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Moradores relatam saques e desespero por água mineral em Governador Valadares

Com o abastecimento de água potável suspenso desde o final de semana, centenas de pessoas se aglomeram em enormes filas para comprar água em algumas distribuidoras da cidade

Moradores de Governador Valadares, na região mineira do Vale do Rio Doce, relatam uma grande tensão por conta da falta da água causada pela lama no Rio Doce. Com o abastecimento de água potável suspenso desde o final de semana, centenas de pessoas se aglomeram em enormes filas para comprar água em algumas distribuidoras da cidade. Há relatos de saques de água e escolta policial nos comércios que vendem água.

Lama vinda do rompimento das barragens na mineradora Samarco em Mariana (MG) toma as águas do Rio Doce, em Governador Valadares
Lama vinda do rompimento das barragens na mineradora Samarco em Mariana (MG) toma as águas do Rio Doce, em Governador Valadares
Foto: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO

Desde segunda-feira um grupo de moradores se concentra na Praça dos Pioneiros para cobrar soluções para o problema que a cidade vive. Na noite desta quarta-feira (11), centenas de pessoas realizaram um momento de oração.

A Polícia Civil disse que está recebendo denúncias de comerciantes que aumentaram de forma abusiva o preço da água mineral, prejudicando a população. 

O autônomo Felipe Junior Costa, de 24 anos, conta que passou mais de quatro horas em uma fila para comprar água mineral. "Desde o fim de semana a gente não tem mais. Enchi tudo que eu pude lá em casa, coloquei em baldes, mas tudo já acabou", disse. Costa afirmou ter ficado sabendo por amigos sobre o ponto de venda recém abastecido e não hesitou em ir ao local. "Não estamos encontrando água em lugar nenhum."

Com trigêmeos de três meses em casa, a ajudante de cozinha Daniela de Souza, de 29 anos, pediu um copo de água na distribuidora para dar a uma das filhas que estava com ela. "Estamos comprando água filtrada para os bebês. O problema agora é que não chega nada de água em casa, não dá para ferver. Tenho que pedir à esposa do meu primo um copo de água por dia para cada bebê e me virar assim. Hoje, ninguém está dando água para ninguém", disse.

Estação de trem da Vale, em Governador Valadares (MG), foi pichada após o rompimento das barragens da mineradora Samarco em Mariana (MG), que tomou as águas do Rio Doce, comprometendo o abastecimento na região. Desde do dia 10, a cidade decretou estado de calamidade pública
Estação de trem da Vale, em Governador Valadares (MG), foi pichada após o rompimento das barragens da mineradora Samarco em Mariana (MG), que tomou as águas do Rio Doce, comprometendo o abastecimento na região. Desde do dia 10, a cidade decretou estado de calamidade pública
Foto: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO

A auxiliar de escola Maria Aparecida de Souza, de 45, aguardava a vez com a filha, a costureira Taynâ Helina de Souza, de 25. "Já vínhamos enfrentando problemas com água antes disso que aconteceu com o rio. O que aconteceu agora foi uma piora e ainda mais nessa época com altas temperaturas", disse Maria.

O fornecedor Yuri Dutra da Silva, de 21 anos, estimou que vendeu 250 garrafões por hora nos últimos dois dias. "A situação vai piorar. Anota o que estou dizendo. A caixa d'água do pessoal está secando e a calamidade só vai piorar. Estão dizendo que pode levar até 45 dias para a gente voltar ao normal. Vai ser bem difícil", disse Silva.

A Polícia Civil de Governador Valadares informou estar monitorando as denúncias de saque a mercados e distribuidoras, assim como casos de sobrepreço de água. "Vamos compilar todas as informações que chegarem, mas não há registros de saques até o momento. Quanto ao sobrepreço, estamos percorrendo estabelecimentos para informar que a prática configura crime contra a economia popular, cuja pena chega a dois anos", disse o delegado da cidade, Bernardo Pena Sales.

O colapso no abastecimento em Governador Valadares afeta cerca de 296 mil pessoas que moram na cidade. Caminhões-pipa abastecidos em cidades até 100 quilômetros distantes estão socorrendo pontos mais vulneráveis da região, como hospitais e abrigos. A administração municipal informou não ter definido ainda a logística de oferta de água para a população em geral, que desde segunda-feira está com torneiras secas.

 

Veja vídeos do rompimento da barragem

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