nunca mais foi vista, sem manifestar, anteriormente, o desejo de partir. Neste sentido, a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas, que funciona dentro da DHPP em Barro Vermelho, Vitória, tem cumprido a missão de solucionar as ocorrências registradas por lá.

Dados de 2014 e 2015 apontam que no Estado desaparecem por ano em média mil pessoas. Dessas mil, cerca de 90% são localizadas. Em média 5% dos casos a família não dá retorno às autoridades comunicando o aparecimento do parente e em apenas cerca de 3% o desfecho termina com óbito.

Grande parte do sucesso desta estatística é devido ao perfil dos desaparecidos. Em média 35% dos casos o comunicante relata o sumiço de meninas entre 12 e 17 anos. Nesses números surge um quantitativo assustador: 89% dessas jovens não desaparecem, apenas fogem de casa.

O que esse levantamento revela é que, no Espírito Santo, grande parte dos desaparecimentos está ligado a problemas socias. Segundo o responsável pela Delegacia de Pessoas Desaparecidas, o delegado José Lopes, o trabalho realizado é muito mais assistencialista do que repressivo, já que na maioria das ocorrências registra-se casos de fuga que são rapidamente solucionados.

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