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Monja Coen: "Acredito que temos um dever muito grande de ser feliz e de encontrar um estado de plenitude"

Ela estudou em colégio de freiras, foi roqueira, usou drogas, imitou os Beatles na meditação transcendental e encontrou no zen budismo o estado de tranquilidade que tanto procurava

Monja Cohen

Até 1975, Cláudia Baptista de Souza já havia estudado em colégio de freiras, se casado (aos 14 anos), se separado (aos 17), tido uma filha, trabalhado como repórter, morado em Los Angeles, iluminado alguns shows de rock e experimentado a tríade sexo-drogas-rock and roll. Mas, naquele ano, aos 27, descobriu o poder da meditação. Resultado: anos mais tarde se tornaria a monja mais famosa do Brasil. De família quatrocentona paulistana, filha de um empresário e de uma pedagoga, ela sempre foi uma questionadora. Na escola, questionou as freiras. Na vida, queria saber o sentido da existência. Buscando respostas, experimentou ácidos, maconha e álcool. Provou tudo e viu que não era nada disso que procurava. “Queria encontrar Deus da forma que fosse”.


A menina que gostava de James Taylor, Yes, América, Pink Floyd e Deep Purple encontrou na meditação transcendental o sossego. “Os Beatles meditavam. Uma noite, ouvindo eles, quis saber mais sobre o que era aquilo. Nunca mais parei”. Acompanhando os primos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, do Mutantes, conheceu o segundo marido, o americano Paul Weiss, iluminador roqueiro do cantor Alice Cooper. Com ele, mudou-se para Califórnia e viu a vida se transformar.

Separou-se, mudou para comunidade Zen Center Los Angeles e depois viveu enclausurada durante sete anos num mosteiro em Nagoia, no Japão. Chamada de Coen (Co quer dizer “Só” e En quer dizer “Círculo”), foi a primeira mulher de origem não japonesa a presidir a Federação das Seitas Budistas do Brasil, em 1997. Três anos depois fundou a Comunidade Zen Budista, em São Paulo. Na próxima quinta-feira (18), ela vem a Vitória ministrar uma palestra sobre motivação no trabalho, uma parceria entre a Rede Gazeta e o Instituto Euvaldo Lodi (IEL). Depois de muitas voltas, entendeu que tudo o que procurava estava ali, dentro dela mesma. Mais do que nunca a roqueira está tranquila.

Quando e como a senhora teve a primeira experiência com o budismo?
Quando era repórter no ‘Jornal da Tarde’ (SP). Foi uma experiência muito rica, que começou a abrir esses portais de percepção em não ficar centrada em mim mesma. Nesse período queria saber como usar minha vida para beneficiar o maior número de seres. Fiz uma matéria sobre sociedade alternativa na Califórnia, há 40 anos, e eles já reciclavam, cuidavam do meio ambiente com a responsabilidade que hoje damos importância. Comecei a me perguntar: “Quem é esse grupo Zen?”. Foi o primeiro contato que tive com alguma coisa que poderia ser chamado de Zen Budismo. Algumas questões como “Deus existe?”, “O que é?”, “Como se manifesta?” surgiram e me levaram a chegar até as práticas meditativas. Mas antes dei várias voltas.

Uma dessas voltas foi passar uma temporada na Inglaterra. Como foi a experiência?
Foi muito boa. Lá encontrei e comecei a tomar LSD e o pessoal fumava muito haxixe. Entrei no mundo das drogas e numa procura interior de significados para a minha vida. Me questionava o que era divindade.

E nessa época a senhora é presa ao tentar entrar com drogas na Suécia...
Um amigo queria levar LSD para a Suécia, porque lá o pessoal se matava muito. Chegamos a conclusão que quem tivesse esse contato com Deus, o sagrado, e com a preciosidade da existência, não iria querer cometer suicídio. Então fomos com essa ideia maluca na cabeça e acabamos presos.

O que a senhora procurava ao tomar LSD e experimentar outras drogas?
Queria encontrar Deus da forma que fosse. Perguntava: “O que é vida?”, “E a morte?”, “Existe significado para essa existência?”. Essas eram as minhas perguntas e encontrei.

É verdade que foi durante uma noite, ouvindo Beatles, que a senhora começou a se questionar sobre algumas coisas?
Eles me inspiraram muito porque meditavam e eram pessoas inteligentes, com capacidade de comunicação de massa, que é uma coisa que aprecio muito. As músicas deles se tornaram clássicas e são admiradas por gerações. Pensava: “Esses caras meditam”. Isso me inspirou a procurar a meditação.

Como foi o período na prisão?
Fiquei cinco meses e 20 dias e foi uma experiência muito importante na minha vida. Não só porque as cadeias suecas são centro de reabilitação, mas porque todo mundo trabalhava. Foi um tempo onde refleti sobre o que estava fazendo e para onde queria ir.

Foi lá dentro que começou a meditar?
Um dia acordei antes do sol nascer e comecei a fazer o som do Ioga. Aquilo me deu um bem-estar tão grande que iniciei práticas meditativas diárias. Entrei em outro nível de consciência, plenitude e alegria. O período na prisão também foi importante por conhecer mulheres muito sofridas. Algumas berravam a noite porque não tinham drogas, outras tinham as veias todas arrebentadas. Conviver com elas me fez escolher um caminho de menos dor.

Ao sair da prisão você retorna ao Brasil?
Volto. Tinha muita saudade da minha filha, só queria ficar com ela. Acabei dando aulas de inglês também. Aconteceu que meus primos - integrantes dos Mutantes - faziam muito sucesso e o pai deles achou que eu estava muito solitária e acabou me levando para viajar nos shows. Num desses encontros teve o show do Alice Cooper e acabei casando com o homem que fazia a iluminação do show, e indo morar nos Estados Unidos.

Em Los Angeles acontece a transformação?
Trabalhava como secretária no Branco do Brasil e lá procurei o Centro Zen. Ali percebi que tudo fazia sentido, não usava mais drogas, saí do mundo do rock and roll e fui me afastando do meu marido. Pedi demissão e fui morar na Comunidade Zen Budista, onde fiquei três meses em treinamento intensivo. A experiência do Zen me fez transformar e rever a minha vida. Não era mais puxada ou empurrada pelas paixões, emoções, amores, bebidas, drogas, sucesso e fama. A minha maior gratidão era me tornar monja.

Quando você decide se tornar monja?
Quando fiz um retiro espiritual de sete dias e sete noites e percebi que a coisa mais preciosa que havia acontecido na minha vida era ter encontrado práticas meditativas.

Como foi viver no mosteiro feminino em Nagoia?
Fiquei sete anos vivendo num sistema de internato, onde só saía para pedir esmolas nas ruas. Tinha ainda a minha ignorância da cultura e da língua japonesa. Era muito sofrido ouvir o dia inteiro japonês e não entender. Havia momentos em que me sentia muito aflita, isolada e sozinha. Então ia ler o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, onde encontrava o meu estado de tranquilidade.

O que aprendeu nesse período?
Foi um período de enriquecimento. Pensava em coisas que talvez tivesse feito, como por exemplo, deixar a empregada de casa comer depois de mim na hora do almoço. Quando fizeram isso comigo eu pensei: “Nossa, como dói”. Todo esse meu olhar se transformou.

A senhora vem a Vitória ministrar uma palestra para líderes empresariais. Qual a proposta?
Acredito que nós temos um dever muito grande, que é o de ser feliz, de produzir o melhor e de encontrar um estado de plenitude na vida. É preciso saber que onde você está é o melhor lugar no mundo, porque você está lá. E também como fazemos da nossa empresa a melhor, como fazer do nosso trabalho o melhor e mais sagrado do mundo. É preciso perceber que, atualmente, o lucro não é somente o financeiro, mas existe o lucro social e ambiental, e nós temos que ver todos esses aspectos. Não tem o eu separado, não podemos nos separar da realidade do outro. Ou ganhamos todos juntos ou perdemos todos.

Temos que ser competitivos?
A competitividade existe e ela não é má. A maldade é se você quiser o mal do outro. Mas querer competir com pessoas muito capazes é diferente, porque assim levamos o país para frente e cabe a nós fazermos isso. O Japão é um ótimo exemplo, foi bombardeado e completamente destruído e se tornou uma potência porque teve unidade nacional. Temos que cuidar um dos outros e não só abusar dos outros.

Como alcançar um espaço de tranquilidade na liderança?
Acho que práticas meditativas são muitos boas, além de atividades físicas. E encontrar dentro de você a capacidade de tomar decisões acertadas. Além de ter consciência de que você não é manipulado e nem manipula ninguém. Um líder é aquele que serve e que cuida, não é o que manda. É aquele que estimula as pessoas a produzirem o seu melhor. Temos que acreditar nos princípios e valores da empresa em que trabalhamos.

Por que estamos cada dia mais ansiosos?
Porque temos estímulos demais e descobrindo meios de comunicação que são muito estimulantes. E ainda não aprendemos a lidar com os novos brinquedos. Vamos reaprender a priorizar. Cada um tem que aprender o que é importante para ele, para a empresa e como fazer mais em menos tempo. Mas só conseguimos fazer isso em plena atenção. Tem que estar inteiro no que está fazendo. Mas também, sem um pouco de ansiedade, não vamos para frente.

O que gosta de fazer nas horas de lazer?
Tenho três cachorros e brinco muito com eles. Corro cinco quilômetros duas vezes por semana, pratico Ioga e treinamento funcional. Eu mexo o meu corpo e isso é importante.

Tem saudades de ir em show de rock?
Não é bem saudades. Mas tenho certeza que quando entro num show de rock eu fico em casa também.

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