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Com 110 anos de vida, mulher centenária conta o segredo para viver tanto

Dona Leopa revela: nunca fumou, gosta de peixe e de sorrir

Do lado de fora da casa, um pé de “dama da noite” começando a florir. Das folhas simples exala um perfume especial. Na entrada da residência, logo na varanda, uma placa indicando que ali é o “Lar da Paciência”. Na sala, está Leopoldina Nascimento - a dona Leopa -, que nesta segunda-feira (17) completa 110 anos de vida, tomando uma xícara de café, pausadamente, ao tempo que seu tato a permitia.

Mesmo sem qualquer pergunta, a senhora de riso largo, seguramente, exclama: “Sorrio sempre, estou sempre feliz, afinal tenho vida dentro de mim! Amo viver!”, disse ela com olhos arregalados e fitados em seu andador. “É com ele que ainda posso caminhar”, conta.

Leopa, apelido carinhoso dado por uma das crianças de que cuidou na adolescência, nasceu na cidade de Marechal Floriano, em 17 de agosto de 1905. Foi lá que ela passou sua infância, etapa da vida que mais sente saudades. Hoje, ela mora no Lar de Idosos Avedalma, em Cariacica Sede.

Sem diploma acadêmico, ela estudou até a 3ª série, pois a patroa não queria que ela se instruísse. Mas seu pai, o senhor Manoel Vieira do Nascimento, escravo liberto pela Lei do Ventre Livre, fez questão de que ela se alfabetizasse.

Com sua mãe, dona Maria Vieira, aprendeu o ofício que logo praticaria nas casas que passou a trabalhar. Leopa foi a segunda de oito irmãos e, aos 13 anos, deixou o lar para trabalhar em Cachoeiro de Itapemirim, na casa de uma família, que a acolheu como parte integrante da mesma. Inclusive, uma criança que ela ajudou a cuidar, sempre a acompanha e vai visitá-la.

Dona Leopa sempre foi fã de boas melodias e poesias. “Escrevia os versos que eu mais gostava em um caderninho, mas hoje não enxergo tão bem para continuar a escrita”, disse.

De acordo com ela, mesmo com o corpo mais “debilitado e bloqueado”, sua memória continua muito lúcida, ao ponto de declamar poesias e cantarolar o Hino Nacional. “Só não consigo mais tocar gaita que tanto gostava”, disse.

Para A GAZETA, Leopa recitou poemas, revelou seus segredos para a longevidade, contou sobre seus medos, e abriu o diário de sua vida, que você pode conferir a seguir.

Dona Leopa, na entrada da casa de repouso, onde vive, em Cariacica:“Quero sorrir e viver plenamente”
Dona Leopa, na entrada da casa de repouso, onde vive, em Cariacica:“Quero sorrir e viver plenamente”
Foto: Edson Chagas - GZ

Infância

“Sinto muitas saudades da infância. Eu brincava muito na rua, bem próximo à igreja que frequentava. Pique-esconde e pular corda eram minhas brincadeiras preferidas. Mesmo quando era criança ajudava minha mãe a cuidar dos irmãos mais novos e também da casa. Foi assim que aprendi meu ofício de doméstica”.

Trabalho

“Comecei a trabalhar como doméstica aos 13 anos. Cuidei de muitas crianças, arrumei muita casa. Sempre com muita paciência. Não gosto de ficar nervosa, pois isso só atrapalha. Por causa do trabalho, não pude estudar por muito tempo. Me sentia membro da família das duas casas em que trabalhei. Eles gostavam muito de mim. Eu ficava longe de meus irmãos e meus pais, mas não me sentia sozinha. Passei a ter mais de duas famílias, mesmo não tendo filhos”.

Amores

“Nunca namorei, tive apenas um pretendente. Passeamos uma vez na pracinha, mas nada mais que isso. Meus patrões não aceitavam que eu namorasse de jeito nenhum. Não sentia falta, eu era muito tímida. E tinha muito medo de ficar mal falada. As pessoas maldavam muito quando via uma moça acompanhada”.

Liberdade

“Sempre gostei da palavra liberdade. É coisa boa! Nosso povo tem que ser liberto da ignorância que asfixia. Todos devem ser livres, ninguém gosta de ficar preso, agarrado. Amo a liberdade!

Vida

“Amo viver! A vida é muito boa. Aprendi muita coisa boa nessa vida. Por isso vivo sorrindo. Mesmo chorando, sorrio. Temos que sorrir, afinal importante é viver bem, esquecendo que os problemas existem. Na verdade, eles são sempre pequenos. Tenho chorado muito, mas acredito que não há sofrimento sem causa. Talvez esteja pagando alguma dívida por algo que fiz”.

Segredo

“Não sei por que estou vivendo tanto tempo. Mas nunca fumei, e muita gente da minha família morreu cedo por causa disso. Sempre gostei muito de comer peixe, minha comida preferida. Acho que isso me fez ser saudável e ter saúde. Sou muito paciente, nada me irrita, isso também é importante para viver tanto. Na verdade, não há segredo, é só viver”.

Morte

“A morte é apenas a separação do nosso corpo da alma. É uma mudança, que acredito que seja para melhor. Não tenho medo desse momento de passagem, só um pouco de receio por não saber o que será depois. Mas a curiosidade é maior. Só meu corpo vai morrer, minha essência vai ficar. Terei outras vidas, e viverei plenamente mais uma vez”.

Democracia

“Amo meu País. Ele é lindo! Sou brasileira de coração e alma, e amo meu povo por ser um povo nobre. Se estiver viva ano que vem com certeza vou votar. Acho importante participar das eleições. Nós que decidimos o que é bom ou ruim. As pessoas têm que entender isso o quanto antes”.

Mensagem

“Quero que os jovens se livrem de todas as maldades. Que eles tenham o máximo de cuidado com a vida deles, poupando a saúde. Que não se deixem levar para o mundo das drogas. Muitos deles são mortos por causa disso. Que eles possam amar as suas vidas”.

Centenária

Foto: Edson Chagas - GZ

Dona Leopa completa 110 anos amanhã, e com muita disposição para viver mais

Nascimento

Leopoldina Nascimento nasceu em 17 de agosto de 1905, em Marechal Floriano. Ela é filha de escravo liberto pela

Lei do Ventre Livre.

Trabalho

Leopa não teve filhos, e dedicou sua vida ao trabalho como doméstica. As duas famílias que a acolheram ao longo da vida são para ela pessoas muito queridas.

Poesias

Ela gosta de poesias e música. Sabe algumas de cabeça, e até pouco tempo tocava gaita, seu instrumento preferido.

Aniversário

Amanhã, dona Leopa completa 110 anos

de vida e, ainda, com muita vitalidade.

"Lara da Paciência"

Hoje, ela mora no Lar de Idosos Avedalma, em Cariacica- Sede, desde 2008.

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