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Cortar comprimido compromete dose e ação de medicamentos

Pedaços podem não conter a mesma composição, alertam especialistas

Uma prática comum da população, partir, amassar ou diluir comprimidos na tentativa de modificar a dosagem do medicamento pode comprometer o tratamento do paciente e até anular o efeito do remédio, especialmente os comprimidos revestidos, segundo especialistas.

O risco existe porque, quando o comprimido é partido, mesmo que seja ao meio, as partes podem não conter exatamente a mesma dosagem farmacológica e com isso, o paciente deixa de ingerir a dosagem necessária, segundo o farmacêutico da farmácia Monica, Marcos Dolabella.

E o risco é maior quando se trata de comprimidos revestidos. “Quando passam pelo estômago, esses comprimidos estão protegidos pelo revestimento até chegar ao intestino, onde são absorvidos. Se fragmentados, entram em contato com o PH do estômago e podem ter seu efeito anulado”, alerta.

Esse é o temor do músico Ronnie Mombrini Bermudes, de 21 anos. Com um rim transplantado, Ronnie precisa de 1,5 miligrama do imunossupressor Everolimo, usado em caso de falência ou rejeição de transplante de rim, a cada 12 horas. Com o preço médio do medicamento saindo a R$ 1.200, o jovem conta que recorre à farmácia popular, no Centro de Vitória.

Edson Chagas    Medo: Com um rim transplantado e tendo que partir o medicamento, o músico Ronnie M. Bermudes, 21, tem medo de perder o órgão. "Se o tratamento falhar, o que vou fazer? Não quero passar por todo o sufoco do passado." Ronnie M. Bermudes, músico, 21 anos
Edson Chagas Medo: Com um rim transplantado e tendo que partir o medicamento, o músico Ronnie M. Bermudes, 21, tem medo de perder o órgão. "Se o tratamento falhar, o que vou fazer? Não quero passar por todo o sufoco do passado." Ronnie M. Bermudes, músico, 21 anos
Foto: Edson Chagas

E como a farmácia tem disponibilizado apenas a versão de 1,0 miligrama do medicamento, ele precisa partir um comprimido. As versões 0,5 e 0,75 miligramas estão em falta.

O médico nefrologista e clínico Michel Assbu também explica que o ideal é que o comprimido não seja partido. “Mas não havendo outra solução, o paciente precisa continuar o tratamento”, defende.

Mesmo os comprimidos que apresentam um sulco ao meio, uma espécie de picote, só devem ser partidos com orientação médica, segundo esses especialistas. Além disso, a “sobra” que será ingerida mais tarde, pode perder o efeito.

Existem alguns tipos de cortadores de comprimidos no mercado, mas ainda assim, não há garantia de dosagem correta, segundos os profissionais.

Atenção!

Comprimidos

Com sulco

Só devem ser partidos com orientação médica e ainda assim há risco da dosagem não atingir a prescrita pelo médico

Revestidos

Não devem ser partidos, pois ao entrar em contato com o PH do estômago seu efeito poder ser anulado

Remédio é gratuito em hospital privado

O imunossupressor Everolimo em dosagens variadas, usado em caso de falência ou rejeição de transplante de rim, pode ser retirado no Centro de Transplante Renal do Hospital Meridional, em Cariacica, de acordo com o coordenador e nefrologista Lauro Vasconcelos.

Ele diz que é uma oportunidade para pacientes que não têm encontrado no SUS a dosagem prescrita.

A Secretaria de Estado de Saúde respondeu, em nota, que disponibilizou a dosagem para o músico Ronnie Mombrini Bermudes, conforme prescrição médica, mas família alega que a receita pede comprimidos de 1,0 mg e 0,5 mg. Já o Ministério da Saúde explicou que o repasse do medicamento nas dosagens de 0,5 mg, 0,75 mg e 1,0 mg está regular no Estado.

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